Categorias
Consultório da Ria

Um triunfo comunicacional

Por Hugo Pinto de Abreu

Fiquei estupefacto quando, há algumas semanas, liguei a rádio e ouvi as severas críticas do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho aos jornalistas, a propósito da cobertura que têm feito ao Orçamento do Estado e à Proposta de Reforma do IRS [1]. E fiquei estupefacto, espantado, incrédulo, não tanto pelo conteúdo — que, sendo grave, já dificilmente nos espanta, vindo dum executivo que não viu inconveniente em fazer todo o tipo de pressões sobre o Tribunal Constitucional — mas porque creio que Passos Coelho leu mal a situação: a cobertura mediática sobre o Orçamento do Estado para 2015 e sobre a reforma do IRS, a meu ver, seguiu de forma mais ou menos acrítica a narrativa governamental. O meu espanto, portanto, deveu-se a ver Passos Coelho comprar uma guerra com os jornalistas, quando estes lhe tinham acabado de oferecer um triunfo comunicacional.

O Primeiro-Ministro acusou os jornalistas — ou parte deles — de serem «preguiçosos» e de serem «Maria vai com as outras», não comunicando aos Portugueses a verdade sobre a actuação, as intenções e os resultados do Governo, dando aos cidadãos uma versão enviesada da realidade, prejudicial ao Governo.

Como já disse, estas palavras parecem-me incompreensíveis, até mesmo em termos tácticos. De facto, os jornalistas, na sua generalidade, não conseguiram informar correctamente os cidadãos sobre alguns pontos. Por exemplo, o cidadão comum não entendeu que as normas relativas à reforma do IRS não estavam incluídas no Orçamento do Estado para 2015, quando os seus impactos orçamentais já estavam reflectidos no Orçamento, o que limita em muito o trabalho de escrutínio da oposição, dos cidadãos e dos jornalistas: durante muitos dias, andou-se, efectivamente, a falar de coisas que não se conheciam (a proposta de lei não estava ainda preto no branco, só se conhecia a Proposta final da Comissão para a Reforma do IRS), mas tal aconteceu devido à acção do Governo, que eu julgo ter sido intencional [2].

Desta forma, oposição e jornalistas estavam sempre em fora-de-jogo, comentando uma proposta de lei que ainda não existia, baseando-se numa proposta que o Governo poderia sempre alterar, como de facto alterou: veja-se o caso, bem conhecido, da cláusula de salvaguarda. Mas há muitas outras diferenças face ao texto da Comissão para a Reforma do IRS, que não foram mediatizadas. De facto, seria muito interessante que alguns senhores jornalistas se dedicassem a essa tarefa, mas não nos iludamos: a tarefa de escrutínio da acção do governo pertence, em última análise, a todos os cidadãos. Os textos são públicos e estão ao alcance dum clique. Estou absolutamente persuadido do impacto positivo avassalador que decorreria dum maior compromisso, por parte dos cidadãos, em acompanhar e escrutinar a acção política e governativa.

Quanto aos jornalistas, penso que, de facto, não estiveram bem neste processo: deviam ter deixado claro que as ditas «propostas do Governo» ainda não eram realmente propostas do Governo e, portanto, dado um tratamento diferente às mesmas, realçando o seu carácter eventual. Não o souberam fazer: penso que não se trata de preguiça, mas de falta de formação em áreas que são extremamente específicas e que um jornalista, ou qualquer outro cidadão sem formação especializada, dificilmente poderão entender: isso implica que o discurso do poder seja frequentemente transformado acriticamente na narrativa da realidade, por jornalistas, comentadores e cidadãos.

Mas, neste caso, o discurso do poder é o discurso de Passos Coelho e, portanto, do seu interesse. Portanto, das duas, uma: ou o Primeiro-Ministro perdeu a noção da realidade; ou a narrativa que vê nos jornalistas o inimigo passou a ser a actual narrativa do poder. É possível que seja uma opção estratégica, a ser seguida até às eleições, mas parece-me bem perigosa: o jornalista médio pode não entender muito sobre economia, finanças ou fiscalidade, mas percebe qualquer coisa sobre jornalismo — entende, portanto, que tal jogada, a ser uma jogada, é um total embuste.

2 comentários a “Um triunfo comunicacional”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *