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Consultório da Ria

Histórias de Economia: os Países Baixos

Por Hugo Pinto de Abreu

Já por duas vezes [1, 2], nas crónicas que dedicámos a histórias de Economia [3], falámos dos Países Baixos, a que os Portugueses chamam mais habitualmente de Holanda. Creio que a maior parte dos ouvintes poderá não estar familiarizada com a história da independência e ascensão dos Países Baixos: por isso, façamos um resumo do que aconteceu.

Estávamos no século XVI: a área a que hoje chamamos Países Baixos — e também parte da actual Bélgica — estava sob domínio espanhol — dos Habsburgo espanhóis. Era, tal como é hoje, uma zona comercialmente bastante desenvolvida e economicamente poderosa, para os padrões da época.

Aquando da revolta neerlandesa, em 1568, reinava em Espanha o nosso bem conhecido Filipe II e a coroa espanhola era então, claramente, a maior potência a nível mundial, no auge do seu poderio. Como conseguiram os Países Baixos revoltar-se contra a grande potência da sua época e vencer? Para ter uma ideia da dificuldade, basta pensar como, em 1580, Portugal foi integrado com relativa facilidade em União Pessoal com a coroa de Espanha e como, apesar da ajuda inglesa, a resistência de D. António, Prior do Crato, foi esmagada.

De facto, o sucesso da revolta neerlandesa explica-se por um contexto geopolítico extremamente favorável — o poderio espanhol era de tal forma grande que lhe valeu inimigos poderosos como a Inglaterra e a França — mas uma guerra tão longa — ficou, aliás, conhecida como a guerra dos ointenta anos — só pôde ser sustida pelo notável poderio económico-comercial das Províncias Unidas/República Neerlandesa.

No último «Histórias de Economia» [3], disse que os Países Baixos assumiram o papel de «Veneza dos Oceanos» e, de facto, assim foi: com uma marinha mercante poderosíssima, e uma marinha de guerra assinalável, os neerlandeses desafiaram o Império Espanhol em todo o Mundo: na Europa, naturalmente, mas também nas Caraíbas, na América do Sul e no Oriente. Quando Portugal entrou em União Dinástica com a Coroa Espanhola, também as possessões Portuguesas foram seriamente ameaçadas — e muitas perdidas. Destaque-se a catastrófica perda de Malaca para os neerlandeses, que significou a perda do controlo do portão de entrada do comércio com a Indonésia e o Extremo Oriente. Aliás, a perda de Malaca e o seu impacto no comércio Português nessa zona é um tema tão interessante, que merecerá certamente um futuro programa.

Foi, aliás, neste período que se deram alguns fenómenos de grande interesse, como a Mania das Tulipas, considerada o primeiro fenómeno a assumir o carácter de bolha especulativa: num país que estava em notável crescimento económico e comercial e com excesso de liquidez, iniciou-se uma moda de investir em tulipas — chegando-se a criar instrumentos financeiros sofisticados para o efeito —, chegando estas a atingir valores verdadeiramente astronómicos, até a bolha rebentar, meses depois.

A história da independência dos Países Baixos é notável e mostra-nos como o poderio económico e o poderio mercantil podem alterar significativamente os equilíbrios geopolíticos e também políticos, filosóficos e religiosos. Mostra também o quão difícil é impedir a auto-determinação de nações que tenham uma identidade própria e os meios para sobreviver e prosperar: foi uma lição muito dura para a Espanha dos séculos XVI e XVII; pode ser uma lição muito útil para a Espanha dos nossos dias.

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