Categorias
Crónicas Altitude

O capítulo da loucura

Por Hélder Oliveira Coelho

Todos guardamos memórias dos nosso mestres. Um dos maiores mestres que tive foi o meu professor de Psiquiatria. Um homem de fácil trato, claro na abordagem e dono duma simplicidade cativante. Começou a aula, algures por 2008, no velho e assustador anfiteatro de Anatomia. As palavras saíram com um tom firme, algo entre o irónico e o jocoso:

— Meninos, bem-vindos ao capítulo da loucura… Há boas e más notícias! As más notícias são que todas as aulas vão achar que têm uma doença nova. A boa notícia é que isso não é verdade. Nem sempre que se está triste se está deprimido, nem sempre que se está eufórico se está maníaco.

Tenho a abertura desta aula bem viva na minha memória. Do Professor Daniel Sampaio, guardo grande saudade e os mais profundos respeito e admiração.

O capítulo da loucura foi o mais obscuro da arte médica, por muito tempo. No século XX, aconteceram os maiores avanços de que há memória; todavia, o preconceito e a obscuridade que ensombram a doença psiquiátrica estão tão enraizados na sociedade, que o tempo não afastou os fantasmas.

A relação que a sociedade mantém com a doença psiquiátrica continua a ser difícil. Os estudos dizem que a sociedade portuguesa tem uma baixa cultura médica em geral. Eu atrevo-me a dizer que a ignorância latente se associa ao mais terrível preconceito, quando nos referimos à doença psiquiátrica.

Se alguém disser que esteve internado no Hospital de Santa Maria, a pergunta que se segue é:

— Então, estás doente?

Se alguém disser:

— Fui ao Hospital Júlio de Matos… — segue, quase sempre, uma exclamação em tom piedoso, seguida de:

— E… está tudo bem?!…

Acontece que alguém pode ter estado internado no serviço de psiquiatria do Hospital de Santa Maria. E alguém pode ter ido ao centro de saúde no campus do Hospital Júlio de Matos, com a mais vulgar constipação.

Não existe qualquer preconceito relacionado com a fractura dum osso. A visita ao ortopedista parece algo evidente. As doenças que fazem febre, as que sangram, ou as que incapacitam por qualquer razão palpável — as doenças agudas em geral não são geradoras de preconceito. Conhecemos-lhes a causa, conhecemos-lhes a cura. Qualquer patologia cardíaca merece a sua consulta regular no cardiologista; seguem-se uma lista de cuidados para a vida; todavia, a doença crónica entra na rotina e assume um papel de normalidade.

As doenças psiquiátricas, em regra, manifestam-se após um longo período de tempo de evolução. Da mesma forma, os tratamentos são prolongados. Acertar a terapia para a hipertensão pode levar meses. Não raras vezes, é tão difícil de controlar, que pode até levar anos. A doença psiquiátrica pode comportar-se da mesma maneira. Onde reside a verdadeira diferença? Ninguém olha com descrédito ou compaixão para um hipertenso. Não há frases do tipo:

— Coitado, está hipertenso! — ou — ele nunca foi muito bom daquela hipertensão — ou — não se pode ligar muito, porque ele é hipertenso — ou, quem sabe, até — é preciso desvalorizar um pouco, porque ele é hipertenso — ou — hipertensão é uma fraqueza! Só as pessoas fracas é que são hipertensas!

Há um sem número de frases, que só associamos às doenças psiquiátricas. É impossível transportá-las para qualquer outra doença crónica. Entre a família e os amigos também há uma incompreensão latente. Mesmo entre a classe médica, é frequente transportar a doença psiquiátrica para o plano do esoterismo. Uma postura não muito distante da que teria muito boa gente na Idade Média.

A relação que mantemos com o desconhecido oscila entre o medo e o preconceito. Provavelmente, é isso que explica a reacção à doença psiquiátrica.

Cumpriram-se no mês de Novembro 25 anos da queda do Muro de Berlim. Confesso tratar-se da minha mais antiga memória dum momento histórico mundial. Com a ligeireza que caracteriza uma criança de quatro anos, lembro-me de perguntar:

— Se não queriam o muro, por que é que o fizeram?

Deixo-vos com a música «Os loucos de Lisboa», numa versão com voz do Rui Veloso [1]!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *