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Por Gustavo Martins-Coelho

Não entendo por que há-de haver duas salas de espera no mesmo consultório. Parece que esperar é uma arte tão apurada, que já tem direito a uma espécie de graduação. Começa-se por esperar na sala exterior e, com o tempo, sobe-se na vida — e espera-se na sala reservada: uma espécie de lounge da classe executiva. Aliás, creio que, se as salas de espera se chamassem lounges, todos os doentes esperariam com mais prazer. Alguns até sairiam de lá já curados, sem necessidade de passar pelo médico.

Talvez, um dia, comecemos a dar cinturões às pessoas na sala de espera, como nas artes marciais. Uma pessoa que está à espera há menos de cinco minutos pode usar um cinturão branco. Se esperar dez minutos, passa a cinturão amarelo. E assim sucessivamente, em incrementos temporais. Para chegar a cinturão negro, são precisas, pelo menos, vinte e quatro horas de espera — algo a que só os selectos doentes dum serviço de urgência podem almejar, portanto. Para já, na falta de cinturões, temos de nos contentar com pulseiras coloridas [1]. Mas estas são atribuídas antes da espera, o que retira aquele sentimento de logro a quem consegue a pulseira azul.

Se bem que, com estas novas modas da consulta a tempo e horas e afins, esperar está a tornar-se uma arte em extinção. Não gosto desta mania da gente ser eficientezinha. Uma pessoa entra na sala de espera do médico, convencido de que se acha diante dum bocado bem passado a ler um romance — ou a exibir o iPad —, e chega a sua vez antes ainda de ter aberto a primeira página — ou o «Angry birds».

Nem sequer é possível formar uma fila, ainda que não em forma de fila!

Acho que não exijo demais do mundo. Uma semana sem polvo nem pescada e eu era feliz. Vá, isso e uma fila condigna.

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