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O Fundamentalista Científico

Por que é que as mulheres vítimas de violência doméstica não saem de casa?

Por Satoshi Kanazawa [a]

A Carlin Flora [1] escreveu, em tempos, um artigo [2] sobre o enigma da violência doméstica. Dado o enorme custo somático e para a saúde dos maus-tratos, a questão de por que muitas mulheres agredidas permanecem junto dos seus maridos ou namorados violentos é intrigante. Embora a maioria das mulheres agredidas acabe por se afastar dos seus agressores, uma minoria substancial (as estimativas variam entre um quarto e um terço) permanece nos seus relacionamentos violentos. O problema é duplamente intrigante do ponto de vista da psicologia evolutiva, porque envolve a importância da vida, da sobrevivência e do bem-estar individual. Por que tantas mulheres agredidas permanecem nos seus relacionamentos violentos?

O que aumenta o mistério é que a maioria das mulheres não compreende a sua própria escolha. Quando pressionadas, no entanto, muitas respondem, dizendo:

— Porque o amo — a ligação emocional com o agressor é uma das principais razões que as mulheres agredidas dão para escolherem ficar. Duma perspectiva da psicologia evolutiva, o amor e as outras emoções são mecanismos exteriores, que obrigam os organismos a adoptar um comportamento que, no contexto do ambiente ancestral, teria aumentado a sua adaptação e subrevivência. O facto das próprias mulheres não compreenderem a sua própria escolha, quando seguem as suas emoções e ficam com os seus parceiros violentos, parece sugerir um possível papel para a lógica evolutiva, a que as mulheres não têm total acesso consciente. Mas que possíveis benefícios reprodutivos podem advir de permanecer junto dos companheiros violentos, quando essas mulheres são muitas vezes gravemente feridas, às vezes mortas?

Da visão dawkinsiana (ou, mais correctamente, hamiltoniano), centrada nos genes, da vida, há uma coisa mais importante do que a própria vida: o sucesso reprodutivo. A vida é importante, a sobrevivência é importante, só porque o leitor não pode ter sexo se estiver morto. A vida é apenas um meio para a reprodução. Os organismos (como os humanos) são apenas veículos para os seus genes, e são os genes, não os organismos, que têm as rédeas. Portanto, seria um forte argumento a favor da visão da vida centrada nos genes, se se demosntrasse que permanecer com um parceiro violento tem algum benefício para os genes das vítimas, ainda que incorrendo em custos enormes para as próprias vítimas.

Uma possível tal benefício é que, tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, as mulheres com parceiros violentos têm mais filhos. Na amostra britânicos, as mulheres casadas com maridos abusivos têm, em média, um onze-avos de filho a mais do que aquelas que não estão casadas com tais homens (0,7912 vs. 0,7007). A diferença aumenta para um oitavo de filho (0,1324), numa análise de regressão múltipla que inclui controlos estatísticos adequados para potenciais factores de confusão. No entanto, as mulheres maltratadas não têm mais filhas do que as mulheres que não são vítimas de violência doméstica (0,6787 vs 0,6836). E a tendência para a violência, que é em grande parte uma função dos níveis de testosterona dos homens, é altamente hereditária. Por outras palavras, pais violentos tendem a gerar filhos violentos.

Os homens violentos tendem a não ser bem sucedidos nas sociedades pós-industriais civilizadas, como a nossa; eles tendem a estar sobrerrepresentados na população prisional. No entanto, o nosso cérebro não sabe disso. O cérebro humano, incluindo todos os seus mecanismos psicológicos evoluídos, foi desenvolvido e adaptado às condições do nosso ambiente ancestral. No nosso ambiente ancestral, os homens violentos, provavelmente, sair-se-iam muito bem na sua competição entre pares por um estatuto superior e, deste modo, por oportunidades de acasalamento. O pai mais prolífico na História documentada, Mulei Ismael, o Sanguinário, que teve pelo menos 1.042 (mas provavelmente mais perto de 1.400) crianças em sua vida, também tinha a fama de ter morto 30.000 pessoas com as próprias mãos. Os homens agressivos, violentos e cruéis originaram muitas vezes os melhores guerreiros e líderes políticos ao longo da história evolutiva humana, até muito recentemente.

Em espécies caracterizadas por um investimento paterno alto (como sucede com os humanos), os homens em estratos de poder superiores são, em média, melhores pais, devido à sua maior capacidade de proteger e investir nos filhos, do que os homens em estratos de poder inferiores. Os filhos de tais homens de estratos de poder mais elevados estão, portanto, em melhores condições do que os dos homens de estratos de poder inferiores. Além disso, se a mulher agredida já tem filhos com o agressor, ela pode não ser capaz de encontrar um companheiro alternativo, superior e pai dos seus filhos, porque os padrastos representam, provavelmente, o maior perigo físico para as crianças. Os bebés e as crianças que não vivem com os dois pais biológicos enfrentam uma probabilidade quarenta a cem vezes maior de ser feridos ou mortos no seio da família, por comparação com aqueles que vivem com ambos os pais biológicos. Assim, por muito terrível que viver com um agressor possa ser para o bem-estar físico da mãe, a alternativa (deixá-lo e viver com outro homem que não seja o pai genético dos seus filhos) pode ser pior para o bem-estar físico e reprodutivo dos seus filhos (e, portanto, dos seus genes). Portanto, não é inteiramente irrazoável postular que as mulheres podem ter sido seleccionadas no sentido de tolerar um certo nível de violência não-letal nos seus companheiros, a fim de proteger simultaneamente os seus filhos e de produzir filhos mais propensos a obter sucesso reprodutivo (ainda que também violentos para com as suas mulheres).

Eu estou a não sugerir enfaticamente que as mulheres preferem acasalar com abusadores violentos em vez de milionários suaves, gentis e com recursos. Dada a escolha, qualquer mulher em sã consciência iria preferir o último ao primeiro. No entanto, o processo de acasalamento está longe de ser aleatório ou sem restrições; nenhuma mulher (ou homem) tem uma gama inteira de potenciais companheiros à escolha. Devido à natureza altamente estruturada e socialmente restrita de conhecer pessoas, que resulta em acasalamento não aleatório, a escolha que algumas mulheres infelizmente enfrentam é muitas vezes entre homens desempregados, sem educação, sem inteligência, sem motivação e alcoólicos que são violentos e homens desempregados, sem educação, sem inteligência, sem motivação e alcoólicos que não são violentos. A minha sugestão é apenas que, nalgumas circunstâncias, as mulheres podem ter sido seleccionadas no sentido de preferir os primeiros aos segundos. Alguns falhados (dos dias actuais) podem ser melhor do que outros, especialmente no contexto do ambiente ancestral. Existe ainda alguns dados de experiências de campo em quatro cidades americanas que sugerem que homens empregados são mais propensos a bater nas suas mulheres do que homens desempregados.

A diferença no número médio de filhos entre as mulheres vítimas de violência doméstica e as que não o são (cerca de um onze-avos a um oitavo de filho) é reconhecidamente muito pequena. No entanto, os modelos biológicos evolutivos mostram que mesmo uma vantagem de 1% no sucesso reprodutivo é suficiente para esse traço se espalhar na população num período de tempo relativamente curto. Portanto, mesmo uma pequena vantagem de ter uma fracção dum filho carregando os genes violentos do pai e, assim, superando os seus rivais masculinos na competição por estatuto e companheiras pode ser suficiente para a tendência das mulheres a permanecer junto dos seus maridos violentos se enraizar.

A tendência para as mulheres agredidas terem mais filhos do que as restantes mulheres pode potencialmente explicar o fenómeno, doutra forma intrigante, dalgumas mulheres agredidas permanecerem nos seus relacionamentos violentos. Esta explicação, se for, pelo menos, parcialmente verdadeira, reforça o poder da psicologia evolutiva e da sua visão da vida centrada nos genes. Às vezes, os organismos sacrificam o seu bem-estar e a sua vida, a fim de aumentar o seu sucesso reprodutivo.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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