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Docendo Discimus

A selva

Por Hugo Pinto de Abreu

Poderia dizer que nunca fui «socrático» (sem prejuízo da minha simpatia por Sócrates, o filósofo) — porque todos os textos que ousam fazer contraponto à selva têm obrigatoriamente de fazer este ponto prévio. Mas recuso-me a fazê-lo: não interessa minimamente ao leitor saber se eu sou, fui ou deixei de ser «socrático». Fazer esse ponto prévio, neste contexto, já seria ceder à selva e eu, neste momento, não quero ceder nem um milímetro de civilização.

Na selva, vale tudo para todos; é aquilo a que os anglófonos chamam um free-for-all. As regras da ética — oh, e para não falar da moral, e dos arautos da moral, e de certos arautos católicos da moral — não valem na selva. Na selva, vale tudo, vale assassinar ou até mesmo pior que isso: vale assassinar o carácter. Na selva, não há presunção de inocência. Na selva, não há sequer culpados nem inocentes, porque não há justiça: há apenas poder — bruto, desregrado, desenquadrado. Na selva, a justiça não interessa, excepto enquanto pretexto.

A selva não está apenas nas redes sociais ou nas caixas de comentários de jornais electrónicos. A selva está em nós e, se não a contrariarmos, ocupa-nos lentamente, silenciosamente. E depois ocupa as ruas, os comentários e uma ou outra redacção.

A democracia tem de conviver com a selva — ela, a selva, é inevitável! — e fá-lo quando a selva está domada e circunscrita. Mas domar e circunscrever a selva cabe, antes de mais, a cada um de nós; aliás, tal como construir e cuidar a democracia. Se não o fizermos, a democracia será apenas selva.

2 comentários a “A selva”

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