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Transporte Humano

Ferramentas para cidades pequenas

Por Jarrett Walker [a]

No início da minha carreira, fiz uma série de projectos de redes de transporte colectivo para pequenas cidades do Oeste americano. Essas cidades, com populações de 30.000–100.000 habitantes, tendem a ter um conjunto similar de problemas e de oportunidades e, provavelmente, beneficiariam dum pouco mais de atenção dos teóricos do transporte colectivo. As mesmas questões surgem na maioria destas cidades, seja na América do Norte, na Austrália ou na Nova Zelândia, entre as quais:

  • Baixo congestionamento de tráfego, o que torna possível oferecer um serviço fiável, construído à volta de pulsos [2].
  • A tendência para destinos importantes para o transporte público estarem espalhados por toda a cidade, muitas vezes em consequência do baixo valor dos terrenos para construção, criando assim um padrão de procura «de todos os lugares para toda a parte».
  • A justificação predominantemente de «serviço social» para a existência da rede, por oposição a uma justificação de redução do uso do transporte individual, embora esta possa surgir em cidades fortemente influenciadas por universidades.

O leitor pode ver quase todas estas questões, bem como a abordagem que eu geralmente recomendo, em Great Falls, Montana. Eu liderei um estudo para a Great Falls Transit  [3], no final da década de 1990, que lançou as bases da rede actual. Recentemente, recebi uma chamada de atenção para o mapa desta rede [4] e foi interessante descobrir que ele pouco mudou desde que eu trabalhei nele.

Esta rede é composta por linhas que, na sua maioria, têm uma frequência horária ou semi-horária. A ideia central da rede é o pulso [2], uma reunião de autocarros de cada linha, a cada hora ou meia hora, num ponto central, de modo que o passageiro pode mudar de qualquer autocarro para qualquer outro, mesmo a frequência sendo baixa. Geometricamente, não há outra solução para o problema do transbordo em redes de baixa frequência com padrões de procura «de todos os lugares para toda a parte». É o modelo habitual nas pequenas cidades de toda a América do Norte.

Em Great Falls, o pulso ocorre num terminal do centro [5], que é também, de forma muito útil, o terminal de autocarros interurbanos. No entanto, o desenho da rede também permite um segundo ponto de pulso externo, a Leste. A maioria das redes de pulso cria essas oportunidades, mas nem todas tiram proveito delas.

Em Great Falls, o ideal seria que as linhas 1, 2, 3 e 4, que cruzam todas perto do extremo Leste da cidade, fizessem uma ligação combinada também aí. Afinal, se os autocarros estão todos no centro ao mesmo tempo, eles tendem a estar na outra extremidade da linha também ao mesmo tempo, pelo que também deve ser possível organizar um pulso aí. Se linhas 1, 2, 3 e 4 tiverem todas exactamente o mesmo tempo de viagem, isso iria funcionar perfeitamente.

Não é o caso em Great Falls, pois os percursos são muito desiguais. Nós tentámos fazer com que funcionasse, mas, em última análise, a linha 1 demora muito mais tempo do que as outras, de modo que, para ter todos os autocarros no centro da cidade ao mesmo tempo, a linha 1 tem de sair do extremo Leste antes das outras chegarem. Note-se que o mapa tem um aviso, perto do extremo Leste da linha 1, que não é possível fazer uma ligação combinada nesse ponto. As ligações entre as linhas 2, 3, e 4 são possíveis.

Outro truque que eu uso muitas vezes é o da continuidade no fim das linhas, representado pelas pequenas caixas que dizem coisas como «5 becomes 6, 6 becomes 5» [5 passa a 6, 6 passa a 5]. Isto é tanto uma estratégia de desenho de rede como uma estratégia de legibilidade.

Do ponto de vista operacional, os autocarros das linhas 5 e 6 não vão e vêm em percursos individuais. Em vez disso, eles operam círculos contínuos de duas vias: o autocarro que sai do centro da cidade como 5 volta como 6, em seguida, torna a partir como 5, e volta novamente como 6, etc. Outro autocarro faz o oposto.

Então, por que numerar as linhas desta forma? Por que não podemos descrevê-las como elas são: um círculo no sentido horário e um círculo no sentido anti-horário? Porque resultaria em maior complexidade. Se a maioria das pessoas viaja em dois sentidos para dentro ou para fora da cidade, por que dizer-lhes que precisam da linha 5 para ir e da linha 6 para vir e por que encher o mapa com sobreposição de círculos e pilhas de setas de sentido único? É mais simples apresentá-las como linhas de dois sentidos e então fazer a nota, para uso das poucas pessoas que podem necessitar, que é possível seguir duma linha para a outra.

Devido ao sistema de nomenclatura, cada segmento de linha na rede de Great Falls é apresentado ao passageiro como de dois sentidos, com a excepção trivial de pares de ruas de sentido único adjacentes. Este é um grande feito, se se comparar esta rede com as de cidades de dimensão semelhante, que muitas vezes apresentam emaranhados vertiginosos de círculos de sentido único sobrepostos. Aqui está, por exemplo, um pouco da rede de Wodonga, Vitória, Austrália [6]. Comparado com o mapa de Great Falls acima, quão aprazível lhe parece esta rede?

Círculos unidireccionais significam que a forma de ir de A a B é diferente da forma de voltar de B a A; e uma pode ser muito mais longa ou mais curta do que a outra. A minha insistência em apresentar serviços bidireccionais, tanto quanto possível, é para oferecer um sistema de transporte tão legível como o sistema viário, de modo que os passageiros o achem aprazível não só para a viagem que fazem todos os dias, mas para qualquer nova viagem que queiram experimentar.

Eu orgulho-me de ter desenhado a estrutura subjacente a várias redes de pequenas cidades do Oeste americano, que ainda funcionam, uma década ou mais depois, incluindo os de Chico, Califórnia [7] (agora parte da Butte Regional de Transit [8]); Corvallis, Oregão [9, 10]; e Klamath Falls, Oregão [11]. O leitor verá algumas das mesmas técnicas em uso nessas redes. Se o sistema de transporte colectivo da pequena cidade onde o leitor vive precisar de simplificação, envie-lhes o endereço deste artigo e exorte-os a entrar em contacto comigo!


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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