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Não é só o Governo que deita dinheiro ao lixo: a Câmara de Vizela também — e outras, provavelmente

Por Gustavo Martins-Coelho



Na Terça-feira passada, estava eu a preparar-me para almoçar, quando vi, na televisão, uma notícia, segundo a qual a Câmara Municipal de Vizela ia testar os comerciantes do concelho para COVID-19 [1]. A ideia é duplamente má. Primeiro, porque, como expliquei, penso que de forma cabal, na semana passada [2], rastrear pessoas que não fazem parte, à partida, de grupos de risco, nem são vectores específicos de contágio de grupos de risco, é um erro. Segundo, porque são testes imunológicos.

E por que é que um teste imunológico é mau? Vou ter de falar um pouco de imunologia, para responder a essa pergunta. O sistema imunitário, quando contacta, pela primeira vez, com um novo agente infeccioso, desenvolve uma resposta de defesa e guarda-a na memória, para a usar de forma mais rápida e eficaz, se voltar a encontrar o mesmo agente. Chama-se a isso memória imunitária e é possível medi-la, através dos tais testes imunológicos.

Só que é aqui que surge um problema: o teste imunológico, nesta fase, é capaz de «quantificar» a memória, ou seja, através do teste, nós conseguimos saber se houve contacto e também medir a quantidade de anticorpos que foram gerados, mas não conseguimos saber, ainda, mais do que isso. Ainda não temos conhecimentos suficientes sobre este coronavírus para conseguirmos saber as duas coisas mais importantes: se esses anticorpos são eficazes e qual a quantidade mínima de anticorpos capaz de responder com sucesso a uma nova infecção.

Resumindo e simplificando: até termos mais estudos, os testes imunológicos dizem-nos se uma pessoa foi infectada, mas não nos dizem se essa pessoa está imune — que é o mais importante que precisamos de saber, se vamos começar a testar comerciantes e a afirmar que os que têm anticorpos estão seguros… Quem disser isso, nesta altura do campeonato, está simplesmente a vender a banha da cobra.

Infelizmente, a Câmara Municipal de Vizela comprou. Foi enganada. E não foi a única.

Quer dizer que os testes imunológicos são inúteis? Não exactamente. Os testes imunológicos permitem identificar quem foi infectado, mesmo que não tenha desenvolvido sintomas e já tenha eliminado o vírus, pelo que são extremamente importantes na actualidade, para termos um panorama geral da propagação da infecção em Portugal, sem ficarmos limitados à identificação daqueles que desenvolveram sintomas. O Instituto Ricardo Jorge está a tratar disso [3].

E são também importantes, para avaliar, numa primeira fase, a eficácia das vacinas em desenvolvimento. Uma vacina, para ser eficaz, tem de, em primeiro lugar, gerar a produção de anticorpos, que são depois detectados pelos testes imunológicos.

Portanto, usemos os testes imunológicos para o que eles realmente servem e deixemo-nos de criar ilusões de segurança ou imunidade que eles não podem, simplesmente, prometer.

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