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Olho Clínico

Expectativas

Por Sara Teotónio Dinis

Numa das reuniões mensais em que discutimos casos clínicos, fizemos, há uns dias, umas simulações de consultas, no sentido de ilustrar situações de comunicação difícil entre o médico e o doente.

Os casos dramatizados foram o duma mãe que pede um antibiótico para a tosse do filho e a dum senhor que pede um antibiótico para a dor de garganta. Nos dois casos, o quadro clínico (que não interessa descrever em pormenor) não justificava a prescrição dum antibiótico; e foi sobre o embate da expectativa do doente na recusa do médico que incidiu a discussão.

Muitas vezes somos confrontados, em contexto de consulta e não só, com doentes que nos pedem exames ou prescrições logo à cabeça, muito antes de se queixarem do que têm, ou, mesmo queixando-se, não nos dando a oportunidade nem o lugar de dar a resposta à situação que motiva as exigências anunciadas:

— Senhor doutor, eu vim cá a esta consulta porque quero fazer análises.

— Senhor doutor, eu vim cá porque quero este medicamento, e estas ampolas, e estes comprimidos.

Quer fazer análises? Porquê? Queixa-se dalguma coisa? Notou algo em si de anormal, no seu aspecto, ou no funcionamento do seu organismo?

Quer esta medicação? Mas já a fez alguma vez? Não? Então quer esta medicação nova porquê? Queixa-se dalguma coisa?

As razões são muito variadas — querem fazer aquelas análises «porque já era costume», ou porque «tenho o colesterol alto e acho que tenho de fazer», ou «porque o meu primo tem os diabetes e eu também posso ter», ou «porque sim, eu desconto para a Segurança Social, logo tenho direito aos exames que eu quiser», ou então «porque eu fui ao senhor doutor Xis, ao consultório privado dele, e ele acha que eu tenho de fazer estes exames; e então eu resolvi vir aqui pedir para os passar pelo Serviço Nacional de Saúde, para eu os fazer mais barato».

As justificações repetem-se parcialmente nos mesmos moldes quando se aprofunda a questão das medicações à la carte, acrescentando-se talvez o pedido «porque vi na televisão e o anúncio diz que faz milagres».

Obviamente, o papel do médico perante este tipo de casos não será a dum mero veículo para obtenção dos fins desejados, porque não é essa a sua função — o médico é pago para consultar os doentes do Serviço Nacional de Saúde. Assim, na gestão delicada da sua recusa ao que lhe é pedido, ele vai ter de redireccionar o doente para o que lhe é permitido fazer — a anamnese, o exame objectivo e a decisão clínica, após avaliação global de todos os dados recolhidos.

O plano é resultado da proposta do médico, após a consideração das hipóteses de diagnóstico mais prováveis, e deve ser negociado com o doente. Provavelmente, o doente irá verificar que o que o médico lhe propõe é uma perspectiva mais fundamentada e mais objectiva do que aquela que ele esperava ver concretizada; o plano proposto pode ou não ser semelhante ao que o doente exigia, mas em qualquer um dos cenários será difícil gerir a frustração, dado que a expectativa inicial foi desde logo arquivada.

O médico de Medicina Geral e Familiar é médico, tal como o é o especialista que tem o consultório privado e a quem o doente paga dez a vinte vezes mais para ter uma consulta. O médico de Medicina Geral e Familiar pode dar resposta a inúmeros casos, tal como o médico especialista, e orientar para os Cuidados de Saúde Secundários os doentes que necessitam de abordagens mais específicas, dentro de determinada área, através da referenciação para a consulta externa do hospital de referência — é o que se chama desempenhar a função de gatekeeper.

Esta função é fundamental por dois motivos:

  • Primeiro: proteger o doente dos riscos inerentes à realização de exames complementares de diagnóstico ou intervenções desnecessários face ao contexto ou estado clínico;
  • Segundo: assegurar uma utilização mais racional e eficiente dos recursos de saúde disponíveis, no sentido de garantir o acesso efectivo dos cidadãos.

O despacho n.º 10430/2011, de 18 de Agosto [1], explicita isto mesmo e, como se lê no número 3, proíbe as «unidades convencionadas de hemodiálise, hospitais privados e médicos no exercício de medicina privada» de utilizar as «requisições de prescrição de [meios complementares de diagnóstico e de terapia] para as entidades com convenção com as Administrações Regionais de Saúde» e de «solicitar a prescrição de exames às unidades de cuidados de saúde primários, ficando estas últimas impedidas de prescrever [meios complementares de diagnóstico e de terapia] solicitados por essas entidades.»

Segundo Tim Urban, co-autor do blogue «Wait But Why» [2], a felicidade resulta da seguinte subtracção:

Felicidade = Realidade – Expectativas

Aplicando esta fórmula [3] ao caso em discussão, percebe-se que a expectativa do doente nas situações referidas ultrapassa a realidade com que ele se depara, pelo que se gera insatisfação e infelicidade. Todavia, apesar do médico arquivar a expectativa ilusória do doente, não pode ignorar a sua existência — é também seu dever trazê-la de novo a lume, quando a discussão do plano com o doente, para poder desmistificar as crenças erradas, prevenir a repetição de pedidos inusitados, educar o doente e cimentar a sua relação com ele.

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