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O Muro das Lamentações

O processo dos Távoras

Por Gustavo Martins-Coelho

Como se não lhe bastasse um terramoto, a D. José I ainda tentaram matá-lo. A bem dizer, se calhar, até foi merecido: consta que três homens abriram fogo sobre o Rei, quando este voltava de casa da amante para o leito real, por uma rua de má fama. Não andasse a pular a cerca e talvez não lhe tivesse calhado tal sorte!

Fosse como fosse, o Rei sobreviveu e o seu dedicado Primeiro-Ministro — que viria a ser marquês de Pombal, mas, para já, ainda não era — tratou logo de desencantar dois culpados, que, depois de torturados, confessaram a culpa e acusaram a família Távora de estar por trás dos acontecimentos — teria ordenado o regicídio, com o fim de entronizar o duque de Aveiro. Ao que parece, como o casal real não produzia herdeiros, a alta nobreza portuguesa, com medo de voltar a ser anexada a Castela, ponderava a possibilidade de substituir D. José I por esse tal duque, que, se outras qualidades não tivesse, deveria, pelo menos, ter uma prolífica prole.

Os dois regicidas foram enforcados de imediato e os Távoras foram encarcerados, sem que, no entanto, o Primeiro-Ministro deixasse que a notícia do atentado se espalhasse. Os Távoras foram presos sem saber exactamente ao que iam; e tanto não sabiam, que nem tentaram fugir do País, talvez por pensarem que era coisa para se resolver com dois dedos de conversa. Foram presos os adultos e as crianças (essas perigosas conjuradas), pais, avós, filhos, netos, cunhados, até o padre — foi tudo detido!

A acusação contra os Távoras baseou-se em três provas simples: os regicidas torturados tinham-nos apontado como mentores; a arma pertenceria ao duque de Aveiro (que tinha ligações familiares aos Távoras); e, como Portugal é um país onde se guardam bem segredos, sobretudo de justiça, ninguém saberia que o Rei andava por essas estradas entre a casa da amante e as tendas onde estava alojada a família real, com medo de que um novo terramoto lhes fizesse o paço cair em cima — ninguém, excepto, claro está, a amante, que era uma Távora…

Apesar de se afirmarem inocentes, os Távoras foram todos condenados, incluindo as crianças (que apenas se salvaram por intercessão da rainha e da princesa): o nome Távora foi, pura e simplesmente, apagado do mapa. Apagados do mapa foram também os jesuítas: o padre confessor da marquesa, que também foi preso, condenado e enforcado, era jesuíta, de modo que toda a ordem teve o azar de se ver envolvida no processo e acabar expulsa do País.

A execução dos condenados teve requintes de crueldade, desenhados para impressionar a nobreza da corte, que foi obrigada a assistir, como forma de fazer futuros conspiradores contra a pessoa real pensar duas vezes. Aparentemente resultou, porque D. José I ainda viveria mais 19 anos, sem sofrer mais atentados.

Como recompensa pela forma exemplar como o caso foi tratado, o Primeiro-Ministro recebeu o título de conde de Oeiras. Foi merecido: duma assentada, eliminou-se uma família poderosa, submeteu-se todas as outras e extinguiu-se uma ordem religiosa influente no País. Não poderia ter havido um desfecho mais de feição, para o Rei e o seu ministro plenipotenciário, daquele fortuito assalto numa estrada perigosa de Lisboa.

Esta história passou-se no século XVIII. Ainda bem que uma história destas seria impossível no século XXI.

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