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Perspectivas em Saúde

O preço da imunidade de grupo

Por Gustavo Martins-Coelho



Na última semana, várias pessoas me falaram sobre a imunidade de grupo e a falta dela em relação à COVID-19.

Antes de mais, quero dedicar duas palavras a explicar o que é a imunidade de grupo. Imaginemos uma população — pode ser a população duma vila ou duma cidade pequena: 10.000 pessoas. Imaginemos agora que essas pessoas andam na rua, vão trabalhar, vão às compras, em suma, que fazem uma vida normal. Vão estar aleatoriamente em contacto umas com as outras. Claro que haverá um grupo restrito de pessoas com quem contactam mais — a família, os amigos, os colegas de trabalho —, mas também há muita gente que nunca viram na vida, partilham uma viagem de autocarro e nunca mais verão novamente. Então, se cada pessoa se cruzar com duzentas pessoas diferentes ao longo do dia (um número que acabei de tirar da cartola, mas vamos assumir que é verdade que, entre pessoas próximas e estranhos com quem nos cruzamos na rua, passando por clientes que atendemos no trabalho, estamos com duzentas pessoas, em média, por dia), uma pessoa que tenha COVID-19, ou outra doença transmissível qualquer, pode transmiti-la a qualquer uma dessas duzentas pessoas, se nenhuma delas estiver imune. Mas, se metade delas estiver imune, só pode transmitir a cem pessoas. Então, a rapidez do contágio reduziu-se para metade. A imunidade de grupo é isto: é o número, ou a proporção, no caso — a proporção de pessoas que, numa população, tem de estar imune, para que uma pessoa doente não consiga, com elevada probabilidade, cruzar-se, no seu dia-a-dia, com uma pessoa susceptível e infectá-la.

Esse número varia de doença para doença; e porquê? Bom, vamos ter de falar do já famoso R0, para percebermos porquê…

O que é o R0? R0 significa número básico de reprodução e é o número de pessoas que uma pessoa doente consegue contagiar. No caso da COVID-19, o R0 tem sido estimado entre 2 e 2,5, ou seja, cada pessoa doente contagia, em média, 2 a 2,5 pessoas. Contagiar 2,5 pessoas é um bocado parvo, porque não se pode contagiar meia pessoa, mas lembremo-nos de que estamos a falar duma média e, como toda a gente sabe, se eu comer um frango e a minha namorada nenhum, em média, comemos meio frango cada, de modo que não sei por que diz ela que está com fome… Da mesma forma, se um doente contagiar três pessoas e outro contagiar duas, em média, contagiaram 2,5 pessoas cada um…

Fica fácil de perceber que, quanto maior o R0, maior a velocidade de crescimento da doença. Por exemplo, se cada pessoa com COVID-19 contagiar duas, se o período de incubação demorar uma semana e se, até à cura, passarem quinze dias (tudo número que eu estou a arredondar, com base nos reais, para facilitar as contas), quer dizer que, se tivermos um caso hoje, daqui a uma semana teremos três: o que já tínhamos hoje e os dois que ele contagiou; daqui a duas semanas, teremos seis — os dois contagiados pelo primeiro e quatro contagiados por estes dois — e um curado (o primeiro caso, pois já passaram quinze dias). Não parece muito, porque só passaram duas semanas. Mas, ao fim de dois meses, que é o tempo que já passou desde que tivemos o primeiro caso em Portugal, já iríamos em 255 casos, todos com origem num único doente inicial. Mais: ao fim de dois meses, destes 255 casos, 189 ainda estariam doentes, 58 estariam curados e 18, tendo em conta a letalidade actual a nível mundial,  estariam mortos…

Mas, como eu disse, à medida que as pessoas vão contactando com o vírus, vão ganhando imunidade e, portanto, torna-se mais difícil o contágio. Logo, o R — que é o mesmo que o R0, mas aplicado a uma população em que parte das pessoas são imunes — diminui. Então, se o R passar para menos do que 1, significa que, em vez de uma pessoa contagiar várias e fazer aumentar o número de casos, há várias pessoas que não originam contágio. É como a história do frango: se um doente contagiar uma pessoa e outro não contagiar ninguém, em média, cada um contagiou meia pessoa…

Baixar o R para menos do que 1 pode ser conseguido de várias formas. Pode ser através do distanciamento, da etiqueta respiratória, da lavagem das mãos, do uso de máscaras [1], do isolamento — ou pode ser através da imunidade de grupo! De que forma? Vou poupar aqui a matemática da coisa e dizer simplesmente que, no caso da COVID-19, para conseguirmos impedir a propagação da doença através da imunidade de grupo, precisamos de ter, pelo menos, 50% da população imune; idealmente, 60%.

Como se atinge a imunidade? De várias formas, mas, para aqui, interessam particularmente duas formas: o contacto directo com o vírus, sendo infectado por ele, e a vacinação. Como, para já, não há vacina, sobra a primeira. Portanto, para termos imunidade de grupo, nesta altura do campeonato, sem vacina, teríamos de ter 60% da população a ser infectada. Como há cerca de dez milhões de habitantes neste nosso país, 60% disso são seis milhões. Seis milhões de pessoas infectadas em Portugal propiciar-nos-iam imunidade de grupo!

Qual é o problema disto? Mesmo assumindo que, desses seis milhões, 80% são assintomáticos [2], sobram 1.200.000 doentes com sintomas. E destes, já sabemos que cerca de 7% morrem… Ora, 7% de 1.200.000 são… 84.000!!!

E este — 84.000 mortos — seria o custo da imunidade de grupo em Portugal. 84.000 mortos seria o preço a pagar para podermos ir tranquilamente à praia, para podermos dispensar as máscaras no supermercado e em todo o lado, para podermos levar a vida normal que levávamos antes disto tudo acontecer.

É um preço que não estou disposto a pagar… É preferível ficar em casa e esperar por uma vacina!

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