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Perspectivas em Saúde

Morrer de Covid-19 ou morrer com Covid-19?

Por Gustavo Martins-Coelho



Uma característica que é importante perceber numa doença infecciosa é a sua gravidade, o que, em última instância, se mede pela sua capacidade de causar a morte dos doentes. Esta característica da doença chama-se letalidade e permite compreender a sua gravidade, identificar populações em risco e avaliar a qualidade dos cuidados de saúde.

No caso da Covid-19, tal como acontece com muitas outras doenças e particularmente em períodos epidémicos, o real número de doentes é frequentemente subestimado, porque uma proporção substancial das pessoas infectadas não são identificadas, seja porque são assintomáticas, seja porque têm sintomas leves e não vão ao médico por causa disso, seja porque não têm possibilidade de aceder aos cuidados de saúde, seja porque podemos não ter capacidade laboratorial para testar todos os casos suspeitos, seja porque são diagnosticadas como outras doenças parecidas. Portanto, sem saber ao certo o número de doentes, torna-se difícil calcular a letalidade da Covid-19.

Daí que seja importante realizar estudos imunológicos [1], para conhecer o número de pessoas infectadas e daí poder estimar com mais certeza a letalidade.

Por outro lado, também pode haver discrepâncias na contagem do número de mortes por Covid-19. Geralmente, considera-se que uma pessoa morreu por Covid-19, se a morte tiver ocorrido como resultado duma situação clínica compatível com a definição de caso provável ou confirmado de Covid-19, excepto se houver uma causa de morte claramente definida e incompatível com Covid-19. Por exemplo, se um doente com Covid-19 tropeçar, cair pelas escadas abaixo e morrer na sequência das lesões sofridas, não se conta como uma morte causada por Covid-19.

Acrescem a isto problemas metodológicos no cálculo da letalidade durante a fase epidémica. Para calcularmos a letalidade, dividimos o número de mortes causadas pela doença pelo número de pessoas com a doença. No entanto, nós só sabemos o número de mortes, depois de toda a gente ter deixado de estar doente (uns porque morreram, outros porque recuperaram). Durante a epidemia, existem casos activos, que nós ainda não sabemos se vão sobreviver. Além disso, é possível que ainda não tenham sido notificados todos os novos casos. Ou seja, se calculada durante a epidemia, a estimativa da letalidade não conta as mortes que ainda vão ocorrer nem os casos que ainda vão ser identificados.

Isto serve para explicar por que motivo não sabemos, ainda, ao certo qual a letalidade da Covid-19; até porque, além destas dificuldades em contar doentes e mortos, a letalidade é influenciada pela qualidade dos cuidados de saúde prestados aos doentes e pelos factores de risco que diversos doentes podem ter (por exemplo, a idade, o sexo, a etnia e outras doenças concomitantes).

Mas há uma outra ferramenta que podemos usar, para ter uma noção do impacto da pandemia na mortalidade: o excesso de mortalidade.

Todos nós morremos. Esta é, provavelmente, a verdade mais universal de todas. Portanto, todos os dias morrem pessoas; e nós sabemos, mais ou menos, quantas mortes esperar, em média, em cada dia, ou semana, ou mês. Então, se, de repente, num só dia, morrer o dobro ou o triplo do número de pessoas que morre habitualmente por dia, nós sabemos que alguma coisa está a correr mal. A este número inusitadamente alto de mortes, por comparação ao que é habitual, chama-se excesso de mortalidade.

Em Portugal, observou-se este efeito, pelo menos, em Março e Abril — período crítico de confinamento e estado de emergência. O excesso de mortalidade foi de 2400 a 4000 óbitos, a nível nacional, relativamente ao que seria normalmente expectável para o período [2], sobretudo em pessoas com mais de 65 anos. Este excesso de mortalidade é explicado pela Covid-19, mas não só. Concretamente, o número de mortes em excesso em Março e Abril poderá ser até cinco vezes superior ao que é explicado pela contagem oficial de mortes por Covid-19. Essa diferença poderá estar relacionada com outras mortes devidas a Covid-19, mas que não foram contabilizadas dessa forma, e também com uma redução no acesso aos cuidados de saúde, durante o período de confinamento.

Mas tudo isto ainda resulta de estudos preliminares. Infelizmente, a ciência não anda, muitas vezes, à velocidade que nós gostaríamos de que ela andasse, para nos dar as respostas de que precisamos. Mas, por outro lado, nós também não olhamos, muitas vezes, com a devida atenção para a ciência e o que ela nos ensina. Já houve outras pandemias, temos registos do que se passou, temos análises e estudos científicos, temos lições que podemos facilmente retirar e, ainda assim, continuamos a cometer os mesmos erros. O maior deles todos é acharmos, demasiado cedo, que isto já passou.

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