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Consultório da Ria

Síndrome da adaptação geral

Por Carlos Lima

A vida não é isenta de riscos; no entanto, o corpo humano desenvolveu um conjunto de capacidades que lhe permitem uma adaptação geralmente eficaz. Só quando a agressão é de grande intensidade, ou muito prolongada no tempo, é que podem surgir doenças associadas ou mesmo a morte.

Ainda que a palavra estresse tenha um sentido de agressão nefasta no conceito geral, ela representa, também, os estímulos que desencadeiam uma resposta de adaptação orgânica.

Os organismos vivos gerem-se pela busca incessante do equilíbrio. O hipotálamo [1] funciona como o «guarda» corporal, ao detectar pequenas alterações na temperatura [2], na composição química, na tensão sobre a pele, na pressão sanguínea [3] e no ritmo cardíaco [4], entre outros, desencadeando um conjunto de respostas, no sentido de gerar novamente o equilíbrio.

Quando os desequilíbrios provocados por alterações internas, ou agentes externos, são muito intensos, ou muito prolongados no tempo, as respostas passam por um conjunto de alterações corporais de adaptação chamadas de síndrome da adaptação geral (SAG).

Ao conjunto de possíveis agressões convencionou-se chamar de estresse. Como não é possível remover todos os estressantes da nossa vida, aceita-se que existe um estresse bom — «eustresse» — que permite vivenciar situações novas ao longo da vida, e um estresse negativo — «distresse» — que causa dano e gera doença, pois o organismo não tem capacidade, por si só, de gerar novamente o equilíbrio.

Um estressante pode assumir diversas formas, como o frio, o calor, a exposição a determinados venenos ou poluição, uma cirurgia ou mesmo de carácter emocional. A reacção aos estressantes varia de pessoa para pessoa e mesmo na própria pessoa em momentos diferentes e conforme as suas experiências.

A reacção aos estressantes passa por três fases: alarme, resistência e exaustão.

A reacção de alarme é do tipo «lutar ou fugir». É imediata à exposição, de curta duração e é iniciada pelos impulsos nervosos vindos do hipotálamo [1]. Mobiliza um conjunto de mecanismos físicos para a actividade imediata, os gastos de energia são elevados, o cérebro [5] fica em alerta máximo, os batimentos cardíacos e a tensão arterial aumentam. Durante a reação de alarme, o organismo concentra-se nas funções vitais e a actividade digestiva, urinária e genital é interrompida. Esta reacção é o que acontece, por exemplo, quando somos atacados por um animal e a nossa decisão instantânea, perante o efeito de surpresa, pode ser a de lutar para afastar o animal ou a de fugir.

A reacção de resistência surge após a reacção de alarme, que nos permitiu evitar danos maiores. Esta já tem a ver com um conjunto de adaptações de média e longa duração e está associada à libertação dum conjunto de hormonas pelo hipotálamo. Estas estimulam a adeno-hipófise [6] a libertar outras hormonas, que vão que fazer com que o corpo retenha sódio [7] e água [8], permitindo manter a tensão arterial elevada, e vão activar os mecanismos de produção de energia.

Habitualmente, as reacções de alarme e resistência são eficazes. Existem no entanto, algumas situações que geram desequilíbrios de tal ordem, que desencadeiam respostas inadequadas, conduzindo à reacção de exaustão. Esta caracteriza-se pelo desequilíbrio dentro da célula, devido à perda de potássio [9] e de hidrogénio. Sem estes elementos, a água [8] sai da célula [10], para responder às necessidades de manter a tensão arterial elevada, e a célula entra em sofrimento. Se o quadro não for revertido rapidamente, as células dos órgãos morrem e eles perdem a função. Outra situação é o gasto excessivo de energia, que esgota a capacidade de produção — e sem energia não há vida, pelo que quer uma quer outra situação podem conduzir à morte.

A vida apresenta riscos permanentes de natureza física e emocional; o corpo humano tem formas de lidar com grande parte deles e de se adaptar a novas realidades. Quando as situações estressantes são muito intensas ou muito prolongadas no tempo, é necessário ajudar o organismo a encontrar o seu equilíbrio; caso contrário, a situação pode evoluir para doença ou morte.

Saúde!

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