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Perspectivas em Saúde

Risco de contágio muito elevado?

Por Gustavo Martins-Coelho



Olá!

No passado dia 24 de Outubro, o jornal Expresso publicou um mapa dos concelhos com risco de contágio muito elevado, no qual incluiu os concelhos de Montalegre, Ribeira de Pena, Vila Pouca de Aguiar e Valpaços. Segundo a notícia que acompanha o mapa, o critério foi o número de novos casos, por cem mil habitantes, ter sido superior a 120 entre 5 e 19 de Outubro. A fonte dos dados são os boletins da DGS.

Como eu já expliquei aqui [1], os boletins da DGS não correspondem necessariamente à realidade a nível local. Por consequência, o mapa produzido pelo Expresso a partir desses dados pode não identificar correctamente os concelhos de «risco de contágio muito elevado». Não é esse o caso no Alto Tâmega, visto que, mesmo utilizando os dados do boletim epidemiológico da Unidade de Saúde Pública local, o mapa não se altera: Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar continuam a vermelho.

Mas o que é mais importante é perceber o que esse valor significa. Vamos a um exemplo absurdo, mas que acho que explica lindamente a limitação de olharmos apenas para a incidência e determinarmos assim o risco. Suponhamos que, no espaço de duas semanas, toda a população de Chaves era infectada. O mapa indicaria Chaves a vermelho, com «risco de contágio muito elevado». No entanto, se já toda a gente adoeceu, não há mais ninguém para adoecer. Logo, na verdade, o risco passou para zero: se não há mais ninguém para adoecer, porque todos já estão doentes, então não haverá certamente novos casos na semana seguinte. O que este exemplo absurdo nos demonstra é que olhar simplesmente para o número de casos que surgiram num dado período não é garantia de continuarem a surgir casos no futuro. É muito mais importante olhar para a curva epidémica e perceber o caminho que está a seguir. O número de casos está tendencialmente a aumentar ou a diminuir? Se estiver a diminuir, então o nível de risco é reduzido. Se estiver a aumentar, esse aumento tem características lineares ou exponenciais? Se for um aumento linear, não é mau. Se for um aumento exponencial, então, sim, podemos estar perante um problema.

Mas não basta olhar para a tendência. Outro exemplo: foi publicado nas notícias que houve um surto em Salto, Montalegre [2]. Esse surto representa três quartos do número de casos ocorridos em todo o concelho. Se retirarmos o surto de Salto da equação, Montalegre já não fica a vermelho, ou seja, já não faz parte da lista de concelhos com «risco de contágio muito elevado». Portanto, olhar para os concelhos, sobretudo para concelhos geograficamente tão extensos como os do Alto Tâmega, e tomá-los como um todo homogéneo, onde o risco de transmissão se distribui igualmente por todo o território, é um erro.

Da mesma forma, importa perceber em que circunstâncias acontecem os surtos. É diferente termos casos concentrados numa instituição ou comunidade — seja um lar, uma escola, uma fábrica, uma corporação de bombeiros, etc. — ou termos casos a acontecer de forma dispersa. Surtos com um ponto de origem comum preocupam-nos menos, porque, uma vez fechada aquela cadeia de transmissão, através da colocação dos contactos em quarentena, o surto extingue-se rapidamente.

Além da extensão geográfica, a densidade populacional do Alto Tâmega é baixa. A reduzida dimensão populacional é outro factor a ter em conta, nesta análise. Vejamos o caso de Boticas. A incidência, medida usada no mapa do Expresso, calcula-se dividindo o número de novos casos pela população em risco. Em Boticas, dada a reduzida população do concelho, uma família de seis pessoas — dois avós, dois pais e dois netos, por exemplo — em que um dos netos estude no Porto, venha de lá com Covid-19 passar o fim-de-semana e contagie o irmão, os pais e os avós, é suficiente para elevar a incidência no concelho para acima da fasquia dos 120 casos por cem mil habitantes, usada para definir um concelho de alto risco. Podemos mesmo dizer que Boticas está em alto risco, quando tem apenas uma família doente? Dificilmente…

O que nos traz a mais uma limitação destes mapas de risco baseados na incidência: a forma como ocorreu o contágio também é importante. Se temos uma origem bem identificada para os casos, é uma coisa. Se não sabemos como surgiram os casos, é outra. Quando isto acontece, dizemos que há transmissão comunitária. A transmissão comunitária agrava o risco, porque significa que há uma fonte, que não sabemos qual é, que está a transmitir o vírus. Ou seja, pode ter sido qualquer pessoa, em qualquer sítio, a origem da infecção. Quando não sabemos a origem, não podemos extingui-la directamente e temos de tomar medidas mais gerais de contenção, como sejam a suspensão do funcionamento de determinados estabelecimentos, serviços e eventos não essenciais.

Para além disto tudo, importa ainda dizer que esta informação não deve ser divulgada publicamente, porque corre o risco de ser contraproducente. Se há quatro concelhos do Alto Tâmega a vermelho no mapa do Expresso, quer dizer que os dois restantes estão a salvo? É perigoso dizer isso, porque pode dar uma sensação de segurança às pessoas, que as leve a facilitar e, se há coisa que não podemos fazer nesta altura, é facilitar. Só por curiosidade, se o mapa do Expresso tivesse sido baseado nos dados de 6 a 20 de Outubro, em vez de 5 a 19, Chaves já entraria na lista de concelhos com «risco de contágio muito elevado» também…

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