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Perspectivas em Saúde

O Governo vai deitar dois milhões de euros ao lixo

Por Gustavo Martins-Coelho



Para explicar a ideia que quero partilhar hoje, tenho de começar por transmitir um par de noções teóricas.

Primeiro, o que é um rastreio? Um rastreio é, nas palavras do «Dicionário de saúde pública» [1], a pesquisa de situações de doença não identificadas previamente, usando testes que possam ser realizados rapidamente e de forma económica em grandes números de pessoas, com o objectivo de as dividir em dois grupos: os que podem ter a doença e os que, muito provavelmente, estarão livres dela.

Então, passemos à segunda pergunta: para que serve um rastreio? Para uma de duas coisas, consoante: para proteger da doença alguém que se encontra em risco, ou até já a tem, em fase inicial, e não sabia (penso, por exemplo, no rastreio do cancro da mama); e para proteger alguém cuja saúde pode ser prejudicada por quem tem a doença (por exemplo, no caso da COVID-19).

Pensemos então em rastreio de COVID-19. Quem é que beneficiaria mais do rastreio? Principalmente as pessoas mais velhas, que são a faixa etária em que as complicações mais graves da doença e a mortalidade são mais elevadas. Foi este o raciocínio por trás da ideia de rastrear os trabalhadores e residentes dos lares. Os idosos que vivem em lares são o grupo de maior risco, pelo que é necessário protegê-los da COVID-19. Por outro lado, são pessoas com pouca vida fora das instituições onde residem, pelo que a principal, se não única, via de contágio são os trabalhadores que com eles convivem e que podem levar o coronavírus para dentro do lar.

Pensemos agora na medida anunciada pelo Governo no passado dia 1 de Maio [2], que consiste em rastrear quase 30.000 trabalhadores de creches. Qual é o grupo que se pretende proteger? Os trabalhadores ou as crianças? Nem uns, nem outros, se encontram particularmente em risco, ao contrário dos velhinhos nos lares. Portanto, o objectivo do rastreio, à luz do que já expliquei, é questionável. Ainda por cima, ao contrário do que sucede com os idosos, que vivem no lar, as crianças têm múltiplas outras vias de contágio possível, a começar pela família, com quem estão, quando não estão na creche.

Portanto, se não estamos a falar dum grupo de risco, nem estamos, nem de longe, nem de perto, a rastrear todas as pessoas que podem funcionar como cadeias de transmissão de e para as crianças, estamos a fazer o quê?

Ainda para mais, um teste que custa cerca de €60 — a preço de custo, porque está a ser vendido ao SNS, pelos laboratórios privados, a mais de €100 — dificilmente pode ser considerado «económico». Trinta mil trabalhadores vezes sessenta euros por teste são perto de dois milhões de euros. Dois milhões de euros que vão ser deitados ao lixo e não poderão ser usados em equipamentos de protecção individual, formação dos trabalhadores, adaptação das instalações para prevenir vias de contágio, e um enorme etc. de coisas que seriam, de facto, úteis.

Esta gente tem de perceber, duma vez por todas, que não cuida da saúde pública quem quer; cuida quem sabe!…

1 comentário a “O Governo vai deitar dois milhões de euros ao lixo”

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