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O azar dos curdos

Texto original por José Couto Nogueira no Sapo24 [1]



O artigo original que deu origem a este vídeo data já de Outubro de 2019. Confesso que não tenho dedicado tanta atenção ao blogue como gostaria e inclusivamente deveria, para continuar a merecer o interesse de quem me visita por aqui. Mas a boa notícia é que a grossa maioria do texto se mantém actual.

Diz José Couto Nogueira que Donald Trump, apesar de falar alto e grosso, tem-se mostrado, na prática pouco favorável aos confrontos armados: durante o seu mandato, não iniciou qualquer operação militar, impediu outras, tentou retirar tropas americanas do Afeganistão e tem feito uma política de apaziguamento com a Rússia e a Coreia do Norte (no caso da Rússia, até parece que Putin tem algo comprometedor contra Trump).

Entretanto, chegamos à Síria. Aí, Trump não hesitou (talvez para desviar atenções da sua impugnação) e, mesmo contra a opinião de todos os assessores, militares e republicanos, decidiu retirar os EUA da Síria, depois de proclamar, falsa e bombasticamente, como é seu hábito, que o Estado Islâmico fora derrotado.

Não foi, mas o seu recuo deve-se, em grande parte, aos curdos e à oposição a Assad, os quais, apoiados pelos EUA, ocuparam todas as cidades do Califado.

Os curdos são o quarto maior grupo étnico do Oriente Próximo, cerca de 45 milhões. Quando, em 1916, Ingleses e Franceses repartiram entre si os despojos do Império Otomano, o Curdistão não foi considerado. Os curdos ficaram espalhados pela Turquia, pelo Irão, pelo Iraque e pela Síria.

Embora sejam predominantemente muçulmanos, os curdos distinguem-se dos povos em redor por uma cultura mais aberta, sem livros proibidos ou obrigatórios e com igual estatuto entre mulheres e homens. Talvez por isso, têm sido brutalmente perseguidos. Os turcos consideram-nos terroristas. Saddam Hussain gaseou a cidade curda de Halabja, em 1988. Os iranianos punem com a morte qualquer manifestação identitária. Quanto à família Assad, que nunca hesitou em massacrar cidades inteiras dos seus próprios cidadãos, não é preciso dizer como lidaram com a minoria curda ao norte da Síria…

Durante anos, os EUA também consideravam os curdos terroristas, mas, com a queda de Saddam Hussein, os curdos aproveitaram para criar uma estrutura administrativa e forças armadas no norte do Iraque, que se aliou aos EUA e foi providencial quando surgiu o Estado Islâmico.

Quando rebentou a guerra civil na Síria, os curdos conseguiram criar uma zona independente, que era a continuação da zona iraquiana que já controlavam; e foram os curdos, aliados a outros insurgentes contra Bashar al-Assad, que efectivamente ocuparam o território do Estado Islâmico. Ao mesmo tempo, Assad lutava pela sobrevivência do seu regime, apoiado pela Rússia.

A situação era relativamente estável: o exército sírio tentava eliminar as últimas bolsas rebeldes no seu território, com a ajuda dos russos; os iraquianos, que nunca mais tiveram um exército coerente desde a invasão dos EUA, não interferiam nas zonas curdas; e os EUA ajudavam os curdos a limpar os restos do Estado Islâmico.

Só que esta situação era vista com crescente preocupação pelos turcos e criou uma situação irresolúvel para os EUA, aliados tanto da Turquia como do Curdistão que se ia formando. Adicionalmente, EUA e Turquia não se entendiam sobre a forma como lidar com os milhares de ex-combatentes do Estado Islâmico (e respectivas famílias) detidos em campos na fronteira entre a Síria e a Turquia.

Não se sabe por que Trump decidiu retirar as tropas da região, abrindo o caminho para uma ofensiva turca e a retirada da resistência síria e dos curdos, que abre um vácuo onde se receia que o Estado Islâmico ressurja — para não falar do massacre dos curdos pelas muito mais numerosas e bem equipadas tropas turcas. Poderá ter sido, porque Trump tem dois hotéis e outros negócios na Turquia.

Mas, na sequência da retirada, contra a opinião dos seus próprios estrategas e comandantes no terreno, os turcos lançaram uma enorme ofensiva e ocuparam uma larga faixa de território, com notícia das habituais atrocidades: mais de três milhões de refugiados em movimento e os ex-guerrilheiros do Estado Islâmico a abandonar os campos de detenção.

A União Europeia condenou a invasão turca. Uma condenação não corresponde a qualquer resultado prático, mas, pelo sim pelo não, Erdogan avisou imediatamente que, se a Europa fizer alguma coisa, manda para cá os 3,6 milhões de refugiados sírios que tem no seu país. Como a UE não tem tropas para pôr no terreno, na improvável hipótese de que o quisesse fazer, os refugiados têm maior probabilidade de ser recambiados para a Síria.

Nos EUA, há um consenso de que é imoral abandonar o único aliado que tinham na região, além do perigo real de que o Estado Islâmico volte a ressurgir.

Mas uma coisa é certa: mais uma vez, os curdos têm de lutar sozinhos pela sua sobrevivência.

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