Categorias
Consultório da Ria

Histórias de Economia: as repúblicas mercantis

Por Hugo Pinto de Abreu

No último «Consultório…» [1] que dedicámos a falar de histórias de economia [2], fizemos um retrato da Europa no ano de 1453 [3]. Partamos desse retrato: falámos, muito en passant, de entrepostos comerciais genoveses na Península da Crimeia [4], hoje em dia ocupada pela Rússia. Parece-me um bom ponto de partida para falar hoje das grandes potências comerciais da Idade Média: Génova e Veneza.

A República de Génova [5] emergiu no século XI e cresceu num contexto favorável: o conflito entre o Papa e o Imperador do Sacro-Império Romano-Germânico [6], sucessor — em grande parte fictício — do Imperador Romano do Ocidente. O equilíbrio entre estes dois poderes, o Papa e o Imperador, seria jogado de forma mais ou menos hábil pelas cidades-estado italianas ao longo da sua história.

Mais antiga, a Sereníssima República de Veneza [7], a outra grande potência comercial da época no Mediterrâneo, começou a sua expansão também no século XI. Inicialmente bastante dependente do Império Romano do Oriente (do Império Bizantino), foi ganhando progressiva autonomia e acabaria por desempenhar um papel importante nos dois colapsos deste Império: na Quarta Cruzada, em 1203, em que os Cruzados latinos saquearam Constantinopla; e, dois séculos e meio mais tarde, em 1453, no colapso definitivo, ao não prestar qualquer auxílio relevante aos Bizantinos. Veneza sobreviveu longamente ao Império Bizantino, mas, tal como Génova — e talvez mais acentuadamente — entrou em declínio pronunciado no final do século XV e no século XVI, com o advento das rotas africanas para o Oriente e com o descobrimento do continente americano.

Veneza e Génova são exemplos notáveis de unidades políticas que se ergueram (e decaíram) por razões claramente económicas, mais propriamente por razões comerciais: ambas as repúblicas tinham amplas rotas comerciais no Mediterrâneo e até fora dele: Veneza com especial ênfase no Mediterrâneo Oriental; Génova, apesar da forte presença nessa zona (já referimos os entrepostos na Crimeia, no Mar Negro), tinha também rotas Ocidentais para a Flandres e Safi (em Marrocos), passando por Portugal. Com os Descobrimentos, as rotas terrestres perderam importância e Génova e Veneza não conseguiram adaptar-se à nova realidade comercial.

Os Países Baixos — que já referimos na nossa última crónica [1] sobre histórias de economia [2] —, por sua vez, preencheram, dalgum modo, o papel de «Veneza dos Oceanos». Fica prometido que em breve falaremos deste país, cujo enorme poderio geopolítico teve muito a ver com o seu poderio económico.

Um comentário a “Histórias de Economia: as repúblicas mercantis”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *