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Consultório da Ria

Análise económica da gorjeta

Por Hugo Pinto de Abreu

Recentemente, um amigo que trabalha no restaurante dum hotel inglês comentava comigo que não considerava que as gorjetas que recebe sejam realmente produto do seu trabalho, ou seja, vê as gorjetas como uma gentileza totalmente gratuita. Pareceu-me uma questão tão interessante que decidi trazê-la ao «Consultório…» [1] de hoje: afinal, o que é uma gorjeta? Qual o seu sentido e interpretação económicos? Ademais, espero que a resposta a estas questões de fundo, um pouco teóricas, permita responder a questões um pouco mais práticas, tais como se e em que condições se deve dar gorjeta.

Uma característica fundamental da gorjeta é a sua não obrigatoriedade: se um serviço obrigar legalmente ao pagamento de gratificações, então não se trata duma gorjeta. Imagino que alguns ouvintes poderão estar a pensar que, por vezes, uma certa etiqueta — uma certa pressão social — cria uma «obrigação», com tanto ou mais peso do que uma imposição legal.

Compreendo a objecção, mas, por um lado, se a «obrigação» social é de tal forma forte, então deve ser previamente conhecida do consumidor, que a incorpora no preço a pagar, e avalia a priori o valor do serviço tendo em conta a gorjeta; por outro lado, por mais terrível que essa «obrigação» social possa parecer, a verdade é que não é uma obrigação, de facto.

Respondida a objecção, analisemos: tem a gorjeta um sentido económico?

Os modelos microeconómicos dão-nos uma resposta interessante: diversos consumidores podem estar dispostos a pagar preços muito diversos pelo mesmo produto; todavia, muitas vezes, o produtor não consegue — ou não pode — fazer discriminação de preços, ou não o consegue fazer de forma suficientemente eficaz: isto é, normalmente há um preço igual para todos [2]. Se duas pessoas forem separadamente à mesma tasca e pedirem uma bifana, o preço será o mesmo, independentemente do preço que uma e outra pessoa estariam na disposição de pagar ser a priori diferente, com toda a certeza.

Isto significa que há uma série de consumidores que são confrontados com um determinado preço — por exemplo, um euro por uma bifana —, mas estariam dispostos a pagar mais: alguns estariam mesmo dispostos a pagar bastante mais. À soma destas diferenças entre o que cada um estaria disposto a pagar e o que realmente pagou, os economistas chamam «excedente do consumidor» [3]. Assim, ao dar uma gorjeta, o consumidor está a transferir parte do seu excedente para o empregado, reduzindo assim o desfasamento entre o valor que estaria disposto a pagar e o valor pago, que passa a ser o preço, acrescido da gorjeta.

Claro, muito mais haveria a dizer: podemos ver a gorjeta como a remuneração ou o prémio por um serviço emocional, ou antes, por uma componente emocional do serviço prestado — e creio que é uma boa teoria, que explica por que o meu amigo que trabalha no restaurante dum hotel não tem razão: a gorjeta é mesmo uma remuneração, ou um prémio, directamente ligada à prestação do seu serviço. E o que procurei demonstrar é que, mesmo que não houvesse qualquer componente emocional no serviço, ainda assim faria sentido dar e receber gorjeta.

Um comentário a “Análise económica da gorjeta”

Quica, a gorjeta nao seja uma forma de pagamento de uma experiência, e não apenas do produto que consome. Ou melhor, a gorjeta entrara no custo do produto enquanto experiência. Faz sentido?

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