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Perspectivas em Saúde

Já passou?

Por Gustavo Martins-Coelho



As analogias futebolísticas estão em voga. Por dá cá aquela palha, as figuras públicas, começando pelos dirigentes políticos, mas com extensão a outros sectores, usam o que se passa dentro das quatro linhas como forma de ilustrar uma ideia que querem transmitir.

No topo da lista, vem a grande transferência da época, a do Ronaldo das Finanças [1]. Mas há outras — muitas outras!

Não pretendo fazer aqui uma lista exaustiva delas, até porque não sou particularmente favorável à utilização de analogias futebolísticas em contextos diversos, mas hoje abro uma excepção e também quero usar a minha própria metáfora futebolística, para exemplificar o ponto em que nos encontramos, em relação à COVID-19.

Estamos como que a ganhar 1-0 ao intervalo. A primeira parte correu bem, a COVID-19 entrou forte, mas nós respondemos à altura, defendendo a baliza e contra-atacando e lá conseguimos fazer um golo, indo para o intervalo em vantagem. Mas temos ainda 45 minutos pela frente e, apesar dessa vantagem mínima, nada está ganho. É preciso continuar o nosso jogo, obviamente com uma alteração da estratégia, tendo em conta a vantagem no marcador.

Portanto, feita que está a analogia, quero expandi-la com um par de reflexões sobre a situação epidemiológica actual.

A primeira é que a situação não é, nem nunca foi, homogénea no País inteiro. Há zonas mais afectadas e zonas mais poupadas. Neste momento, a zona mais afectada, como é do conhecimento geral, é Lisboa e Vale do Tejo [2]. Mas, mesmo dentro da região da capital, os concelhos não estão todos no mesmo barco: Sintra, Cascais, Lisboa e Amadora concentram mais casos novos do que os restantes concelhos [3]. Antes, já tivemos outros focos equivalentes, tanto na região Centro, como na região do Norte. Isso significa que as medidas de vigilância e controlo não devem ser aplicadas da mesma forma no País inteiro.

A segunda reflexão que quero partilhar é que a situação actual não é, nem de longe nem de perto, equivalente a quando a pandemia chegou a Portugal, no início de Março.

Em primeiro lugar, nas primeiras semanas de Março, estávamos a ter um crescimento exponencial do número de novos casos. Isso significa que cada pessoa infectada estava a contagiar muitas pessoas à sua volta e significa também que, se nada tivesse sido feito, teríamos tido uma crise sanitária gravíssima, com falência do Serviço Nacional de Saúde e um número muito maior, quer de casos, quer de óbitos. Hoje, o número de novos casos tem-se mantido mais ou menos constante, dia após dia, ou com um crescimento linear. Isso significa que cada pessoa infectada está a contagiar uma ou duas pessoas com quem contacta, o que significa que as medidas de contenção — quer as medidas gerais, como o distanciamento social, a etiqueta respiratória, a lavagem e desinfecção das mãos, o uso de máscara e a redução da actividade económica, quer as medidas específicas, como o isolamento dos doentes e dos seus contactos — estão a resultar e a impedir a propagação descontrolada do vírus.

Em segundo lugar, o SNS está hoje mais capacitado para lidar com a COVID-19 do que estava no início de Março. Há mais ventiladores nos hospitais [4]; há mais equipamentos de protecção individual para os profissionais [5]; há uma reorganização dos serviços, das instalações, dos percursos dos doentes, de modo a prevenir o mais possível o contágio [6]. Por outro lado, há mais fadiga entre os profissionais de saúde, que fizeram muitas horas extraordinárias e não puderam tirar férias.

Em terceiro lugar, creio que as pessoas, em geral, estão mais sensibilizadas para o problema e a cumprir as regras. E isto é o mais importante. Esta é a principal garantia que temos, de que a situação não voltará a piorar e não voltaremos a ter de ficar todos fechados em casa, com medo do que possa vir por aí.

Claro que há mais desafios a caminho. Um deles é a situação em Lisboa e Vale do Tejo. A Área Metropolitana de Lisboa tem fortes relações socioeconómicas com o resto do País, que implicam deslocações e contacto entre pessoas, o que pode rapidamente propagar o coronavírus e criar novos focos fora da região. Outro é o esperado regresso dos emigrantes portugueses, que tradicionalmente visitam o País em Julho e Agosto e que podem também ser um veículo de contágio, este ano. A solução, neste momento, como até agora, não é discriminar, nem culpar, quem fica doente. A solução é não baixar os braços e sempre recordar que, se cada um fizer a sua parte, vamos todos ficar bem.

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