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Perspectivas em Saúde

As infecções associadas aos cuidados de saúde e a COVID-19

Por Gustavo Martins-Coelho



Antes de avançar para o tema que me traz hoje aqui, gostaria de começar por agradecer os contributos que tenho recebido para esta rubrica, na forma de perguntas e sugestões de temas a tratar.

Obviamente, com apenas uma edição semanal, torna-se difícil responder a todas as perguntas, mas vou tentando pegar nas mais interessantes e pertinentes, por ordem de chegada. Algumas, por terem que ver com temas sazonais, ficarão para uma altura em que tratá-las possa ser útil para mais pessoas.

Dito isto, falemos então de COVID-19, de contágio e de hospitais.

Ir a um hospital tratar-se e vir de lá doente, ainda para mais com COVID-19, parece um contra-senso, não é? Mas a verdade é que os hospitais são dos locais mais propícios a se ficar doente. Tanto assim é, que até existe um termo para designar as doenças que se apanham no hospital: infecções associadas aos cuidados de saúde, ou IACS.

Em boa verdade, não é só no hospital que há IACS. A Organização Mundial de Saúde define IACS como uma infecção que ocorre num doente durante o processo de cuidados prestados num hospital ou outro serviço de saúde, ou após a alta, e que não estava presente no momento da admissão. Para além disso, as infecções ocupacionais nos profissionais de saúde também são incluídas na categoria de IACS [1].

A OMS elaborou um estudo em 2010, no qual estima que 12,6–18,9% dos doentes que recorrem aos serviços de saúde desenvolve uma IACS. No caso dos doentes adultos que são internados algum tempo em unidades de cuidados intensivos, essa proporção é de 36,7–59,1 por mil doentes-dia (doentes-dia é uma forma de medir a proporção, não só em função do número de pessoas internadas em UCI, mas também do tempo que lá ficam internadas). A infecção de feridas cirúrgicas ocorre em 5,6% dos procedimentos cirúrgicos [2].

Em termos de causadores destas infecções, a maioria são bactérias e uma parte não despicienda são bactérias resistentes aos antibióticos [2].

Os factores de risco para desenvolver uma IACS são múltiplos e variam de acordo com o tipo de instituição de saúde e com a área geográfica. Os factores mais comuns são a idade, o recurso ao serviço de urgência e o internamento em cuidados intensivos, um internamento de mais de sete dias, a colocação dum catéter venoso central, algaliação ou traqueostomia, a imunossupressão e o coma [3].

Perante este panorama, não é, parece-me, de surpreender que também a COVID-19 possa ocorrer como uma infecção associada aos cuidados de saúde.

Isto não é razão para se deixar de ir ao centro de saúde ou ao hospital, quando se precisa. Mas, como em tudo, é preciso prevenir e ter conta, peso e medida.

Os serviços de saúde têm feito um enorme esforço de prevenção e contenção da COVID-19. Os doentes suspeitos têm percursos dedicados e isolados dos restantes doentes. Os doentes que são submetidos a procedimentos médicos mais invasivos são testados antes para COVID-19. Os profissionais de saúde utilizam equipamentos de protecção individual, para prevenir o contágio. Todas as pessoas que circulam nas instituições de saúde, sejam profissionais, doentes, visitantes, voluntários, etc. devem usar máscara. Os procedimentos de limpeza e desinfecção foram reforçados.

Mas cada um de nós pode também ajudar a fazer a diferença e a prevenir a transmissão da COVID-19, seja nas instituições de saúde, seja fora delas. Como já disse, a utilização de máscaras em instituições de saúde está recomendada pela DGS [4]. Os idosos e as pessoas com doenças crónicas ou em estado de imunossupressão devem usar máscaras sempre que saiam de casa [4]. Todas as pessoas com sintomas respiratórios devem usar máscara [4] e devem abster-se de visitar ou acompanhar doentes nas instituições de saúde [5]. Todas as pessoas que permaneçam em espaços interiores fechados com múltiplas pessoas devem também usar máscara [6]; não esquecendo, porém, que a máscara é um complemento e não substitui o distanciamento social, a lavagem das mãos e a etiqueta respiratória.

Antes de me despedir, quero deixar uma última palavra para a utilização racional dos serviços de saúde. Em 2019, tal como é já costume, pouco mais de 40% dos atendimentos no serviço de urgência foram triados como verdes, azuis ou brancos. Este tipo de pulseiras significa que o doente não precisava de ter vindo ao serviço de urgência [7]: poderia ser acompanhado no centro de saúde, ou até bastaria ir à farmácia buscar um medicamento não sujeito a receita médica, para resolver o seu problema. Estamos a dizer que 40% dos doentes que foram atendidos nos serviços de urgência, em 2019, provavelmente, correram mais risco, em termos de virem de lá com uma IACS, do que o risco de terem ficado em casa ou esperado por uma consulta com o médico de família.

Nunca é possível eliminar por completo o risco, mas é possível reduzi-lo imenso — e não só para a COVID-19, mas para todas as IACS — com medidas que até são bastante simples. Temos é de todos colaborar…

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