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Transporte Humano

Construa o seu próprio sistema

Por Jarrett Walker [a]

Uma das grandes forças do governo regional de Portland, a Metro [2], é que ela sempre tentou envolver os cidadãos da região nas escolhas verdadeiramente difíceis que uma área urbana enfrenta. A maior missão da agência, de acordo com o sistema de planeamento director de Oregão, foi desenvolver um plano regional sobre onde ter lugar o novo crescimento e como isso iria mudar uma cidade que as pessoas já adoravam. Nessa tarefa, eles passaram anos a explorar a forma de simplificar e enquadrar a questão, de modo que qualquer cidadão pudesse entendê-la e entender por que é uma questão difícil.

O processo duma agência governamental comunicar com o público envolve ouvir e educar ao mesmo tempo. Os cidadãos querem sentir-se ouvidos, mas também querem perceber as coisas. A Metro simplificou a questão até o juízo de valor, não técnico, essencial, que era:

— Vamos crescer. Queremos crescer para cima ou para os lados? Aumentamos a densidade de construção, ou espalhamo-nos por mais terra?

Esta foi a pergunta difícil que motivou o primeiro plano director do Oregão — leis cujo fim não é impedir a expansão, mas para garantir que ela é o resultado duma decisão consciente. Foi uma conversa difícil. Muitas pessoas queriam discutir a premissa de que haveria crescimento, mas a realidade era que os governos de Portland não tinham as ferramentas para parar o crescimento, mesmo que houvesse um consenso nesse sentido.

A conversa que a Metro iniciou durou anos, e a primeira aprovação duma decisão colectiva surgiu no «2040 Growth Concept» [3]: principalmente, aumento da densidade, mas algum novo crescimento horizontal em áreas seleccionadas pelo seu baixo valor agrícola. Foi uma grande conquista, mas a verdadeira conquista não foi a resposta à pergunta, foi a formulação clara desta. Os cidadãos, através dos seus representantes eleitos, enfrentaram um juízo de valor claro sobre a sua cidade. Não era sobre a aprovação dum projecto, ou a avaliação do desempenho dalgum político; era sobre economia básica e geometria: crescer para cima ou crescer para os lados? Nenhuma pessoa racional poderia argumentar que esta não era uma questão real e consequente. Através do trabalho da Metro, a pergunta foi respondida e, em parte porque o processo foi tão claro e democrático, a resposta básica tem-se mantido, apesar da turbulência inevitável da política de curto prazo.

Então, é óptimo ver que a Metro está agora a abordar a sua função de planeamento do transporte colectivo regional com o mesmo espírito. A sua ferramenta: «construa o seu próprio sistema de transporte colectivo de alta capacidade» permite que qualquer pessoa brincar com a forma de definir prioridades em relação aos próximos projectos de transporte colectivo da região e dá retorno em tempo real, sobre os custos e os benefícios. O leitor pode seleccionar algumas linhas de que gosta, gastar o dinheiro todo e viver a experiência de tomar decisões difíceis, tal como os representantes eleitos têm de fazer.

Durante anos, eu usei ferramentas semelhantes, como parte de projectos de planeamento de transporte colectivo. Nessa altura, fazíamos o exercício em reuniões públicas; e ainda é uma excelente ferramenta quando se tem uma sala cheia de pessoas que se preocupam com a sua comunidade.

Os participantes estavam reunidos em grupos de seis a oito, em torno dum mapa da sua comunidade, com uma camada de acetato transparente sobre ele. Os monitores davam-lhes algumas ferramentas: a fita vermelha é o metro elevado, a fita azul é o metro ligeiro e a fita verde é o serviço de autocarro frequente.

— Aqui, meus senhores e minhas senhoras: temos 24 quilómetros de fita verde que podemos dispor no mapa. Podeis trocar cinco quilómetros de fita verde por um quilómetro da azul, ou dez quilómetros de fita verde por um quilómetro da vermelha. Agora, podeis criar o vosso próprio sistema, mas experimentando o processo de fazer escolhas difíceis pelo caminho [b].

No final da sessão, os diferentes grupos tinham elaborado propostas de redes diferentes para a mesma área. Então, nós colocávamos os mapas na parede, eu guiava a discussão sobre as suas semelhanças e diferenças, e fazia os participantes dialogar entre si sobre os motivos que os levaram a abordar o problema de maneiras diferentes. No final, nós entendíamos as suas opiniões, mas, mais importante, eles entendiam a visão dos demais; e também compreendiam o problema subjacente, de modo que poderiam formar ideias mais úteis e construtivas, no futuro [c].

Então, o meu aplauso para a ferramenta de planeamento da Metro, que nos permite fazer o mesmo processo em casa, com o pijama vestido. Ainda é bastante básico: só permite a selecção de corredores para «transporte colectivo de alta capacidade» e ver os custos e os benefícios a somarem-se. A próxima versão, sem dúvida, permitirá escolhas de modo: pode-se construir um serviço rápido de autocarro por este preço, ou metro ligeiro por aquele. Naturalmente, vai também dar origem a debates colaterais, entre os especialistas, sobre se as premissas são realmente adequadas. Esses argumentos poderão ser válidos, mas não vão prejudicar o valor básico da ferramenta, que é a sua capacidade de ajudar o cidadão comum a compreender o real desafio que a sua comunidade enfrenta e a conseguir formar uma opinião clara e útil.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Pode ser feito um exercício semelhante no âmbito duma alteração dum serviço local de autocarros. Neste caso, a única variável em jogo é a frequência de serviço, de modo que os custos são mais evidentes. A fita vermelha é um autocarro a cada quinze minutos, a azul é um autocarro a cada trinta minutos e o verde é um autocarro a cada sessenta minutos; de modo que um quilómetro de vermelho vale dois quilómetros de azul ou quatro quilómetros de verde (n. do A.).

c: As fotografias que acompanham o texto são de reuniões organizadas pela TransLink [4], de Vancôver, em 2006, como parte do Plano de Transporte Colectivo da Área Sul de Fraser. Este plano cobria uma área enorme de subúrbios maioritariamente recentes, que estavam em rápido crescimento, e o nosso papel era ajudá-los a definir tanto melhoria a curto prazo para o sistema de autocarros, como uma visão de longo prazo a respeito das soluções de transporte coelctivo rápido (n. do A.).

2 comentários a “Construa o seu próprio sistema”

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