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Ao meu amigo Igor

Por Ana Raimundo Santos

Sempre ouvi dizer que a amizade é a mais bela forma de amor e, ao longo da vida, tenho tido a sorte de comprovar, das mais variadas formas, que assim é. Os amigos são e sempre foram um pilar muito importante na minha vida. Eles são a família que a vida nos permite escolher.

Faz no próximo dia 4 de Dezembro dois anos que perdi um grande amigo, uma das pessoas mais excepcionais que tive o privilégio de conhecer na vida.

O Igor era a verdadeira boa pessoa. Com um coração do tamanho do mundo e uma bondade imensa, o Igor foi uma das pessoas que esteve ao meu lado numa das fases mais complicadas da minha vida. Foi amigo, confidente, conselheiro, irmão. E quando, naquela fria e chuvosa manhã de Dezembro, o meu telemóvel tocou às seis da manhã, com a notícia de que ele tinha morrido subitamente, o meu mundo ficou mais triste.

Hoje, quase dois anos depois da sua morte, partilho com quem me lê uma carta que lhe escrevi, há mais ou menos um ano.

A crónica de hoje é uma homenagem ao meu amigo Igor, que partiu cedo demais, com 27 anos, sem que nada nem ninguém o pudesse evitar!

Meu querido Amigo,

Esta noite, sonhei contigo e, depois do sonho, instalou-se a insónia e fui inundada pelas recordações. Os olhos encheram-se-me de lágrimas e o peito de saudades. Senti o coração pequenino e recordei aquela fria e chuvosa manhã de Dezembro, em que acordei com a triste e dolorosa notícia da tua súbita e precoce partida. E chorei.

Ainda hoje, dez meses passados, custa acreditar que a vida tenha sido tão madrasta contigo e que se tenha esvaído de ti de forma tão abrupta e repentina. É injusto, cruel e até desumano.

A caminho do trabalho, ouvi Sinatra e recordei uma conversa que tivemos há dois anos:

— Calma, que tudo há-de levar o rumo que Deus quiser — disseste-me tu, com a calma e a temperança que te eram tão características.

E eu acalmei. O momento era de decisões difíceis, que poderiam mudar o meu caminho e o dalgumas pessoas que me rodeavam. Com a calma que me sugeriste e transmitiste, aceitei que a vida e Deus colocassem tudo no seu devido lugar. Na noite anterior a esta conversa, uma outra com a mesma importância tinha acontecido ao som de Sinatra e, cada vez que o ouço, recordo-me das duas. Lembro-me, também, de que, quando te contei qual havia sido a banda sonora daquele outro diálogo, esboçaste um sorriso malandro e cúmplice e comentaste quase em surdina, como se não quisesses que eu ouvisse:

— Só podia ter sido Sinatra.

Mas ouvi e sorri. Tinhas razão, só podia mesmo ter sido «a Voz».

Hoje, dias depois de ter tomado a decisão de, finalmente, seguir em frente, entristece-me não poder contar-te, mas sei que tu já sabes e que ficas feliz. Ainda assim, a vontade é pegar no telefone e ligar-te, para te dar a boa nova, mas não posso. Sim, é verdade, ainda tenho o teu número de telefone guardado, assim como as mensagens e as conversas no Facebook. Das outras conversas, aquelas que tínhamos por horas a fio, por vezes com um belo tinto a acompanhar-nos, guardo apenas a memória do tom pausado e tranquilo da tua voz e da sinceridade do teu sorriso.

Tenho saudades. Muitas. Estou a repetir-me? Eu sei! É propositado e inevitável.

Depois da tua partida, repeti muitas vezes — e continuo a repetir — que foi um privilégio ter tido a oportunidade de te conhecer e de me tornar tua amiga. Ter-te na minha vida foi — e será sempre — um dos grandes presentes que a vida me deu. Contigo, aprendi a ser mais humilde, melhor pessoa, mais sensata e mais tranquila. Estiveste ao meu lado numa das fases mais difíceis da minha vida, até hoje. Atravessaste-a comigo e deste-me esperança, quando eu sentia que estava a perdê-la outra vez. Não chegaste a ver o resultado da força que me deste. Sei que hoje terias orgulho em mim.

Às vezes, zango-me com a vida por te ter levado assim. Ralho muito com ela. Temos grandes discussões por tua causa, sabias? Depois, penso mais uma vez em ti e quase te ouço dizer que não vale a pena aborrecer-me e que o que tem de ser é e pronto, não vale a pena lutar contra. Ainda assim, fico aborrecida durante um tempo. Depois passa e dou-te razão, como sempre.

Obrigada por me teres deixado desabafar as saudades e a tristeza, mais uma vez.

Um grande beijinho, cheio de saudades e da certeza de que, um dia, vamos voltar a encontrar-nos,

Ana

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