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Anotação Musical

Serviço público

Por Nuno Rua

Temos em Portugal dois canais de televisão públicos. É verdade o que vos conto, a RTP 1 e a RTP 2 fazem parte do serviço público do nosso País. Tanto estes canais televisivos, como os de rádio, contam com uma contribuição de todos. Em retorno, recebemos conteúdos de diferentes naturezas: informativos, de entretenimento, desportivos ou mesmo conteúdos culturais. Trata-se duma valência na vida do cidadão; é como uma enorme enciclopédia, em constante actualização.

Era bom que tal acontecesse no nosso País. Ainda que reconheça a dificuldade em agradar a gregos e a troianos, vejo o serviço público a reduzir cada vez mais a qualidade dos seus conteúdos. A minha irritação surge no que toca à música, pelo facto de programas musicais televisivos se auto-proclamarem educativos e culturais, quando existem instituições, como os conservatórios, que ensinam há séculos e não são tidos em conta pelo serviço público.

Num programa em que «A Voz» faz eco à música pop e onde os jurados fazem parte desse mesmo mercado mainstream, todo o conceito assenta na pop culture na perfeição. Nada contra esta música, até porque esta definição cria não só problemas interessantes na própria designação (assunto para outra crónica), como também um amplo cardápio de estilos musicais e artistas, dos Beatles [1] ao Justin Bieber [2]. Ora bem, para os mais distraídos, não só de Enrique Iglesias [3] vive a música — nem só de voz, ou de imagem, ou de público em massa.

O que vai acontecendo com este tipo de programas, em que a música pop é elevada e levada a um patamar de exclusividade, é que o público cada vez mais assume este estilo musical como único e requintado. O que deveria acontecer era a exploração doutras músicas — para além de nem toda a gente gostar de música dita popular, é importante dar a conhecer outras músicas a quem ainda não tem informação e formação para este conhecimento.

É verdade que a RTP 2 passa concertos e reporta diferentes estilos musicais, mas não é menos verdade que a RTP 2 é o canal secundário, reforçando mais uma vez a ideia de que as «outras músicas» ficam em segundo plano, no que toca ao serviço público. A tentativa de sistematizar as práticas da música popular portuguesa, a saga de Michel Giacometti («Povo que canta» [4]), deveria ter sido o primeiro passo para uma compreensão e contemplação de «outras músicas». Até hoje, perdura um enorme hiato de variedade musical na televisão pública.

A música erudita, concretamente, está sempre presente a título especial e nunca num aparecimento casual. Quando, há uns tempos, se ouviu falar da «Orquestra Geração» [5], a RTP 1 tratou o assunto como se fosse algo metafísico crianças de bairros sociais tocarem instrumentos de orquestra e não cantarem hip-hop. Sugiro modestamente que os directores de conteúdos e todos aqueles que informam comecem a ler mais e a pensar depois. O hip-hop não é do preto e o violino do branco, o violino e a música erudita têm é de ser dadas a conhecer, para que deixe de ser «outra música».

Hoje em dia, neste mundo globalizado, é relativamente fácil qualquer pessoa ter acesso a diferentes estilos musicais, mas, enquanto não tivermos um tratamento não discriminatório com a música, a diversidade cultural estará em xeque. Cabe ao serviço público dar o mote neste tipo de formação do indivíduo; caso contrário, é apenas mais um canal, como os privados.

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