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Perspectivas em Saúde

Por que fazem os profissionais do futebol muitos testes à Covid-19 e os profissionais de saúde nem tanto?

Por Gustavo Martins-Coelho



Olá!

Hoje, vamos dar resposta à seguinte questão: por que é que os treinadores e jogadores de futebol fazem muitos testes à Covid-19 e os profissionais de saúde nem tanto?

Para respondermos a isso, temos de perceber um pouco melhor o que é e como se dá o contágio; e o que são períodos de incubação.

Contágio: a Covid-19 apanha-se exactamente da mesma forma que se apanha a gripe, as vulgares constipações, e mesmo outras infecções respiratórias mais graves, como pneumonias: estando em contacto com uma pessoa doente, que nos «pega» a doença. No caso da Covid-19, isso pode acontecer de duas formas, principalmente: ou através de gotículas produzidas nas vias respiratórias dos doentes, ou através de superfícies.

O que são gotículas? Eu costumo recomendar uma experiência simples, para visualizar as gotículas: coloque-se em frente a um espelho e sopre. O que acontece? O espelho fica embaciado, certo? Esse embaciado são as tais gotículas, que saíram da sua boca e condensaram ao embater no espelho. Essas gotículas estão permanentemente a ser produzidas e saem quando respiramos, quando falamos, mas sobretudo quando tossimos e espirramos. Percebendo isto, é fácil de perceber três coisas: que, se usarmos máscara, as gotículas já não saem (ou, vá, saem, mas ficam retidas, em vez de se espalharem pelo ar); que, assim como, se nos afastarmos do espelho, ele já não embacia, também, se nos afastarmos das pessoas com quem estamos (aquilo que se chama de distanciamento social), elas já não levam com as nossas gotículas em cima; e que, se taparmos a boca quando espirramos e tossimos, também impedimos que se espalhem pelo ar.

Isto de tapar a boca ao tossir e espirrar traz-nos à segunda via de transmissão: as superfícies. O que acontece, se tossirmos ou espirrarmos para a mão? Às vezes, ela até fica húmida: são as tais gotículas. Mas, mesmo que não sintamos humidade, a verdade é que as gotículas ficaram na nossa pele. E o que é que nós fazemos com a mão? Tocamos em tudo quanto é sítio. Imaginemos que eu espirro ao cimo das escadas e tapo a boca com a mão. A seguir, desço as escadas e apoio-me no corrimão. As gotículas, que estavam na minha mão, ficaram no corrimão. Atrás de mim, vem outra pessoa, que se apoia igualmente no corrimão: as gotículas que eu deixei no corrimão passaram para a mão dessa pessoa, que, ao chegar ao fundo das escadas, teve uma comichão no nariz e coçou com a mão que tinha as gotículas apanhadas no corrimão onde eu tinha posto a minha mão depois de espirrar e tapar a boca com ela. Logo, as gotículas que eu produzi estão agora no nariz doutra pessoa, tendo lá chegado através duma superfície em que ambos tocámos — o corrimão. Fica também fácil de perceber por que se deve tossir para o braço e não para a mão, certo? Quando foi a última vez que se apoiou com o cotovelo no corrimão das escadas?…

Falta-nos, então, falar de período de incubação. O período de incubação é o intervalo de tempo que vai da exposição ao vírus (ou seja, quando estivemos em contacto com uma pessoa infectada) e o início dos sintomas. No caso da Covid-19, o período de incubação é tipicamente de 2 a 14 dias, sendo a média de 5 dias.

Então vejamos por que há tantos testes no futebol e tão poucos nos profissionais de saúde. No caso do futebol, os jogadores da Liga Nos são testados antes de cada jornada; no caso da LigaPro, a cada duas jornadas. Agora que percebemos como se faz o contágio e o que é um período de incubação, fica fácil perceber porquê. Dado que não é possível ter os jogadores a jogar de máscara e muito menos pedir-lhes que guardem grande distância entre eles (sobretudo em relação ao que tem a bola), se um jogador entrar em campo doente, arriscamo-nos a ter vinte e dois a saírem de lá doentes, após noventa minutos. A solução, para não ter de interromper o campeonato, é, além de garantir que os jogadores se abstêm de comportamentos que os coloquem em risco de contágio durante a semana, jogar com o período de incubação: se testarmos antes dos jogos, identificamos os positivos e impedimo-los de entrarem em campo.

Já no caso dos profissionais de saúde, podemos pedir-lhes que usem os cuidados que toda a gente deve usar no seu dia-a-dia; e podemos dar-lhes todo o equipamento de protecção individual necessário, para garantir que não são infectados quando estão a cuidar de doentes com Covid-19. Por isso, se os profissionais de saúde usarem o equipamento adequado e cumprirem as precauções recomendadas nas normas da DGS, o risco é baixo e não requer a realização de testes regulares.

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