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O ar condicionado está proibido, por causa da COVID-19?

Por Gustavo Martins-Coelho



Olá!

Já me fizeram, mais do que uma vez, por causa da COVID-19, a pergunta do ar condicionado: está proibido ou não?

Bom, posso começar por dizer que preparei esta crónica num gabinete com ar condicionado a funcionar. Acho que isso responde à pergunta, não é?

Mas vamos explicar a coisa, para não restarem dúvidas.

Uma das principais vias de transmissão da COVID-19 é através de gotículas em suspensão no ar. Naturalmente, num espaço fechado, sem renovação de ar, essas gotículas acumulam-se mais do que ao ar livre, onde basta uma brisa para as dissipar. Ora, para eliminar essas gotículas dos espaços interiores, é fundamental assegurar, sempre que possível, uma boa ventilação dos mesmos, preferencialmente com ventilação natural, através da abertura de portas ou janelas, nos períodos do dia com menor calor. Porquê? Porque a circulação de ar assim gerada ajuda também a dissipar as gotículas que possam estar em suspensão no ar, levando-as para o exterior.

Mas pode também ser utilizado ar condicionado para esse efeito. Dado que o objectivo é promover a circulação do ar, a fim de dissipar as gotículas, é importante que haja uma boa renovação do ar, seja pelo próprio sistema de ventilação (quando esta funcionalidade esteja disponível), seja através do arejamento frequente.

De qualquer forma, deve ser garantida a limpeza e a manutenção adequada do ar condicionado, de acordo com as recomendações do fabricante — mas isto já nem é uma questão específica da COVID-19; a manutenção do ar condicionado deve ser feita sempre, até porque há outras doenças, tais como a doença do legionário [1], que podem ser disseminadas pelo ar condicionado.

Portanto, resumindo e concluindo: não está desaconselhado o uso de ar condicionado, por causa da COVID-19.

Mas, já que falamos de ar condicionado, antes de terminar, quero deixar uma nota sobre o seu papel na saúde.

Ao longo dos últimos cinquenta anos, a probabilidade de se morrer num dia extremamente quente, nos EUA (que são quem sempre tem este tipo de dados estatísticos à mão de semear) reduziu-se em 75%. A razão para essa redução tem muito que ver com a instalação de equipamentos de ar condicionado nos domicílios. Em 1965, apenas 10% das casas estado-unidenses tinha ar condicionado; em 2009, eram 87%. O que começara como uma novidade nas salas de cinema estava subitamente em todo o lado: das lojas, aos autocarros, aos escritórios. O ar condicionado não só reduz as complicações de saúde associadas ao calor [2], mas também alivia os sintomas de asma e alergia, porque filtra o ar interior.

O uso de ar condicionado está associado ao rendimento, pelo que é provável que aumente no futuro, sobretudo nos países em desenvolvimento. Mas o arrefecimento tem um preço: prejudica sem dúvida o ambiente. A refrigeração e o ar condicionado causam cerca de dez por cento das emissões globais de dióxido de carbono — três vezes mais do que a aviação e o transporte de mercadorias juntos! Isto porque o ar condicionado requer energia para funcionar, que provém frequentemente de combustíveis fósseis; e porque pode libertar hidrofluorocarbonetos, que constituem o gás refrigerante e têm dois problemas: têm um potente efeito de estufa, acelerando as alterações climáticas, e destroem a camada do ozono.

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