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Perspectivas em Saúde

A COVID-19 não afecta todos da mesma maneira

Por Gustavo Martins-Coelho



A COVID-19 não afecta todos da mesma maneira. Basta uma olhadela rápida para os números de casos confirmados e de mortes para verificar que o que acabei de dizer é verdade [1].

A taxa de ataque — ou seja, o quociente entre o número de casos e a população em risco — era, à data de 17 de Junho, de aproximadamente 6,5/1.000 nos EUA, 5,6/1.000 na Suécia, 5,2/1.000 em Espanha, 4,5/1.000 no Brasil, 4,4/1.000 no Reino Unido, 3,9/1.000 em Itália, 3,7/1.000 em Portugal, 3,0/1.000 em França, 2,3/1.000 na Alemanha e menos de 0,1/1.000 na China, onde tudo começou. Portanto, o contágio não acontece com a mesma intensidade nos diversos países.

Por sua vez, a letalidade — ou seja, a proporção de doentes com COVID-19 que morre da doença — era, também a 1 de Junho, de aproximadamente 15,2% em França, 14,5% em Itália, 14,0% no Reino Unido, 11,1% em Espanha, 9% na Suécia, 5,5% na China, 5,4% nos EUA, 4,9% no Brasil, 4,7% na Alemanha e 4,0% em Portugal. Ou seja, a probabilidade de morrer de COVID-19, uma vez contraída a doença, não é igual em todos os países e — pasme-se — é mais baixa em Portugal do que em países geralmente considerados mais desenvolvidos!

Obviamente, muita desta disparidade tem que ver com as medidas de controlo tomadas pelas autoridades de saúde e pelo governo de cada um dos países e com a capacidade de resposta dos serviços de saúde, mas também há outros factores a levar em conta; nomeadamente, factores que têm que ver com a susceptibilidade individual de cada pessoa ao contágio e com a sua resistência à infecção — e é precisamente sobre isso que vou falar hoje.

Comecemos pela susceptibilidade ao contágio. Estima-se que as pessoas com mais de vinte anos de idade têm duas vezes mais probabilidade de ser contagiadas do que as crianças e os jovens com menos de vinte anos [2]. Ou seja, as crianças estão mais protegidas do que os adultos e os mais velhos. Isto pode ter várias explicações.

A primeira é que as crianças estão mais vezes constipadas do que os adultos e isso pode conferir-lhes aquilo que se designa imunidade cruzada. Como eu expliquei recentemente [3], quando uma pessoa é infectada por um micróbio pela primeira vez, desenvolve uma resposta de defesa e guarda-a na memória, para a usar de forma mais rápida e eficaz, se voltar a encontrar o mesmo agente. Como há muitas estirpes de coronavírus, pode ser que a memória contra uma outra estirpe possa servir para ajudar a proteger contra este coronavírus em particular. Isso chama-se imunidade cruzada.

Em segundo lugar, calcula-se também que apenas 12–31% dos adolescentes entre os dez e os dezanove anos apresentem sintomas, contra 57–82% na faixa etária acima dos setenta anos [2]. Isto não é, per si, uma menor susceptibilidade à infecção, mas significa que detectamos menos casos em crianças.

Finalmente, as diferenças no padrão de comportamento e de contacto social entre as diferentes classes etárias podem explicar diferentes taxas de contágio. É isso que explica, por exemplo, o grande risco dos idosos que vivem em lares.

Mas passemos, então, aos factores individuais de resistência à infecção. As pessoas em maior risco de ter uma forma grave da doença, que pode culminar na morte, são as mais velhas e as que têm doenças crónicas.

Os estudos estimam que as pessoas com doença pulmonar obstrutiva crónica têm um risco quase 90% maior de desenvolver uma forma grave de COVID-19 e uma mortalidade 60% superior [4]. De igual forma, os fumadores têm 45% mais risco de desenvolver complicações e uma mortalidade quase 40% superior [4]. As pessoas hipertensas, os doentes diabéticos, as pessoas com doença coronária ou renal, ou outra doença crónica, têm também uma mortalidade mais elevada [5].

As razões biológicas por trás destas diferenças não estão perfeitamente esclarecidas. Algumas são relativamente fáceis de compreender: por exemplo, a doença pulmonar obstrutiva crónica e o consumo de tabaco, logicamente, ao fragilizarem o aparelho respiratório, tornam-no mais susceptível ao coronavírus e às complicações que daí advêm. Por outro lado, as doenças crónicas fragilizam o indivíduo como um todo e, portanto, também facilitam a vida ao coronavírus. No caso específico da hipertensão, o mecanismo poderá ter que ver com a presença aumentada do receptor ao qual o coronavírus se liga [6], para entrar nas células e as infectar, aumento esse que é induzido pelos medicamentos usados para tratar a hipertensão [7].

No caso das crianças, a menor propensão para desenvolver formas graves da doença pode ter várias explicações. Uma delas é a que já referi anteriormente: a imunidade cruzada. Relacionada com esta, a própria competição entre espécies: é mais difícil este coronavírus infectar uma garganta que já está infectada por outros micróbios, o que é mais frequente nas crianças [7]. Depois, o sistema imunitário das crianças, por estar em desenvolvimento, é diferente do dos adultos e isso pode ter alguma implicação na forma como a doença evolui [7]. E, naturalmente, se as doenças crónicas são factores de risco, elas são muito menos frequentes nas crianças!

Duma forma ou doutra, a verdade é que ainda estamos no início de conhecer este novo coronavírus e ainda vamos ter de estudar muito, para o compreender; e só depois de o compreendermos é que poderemos lidar com ele do modo mais adequado.

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