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Sol em Azul

Olho

Por Marcos Santos


Óleo s/ tela, 50 × 60 cm

 

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Perspectivas em Saúde

O Governo vai deitar dois milhões de euros ao lixo

Por Gustavo Martins-Coelho



Para explicar a ideia que quero partilhar hoje, tenho de começar por transmitir um par de noções teóricas.

Primeiro, o que é um rastreio? Um rastreio é, nas palavras do «Dicionário de saúde pública» [1], a pesquisa de situações de doença não identificadas previamente, usando testes que possam ser realizados rapidamente e de forma económica em grandes números de pessoas, com o objectivo de as dividir em dois grupos: os que podem ter a doença e os que, muito provavelmente, estarão livres dela.

Então, passemos à segunda pergunta: para que serve um rastreio? Para uma de duas coisas, consoante: para proteger da doença alguém que se encontra em risco, ou até já a tem, em fase inicial, e não sabia (penso, por exemplo, no rastreio do cancro da mama); e para proteger alguém cuja saúde pode ser prejudicada por quem tem a doença (por exemplo, no caso da COVID-19).

Pensemos então em rastreio de COVID-19. Quem é que beneficiaria mais do rastreio? Principalmente as pessoas mais velhas, que são a faixa etária em que as complicações mais graves da doença e a mortalidade são mais elevadas. Foi este o raciocínio por trás da ideia de rastrear os trabalhadores e residentes dos lares. Os idosos que vivem em lares são o grupo de maior risco, pelo que é necessário protegê-los da COVID-19. Por outro lado, são pessoas com pouca vida fora das instituições onde residem, pelo que a principal, se não única, via de contágio são os trabalhadores que com eles convivem e que podem levar o coronavírus para dentro do lar.

Pensemos agora na medida anunciada pelo Governo no passado dia 1 de Maio [2], que consiste em rastrear quase 30.000 trabalhadores de creches. Qual é o grupo que se pretende proteger? Os trabalhadores ou as crianças? Nem uns, nem outros, se encontram particularmente em risco, ao contrário dos velhinhos nos lares. Portanto, o objectivo do rastreio, à luz do que já expliquei, é questionável. Ainda por cima, ao contrário do que sucede com os idosos, que vivem no lar, as crianças têm múltiplas outras vias de contágio possível, a começar pela família, com quem estão, quando não estão na creche.

Portanto, se não estamos a falar dum grupo de risco, nem estamos, nem de longe, nem de perto, a rastrear todas as pessoas que podem funcionar como cadeias de transmissão de e para as crianças, estamos a fazer o quê?

Ainda para mais, um teste que custa cerca de €60 — a preço de custo, porque está a ser vendido ao SNS, pelos laboratórios privados, a mais de €100 — dificilmente pode ser considerado «económico». Trinta mil trabalhadores vezes sessenta euros por teste são perto de dois milhões de euros. Dois milhões de euros que vão ser deitados ao lixo e não poderão ser usados em equipamentos de protecção individual, formação dos trabalhadores, adaptação das instalações para prevenir vias de contágio, e um enorme etc. de coisas que seriam, de facto, úteis.

Esta gente tem de perceber, duma vez por todas, que não cuida da saúde pública quem quer; cuida quem sabe!…

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Sol em Azul

Vindimas II

Por Marcos Santos


Vindimas II

Óleo s/ tela, 40 × 30 cm

 

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Perspectivas em Saúde

O preço da imunidade de grupo

Por Gustavo Martins-Coelho



Na última semana, várias pessoas me falaram sobre a imunidade de grupo e a falta dela em relação à COVID-19.

Antes de mais, quero dedicar duas palavras a explicar o que é a imunidade de grupo. Imaginemos uma população — pode ser a população duma vila ou duma cidade pequena: 10.000 pessoas. Imaginemos agora que essas pessoas andam na rua, vão trabalhar, vão às compras, em suma, que fazem uma vida normal. Vão estar aleatoriamente em contacto umas com as outras. Claro que haverá um grupo restrito de pessoas com quem contactam mais — a família, os amigos, os colegas de trabalho —, mas também há muita gente que nunca viram na vida, partilham uma viagem de autocarro e nunca mais verão novamente. Então, se cada pessoa se cruzar com duzentas pessoas diferentes ao longo do dia (um número que acabei de tirar da cartola, mas vamos assumir que é verdade que, entre pessoas próximas e estranhos com quem nos cruzamos na rua, passando por clientes que atendemos no trabalho, estamos com duzentas pessoas, em média, por dia), uma pessoa que tenha COVID-19, ou outra doença transmissível qualquer, pode transmiti-la a qualquer uma dessas duzentas pessoas, se nenhuma delas estiver imune. Mas, se metade delas estiver imune, só pode transmitir a cem pessoas. Então, a rapidez do contágio reduziu-se para metade. A imunidade de grupo é isto: é o número, ou a proporção, no caso — a proporção de pessoas que, numa população, tem de estar imune, para que uma pessoa doente não consiga, com elevada probabilidade, cruzar-se, no seu dia-a-dia, com uma pessoa susceptível e infectá-la.

Esse número varia de doença para doença; e porquê? Bom, vamos ter de falar do já famoso R0, para percebermos porquê…

O que é o R0? R0 significa número básico de reprodução e é o número de pessoas que uma pessoa doente consegue contagiar. No caso da COVID-19, o R0 tem sido estimado entre 2 e 2,5, ou seja, cada pessoa doente contagia, em média, 2 a 2,5 pessoas. Contagiar 2,5 pessoas é um bocado parvo, porque não se pode contagiar meia pessoa, mas lembremo-nos de que estamos a falar duma média e, como toda a gente sabe, se eu comer um frango e a minha namorada nenhum, em média, comemos meio frango cada, de modo que não sei por que diz ela que está com fome… Da mesma forma, se um doente contagiar três pessoas e outro contagiar duas, em média, contagiaram 2,5 pessoas cada um…

Fica fácil de perceber que, quanto maior o R0, maior a velocidade de crescimento da doença. Por exemplo, se cada pessoa com COVID-19 contagiar duas, se o período de incubação demorar uma semana e se, até à cura, passarem quinze dias (tudo número que eu estou a arredondar, com base nos reais, para facilitar as contas), quer dizer que, se tivermos um caso hoje, daqui a uma semana teremos três: o que já tínhamos hoje e os dois que ele contagiou; daqui a duas semanas, teremos seis — os dois contagiados pelo primeiro e quatro contagiados por estes dois — e um curado (o primeiro caso, pois já passaram quinze dias). Não parece muito, porque só passaram duas semanas. Mas, ao fim de dois meses, que é o tempo que já passou desde que tivemos o primeiro caso em Portugal, já iríamos em 255 casos, todos com origem num único doente inicial. Mais: ao fim de dois meses, destes 255 casos, 189 ainda estariam doentes, 58 estariam curados e 18, tendo em conta a letalidade actual a nível mundial,  estariam mortos…

Mas, como eu disse, à medida que as pessoas vão contactando com o vírus, vão ganhando imunidade e, portanto, torna-se mais difícil o contágio. Logo, o R — que é o mesmo que o R0, mas aplicado a uma população em que parte das pessoas são imunes — diminui. Então, se o R passar para menos do que 1, significa que, em vez de uma pessoa contagiar várias e fazer aumentar o número de casos, há várias pessoas que não originam contágio. É como a história do frango: se um doente contagiar uma pessoa e outro não contagiar ninguém, em média, cada um contagiou meia pessoa…

Baixar o R para menos do que 1 pode ser conseguido de várias formas. Pode ser através do distanciamento, da etiqueta respiratória, da lavagem das mãos, do uso de máscaras [1], do isolamento — ou pode ser através da imunidade de grupo! De que forma? Vou poupar aqui a matemática da coisa e dizer simplesmente que, no caso da COVID-19, para conseguirmos impedir a propagação da doença através da imunidade de grupo, precisamos de ter, pelo menos, 50% da população imune; idealmente, 60%.

Como se atinge a imunidade? De várias formas, mas, para aqui, interessam particularmente duas formas: o contacto directo com o vírus, sendo infectado por ele, e a vacinação. Como, para já, não há vacina, sobra a primeira. Portanto, para termos imunidade de grupo, nesta altura do campeonato, sem vacina, teríamos de ter 60% da população a ser infectada. Como há cerca de dez milhões de habitantes neste nosso país, 60% disso são seis milhões. Seis milhões de pessoas infectadas em Portugal propiciar-nos-iam imunidade de grupo!

Qual é o problema disto? Mesmo assumindo que, desses seis milhões, 80% são assintomáticos [2], sobram 1.200.000 doentes com sintomas. E destes, já sabemos que cerca de 7% morrem… Ora, 7% de 1.200.000 são… 84.000!!!

E este — 84.000 mortos — seria o custo da imunidade de grupo em Portugal. 84.000 mortos seria o preço a pagar para podermos ir tranquilamente à praia, para podermos dispensar as máscaras no supermercado e em todo o lado, para podermos levar a vida normal que levávamos antes disto tudo acontecer.

É um preço que não estou disposto a pagar… É preferível ficar em casa e esperar por uma vacina!

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Perspectivas em Saúde

Máscaras: sim ou não?

Por Gustavo Martins-Coelho



Já mais do que uma pessoa me tem perguntado se eu acho que devamos usar máscaras, para nos protegermos da COVID-19.

A Direcção-Geral da Saúde disse inicialmente que não, mas, entretanto, no início deste mês, abriu a possibilidade de outras pessoas, além dos profissionais de saúde, usarem máscaras cirúrgicas fora dos serviços de saúde [1]. Ainda assim, a dúvida persiste, inclusivamente em relação às máscaras de pano ou outros tecidos, feitas pelo próprio ou compradas. Devem usar-se ou não?

Vamos por partes! Primeiro: as máscaras cirúrgicas são úteis ou não, afinal? A DGS andou a enganar-nos, no início, quando dizia para não usarmos?

Em teoria, sim; na prática, não; por várias razões.

A primeira razão é que não havia máscaras para todos, pelo que era preferível deixá-las para quem realmente precisa, em vez de as açambarcarmos nós, que podemos passar sem elas. E quem realmente precisa? Profissionais de saúde; pessoas com sintomas de infecção respiratória, para não passarem aos outros (mas isto deveria ser uma precaução em todas as épocas de gripe e não só agora que há COVID-19); e doentes: hemodialisados, doentes oncológicos, imunodeficientes, doentes a fazer medicamentos biológicos, etc.

A segunda razão é que, com a máscara, uma pessoa sente-se segura e esquece-se de todas as outras precauções, que são tão ou mais eficazes. Mas já vou falar um pouco mais disto.

Entretanto, para concluir a minha ideia, a terceira razão é que a máscara requer cuidados especiais a pôr, (sobretudo) a tirar e mesmo saber quando trocar; e a verdade é que, se até os profissionais de saúde cometem erros, às vezes, imaginemos agora a população geral! Arriscávamo-nos a que fosse pior a emenda do que o soneto e a acabar tudo contagiado pela própria máscara, ao usá-la mal.

Agora, sobre a questão da segurança e do cumprimento das outras medidas preventivas. Os estudos indicam que as máscaras cirúrgicas filtram cerca de 70% das partículas. Portanto, há coisas que conseguem passar. Outros tipos de máscaras, como as FFP2, filtram 99%. Mas são mais caras e não há para todos; portanto, reservam-se para os profissionais de saúde em maior risco.

Ficamos então pelas cirúrgicas. Temos mais capacidade de produção de máscaras cirúrgicas do que FFP2, mas, mesmo assim, não chega para a população toda. Então, reservamo-las para os grupos prioritários que eu já referi. Se sobrarem, não há mal em outras pessoas usarem também. Mas, por favor, lembre-se, de cada vez que usar uma máscara cirúrgica, de que ela pode estar a fazer falta a alguém que precise mais dela.

Sobram as máscaras caseiras, feitas de pano. Os estudos indicam que filtram 30–40% das partículas. Por comparação, lavar as mãos reduz a probabilidade de contágio em 70%, tossir ou espirrar para o braço outros 70% e distanciamento social 60% [2]. Portanto, estas medidas gerais são tão eficazes como as máscaras cirúrgicas e mais eficazes do que as máscaras de pano.

Daí que a conclusão a tirar seja esta: se for uma das pessoas que referi antes (doente com COVID-19 ou seu cuidador, ou outro doente com a imunidade em baixo), use máscara cirúrgica. Se não for uma destas pessoas, deixe a máscara cirúrgica para quem dela mais precisa e use uma máscara de pano. Máscara FFP2 é, em qualquer caso, um exagero, se não for profissional de saúde.

Mas, com ou sem máscara, não se esqueça de que lavar as mãos, não se esqueça de tossir ou espirrar para o braço e não se esqueça de cumprir o distanciamento social, porque isto protege tanto ou mais e é absolutamente fundamental não descurar.

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Perspectivas em Saúde

A COVID-19 matou a descentralização? — parte II

Por Gustavo Martins-Coelho



Na semana passada, descrevi a forma como a Ministra da Saúde retirou o tapete às autoridades de saúde locais [1]. Hoje, quero debruçar-me sobre a forma como a mesma Ministra tentou também tirar a voz às unidades de saúde pública locais, através da imposição da lei da rolha.

Diz o Decreto-Lei que regula o funcionamento dos agrupamentos de centros de saúde [2] que as unidades de saúde pública elaboram «informação […] em domínios da saúde pública» [3]. A COVID-19 é, na actualidade, um domínio importantíssimo da saúde pública, pelo que elaborar informação sobre a situação epidemiológica a nível local é uma missão consagrada na lei para as unidades de saúde pública!

Por outro lado, o Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos considera uma das competências do médico de saúde pública «comunicar à população informação relevante em saúde», incluindo «informação respeitante ao curso de fenómenos de saúde que possam fazer perigar a saúde da população» [4]. Mais uma vez, parece-me claro como água que a COVID-19 é um fenómeno de saúde capaz de fazer perigar a saúde da população e que comunicar informação sobre ela é, até, bastante relevante…

Daí que facilmente se conclui que as unidades de saúde pública têm a obrigação ética, deontológica e legal de divulgar informação à comunidade que servem, sobre a evolução do surto de COVID-19 nessa mesma comunidade. Isto é um ponto assente.

Ou devia ser, porque a Ministra da Saúde entendeu que não era bem assim e bloqueou a produção de informação por todos os serviços de saúde pública, para além da Direcção-Geral da Saúde…

A justificação foi dupla. Por um lado, o receio de que os dados divulgados a nível local possam não bater certo com os dados divulgados a nível nacional e, por causa disso, gerar confusão nas pessoas — ou, pior, teorias da conspiração, de que nos andam a esconder coisas. Por outro lado, a possibilidade de se estar a violar o segredo estatístico.

Vamos por partes. Dados que não batem certo podem ter várias causas, para além da conspiração das autoridades. Numa ditadura, tendo a desconfiar dos dados oficiais, mas, numa democracia como a portuguesa, nem por isso. É certo que Portugal é um país pouco transparente [5], mas disso já falaremos em detalhe para a semana. Para já, o que nos interessa é que essa falta de transparência tem que ver com a falta de dados, não propriamente com a sua manipulação. Portanto, nada havendo que ocultar ou manipular, a solução para dados que não batem certo é relativamente simples: explicar às pessoas por que isso pode acontecer — e, diria mesmo, é quase inevitável que aconteça. Basta, por exemplo, que a DGS divulgue a informação ao meio-dia e uma unidade de saúde pública divulgue a sua informação local às cinco da tarde. É bem possível que, entre o meio-dia e as cinco, surja mais um caso confirmado, ou morra mais uma pessoa; e está feito: os números duma e doutra já não batem certo. Outro exemplo: a DGS está em Lisboa e a única maneira de saber as moradas das pessoas que desenvolvem COVID-19, para dizer se os casos foram em Faro ou Bragança, é através do Registo Nacional de Utentes [6]; registo esse que nem sempre está correcto, porque as pessoas mudam de casa e esquecem-se de ir ao centro de saúde actualizar a morada. Já a unidade de saúde pública tem de contactar telefonicamente a pessoa doente, para gerir a situação, identificar os contactos que vão ter de ficar em quarentena, etc. — e, se a morada não estiver certa, corrige-a na sua base de dados, mas nem sempre essa informação chega à DGS. Há mais razões, como, por exemplo, eventuais diferenças nas definições de caso utilizadas. Mas acho que não preciso de entrar em mais detalhes, para se perceber por que não é de surpreender que haja discrepâncias nos dados e por que isso não há-de ser nem uma tragédia, nem motivo para que não se possa divulgar informação localmente. Se a DGS acha que estas discrepâncias são um problema, que corrija as suas causas. Por exemplo, relativamente às moradas, que altere o sistema de informação, de modo que uma alteração introduzida numa plataforma, por exemplo, de vigilância epidemiológica, seja automaticamente replicada no Registo Nacional de Utentes.

Mais: voltamos à organização dos serviços por níveis, de que falei na semana passada [1]. Talvez a solução seja muito simples: a Lisboa o que é do País, a Bragança e a Faro o que é de Bragança e Faro! Ou seja: se a DGS é um órgão nacional, que divulgue informação nacional e deixe a divulgação de informação regional para os departamentos de saúde pública das administrações regionais de saúde e a divulgação de informação local para as unidades de saúde pública. No máximo, por uma questão de equidade (para que todos tenham acesso ao mesmo nível de informação), a DGS que elabore uma norma para reger essa divulgação: que indicadores divulgar, com que nível de detalhe geográfico, etc.

Sobre o segredo estatístico, duas palavras: muita ignorância. Nos termos da lei [7], o segredo estatístico visa salvaguardar a privacidade dos cidadãos e garantir a confiança no Sistema Estatístico Nacional. Se não existisse segredo estatístico, as pessoas e as entidades teriam grandes reticências em ceder os seus dados, para fins estatísticos, pois não saberiam se eles não acabariam a ser usados contra si. Ou talvez não tivessem assim tanta dificuldade, tendo em conta que não se importam de fazer isso mesmo no Facebook

Mas vamos ao que interessa: o que é, afinal, o segredo estatístico? Novamente, a lei diz que «todos os dados estatísticos individuais recolhidos pelas autoridades estatísticas […] não podem ser divulgados de modo a que permitam a identificação directa ou indirecta das pessoas singulares e colectivas a que respeitam». Trocando por miúdos: numa freguesia com duzentos habitantes, publicar um relatório que identifique o único caso confirmado por idade, sexo e profissão, provavelmente, viola o segredo estatístico: em duzentas pessoas, é provável que só haja uma mulher de trinta anos professora de Português. Portanto, é fácil perceber que a Dr.ª Mariana (que, ainda por cima, já ninguém vê sair à rua há uma semana) está com COVID-19. Já publicar um boletim que diz que, numa freguesia com quarenta mil habitantes, há cinquenta casos confirmados, dificilmente permite a identificação de quem são esses cinquenta infelizes…

Tudo isto para dizer o quê? Que regras como: «não se pode publicar informação em concelhos onde haja menos de três casos» só revelam um total desconhecimento do que é e para que serve o segredo estatístico. Porque, mesmo com quatro casos, é possível violar o segredo estatístico, ao passo que, noutras situações, a publicação de informação sobre um único caso o não viola.

A Ministra voltou atrás: deu o dito por não dito. Fez bem.

E eu por aqui me fico, pois já falei demais!…

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Perspectivas em Saúde

A COVID-19 matou a descentralização? — parte I

Por Gustavo Martins-Coelho


Eu diria, sem grande medo de ser refutado, que é nas alturas de crise que mais necessário se torna comunicar — e comunicar bem [1]. É importantíssimo informar, porque uma comunidade bem informada está melhor preparada para responder com sucesso aos desafios que se lhe colocam. É importante educar, para dar às pessoas as ferramentas para lidarem da melhor forma possível com a situação. E é fundamental tranquilizar, porque o pânico pode agravar imenso as dificuldades e pode até gerar dificuldades que não existiriam, não fora esse mesmo pânico. Aliás, muitas vezes, o que provoca o pânico não são as más notícias per se, são as mensagens erradas ou contraditórias das autoridades [1].

Mas a verdade é que já dizia Frei Tomás: olha para o que ele diz, mas não para o que ele faz. E eu tenho descurado um bocadinho este canal de comunicação. As solicitações vão sendo tantas, da parte das entidades de saúde, municipais, policiais, e da população em geral, que preparar mais uma crónica vai ficando eternamente adiado.

Feito que está o mea culpa, espero estar perdoado; e vamos então a isso!

Há várias coisas de que gostaria de falar, mas, como o tempo não dá para tudo, uma pessoa tem de estabelecer prioridades e parece-me particularmente importante, actualmente, falar sobre aquilo que tem sido a relação entre as autoridades centrais — entenda-se a Ministra da Saúde e a Direcção-Geral da saúde — e as autoridades locais — concretamente, as unidades de saúde pública e os delegados de saúde locais. Parece-me importante, porque desta relação pode depender, em grande medida, o sucesso da nossa luta contra a COVID-19.

O sistema português das autoridades de saúde está, na minha opinião, bem desenhado. A lei estabelece três níveis de exercício de funções: o nível nacional, o nível regional e o nível local [2]. Isto porquê? Porque é entendido que há coisas que têm de ser iguais para todos e, portanto, são definidas a nível nacional; há coisas que são mais específicas duma região do que doutra e, portanto, são da competência das autoridades regionais; e há coisas que são tão específicas, ou representam fenómenos tão localizados, que precisam duma acção de proximidade, por parte de delegados de saúde sedeados a nível local. Parece-me equilibrado.

Da mesma forma, estes três níveis funcionam em consonância uns com os outros. As autoridades de saúde nacionais produzem normas e orientações, que as autoridades regionais adaptam e expandem para as suas regiões, e as autoridades de saúde locais aplicam-nas, da forma que entendem mais adequada à sua realidade local. Além disso, existe controlo dumas autoridades por parte das outras. Das decisões das autoridades de saúde locais e regionais, cabe recurso para a autoridade de saúde nacional; e esta, por sua vez, depende directamente da ministra da saúde [2]. As autoridades de saúde não andam, portanto, em roda livre, nem agem a seu bel-prazer.

No entanto, no final do mês passado, um parecer da Provedoria de Justiça veio mudar este estado de coisas. Basicamente, a Provedora disse que considerava que obrigar as pessoas que fossem de áreas com transmissão comunitária activa de COVID-19 para áreas livres de COVID-19, ou perto disso, a ficarem catorze dias de quarentena era «desproporcionado e desnecessário».

Eu discordo em absoluto, mas reconheço que a Senhora Provedora está no seu direito de, não só ser dessa opinião, mas também de a manifestar em sede própria.

Porém, se pensarmos em como o sistema das autoridades de saúde está montado, então seria de esperar que o parecer da Provedora de Justiça seguisse a tramitação prevista na lei [2] para os recursos hierárquicos das decisões das autoridades de saúde [3]. Ou seja: as autoridades de saúde locais e regionais, contra as quais se pronunciou a Provedora de Justiça, deveriam ter sido ouvidas, antes de que a Directora-Geral da Saúde emitisse a sua decisão final.

Nada disso aconteceu. As autoridades de saúde regionais e locais não foram tidas nem achadas e viram-se confrontadas, de surpresa, com duas decisões, uma da Ministra e outra da Directora-Geral da Saúde. A Directora-Geral revogou as quarentenas que tinham sido determinadas pelas autoridades de saúde locais e regionais e a Ministra da Saúde criou um mecanismo de visto prévio, para a imposição futura de medidas semelhantes, que, na prática, bloqueia o normal funcionamento das autoridades de saúde.

Ou seja, quando mais precisávamos de descentralização, passámos dum modelo bem estruturado, em que diferentes níveis de acção das autoridades de saúde respondem a problemas de diferente magnitude e abrangência, para um modelo centralizado, em que Lisboa decide tudo o que pode e não pode ser feito, como se o País não fosse heterogéneo, como se o número de casos fosse igual em todo o território, como se o número de idosos em risco fosse igual em todo o território, e como se as soluções que funcionam num sítio tivessem de, por magia, funcionar em todos os sítios.

Mais: a Ministra da Saúde passou um atestado de absoluta incompetência a todas as autoridades de saúde. De repente, apesar dos nossos onze anos de formação (sem contar a escola até ao Secundário) e sabe-se lá mais quantos anos de experiência profissional a lidar com outras situações de surto (situações menos intensas do que esta, mas que requerem a aplicação de ferramentas de combate semelhantes), de repente, somos todos incapazes de tomar uma decisão sozinhos e temos de ir pedir autorização à Senhora Ministra, que nem profissional de saúde é [4, 5]!

Cometemos erros? Todos cometemos. Alguns de nós estarão aquém do que seria desejável, em termos de competência e preparação? Admito que sim. Mas, então, separemos o trigo do joio, peçamos responsabilidades e deixemos o sistema funcionar. Não vamos agora assumir que somos todos burros, até prova em contrário!…

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Editorial

Um novo canal de comunicação…

Por Gustavo Martins-Coelho


Agora que já tive os meus dez minutos de fama [1], tomei-lhe o gosto e quero mais…

Nah, estou a brincar! Esta era uma ideia que já vinha amadurecendo há algum tempo. Numa altura em que todo o bicho-careta vomita alarvidades no seu canal de Youtube, ou se acha videógrafo no Instagram, ou partilha umas patacoadas de duvidoso interesse no Facebook, eu pensei com os meus botões que, já que não sou totalmente desarticulado no discurso, nem as minhas ideias são totalmente desprovidas de sentido, não poderia fazer pior figura do que certos figurões, se me dedicasse a mandar uns bitaites na Internet.

Já uma vez escrevi que existe um tempo certo para as ideias surgirem, amadurecerem e acontecerem [2]. Parece-me que não poderia haver tempo mais certo para esta ideia acontecer e é por isso que, daqui para a frente, me vou lançar numa nova aventura, que é a publicação de vídeos.

Continuo a reconhecer a enorme importância da palavra escrita; e é por isso que a Rua da Constituição irá conter a transcrição daquilo que digo. Mais não seja, porque só por escrito se podem fazer hiperligações. Quer dizer, o Youtube permite sobrepor ligações ao vídeo, mas, francamente, é uma coisa que acho esteticamente obtusa e que me deixa incomodado, sempre que acontece, num vídeo que estou a ver. Portanto, quem quiser conhecer os tópicos relacionados com o que vou dizendo, as alusões que faço, as minhas referências, terá de continuar a ler-me.

Mas, para quem não tiver tempo para isso e preferir ouvir, ou para quem for simplesmente preguiçoso, porque também é digno de respeito, terá doravante este novo canal de comunicação.

Não vai ser uma coisa muito elaborada. Nota-se, aliás, pela qualidade deste vídeo: um telemóvel para filmar, a parede da cozinha por cenário, um software gratuito [3] para editar e está feito! Nem eu quero que seja mais do que isso: para mim, o conteúdo continua a ser mais importante do que a forma. Se houver, pelo menos, uma pessoa que me veja e oiça e chegue ao fim do vídeo com o sentimento de que as suas ideias já não são exactamente iguais às que tinha, antes da sua passagem por aqui, então já valeu a pena!

A aventura começa agora…

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O Muro das Lamentações

Os meus dez minutos de fama

Reza a lenda que Andy Warhol disse, na década de 1960, que «um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama».

Eu não cheguei aos quinze minutos; fiquei-me pelos dez, na entrevista que dei ao Jornal da Meia-Noite, emitido (quem diria) à meia-noite do dia 2 de Abril de 2020.

O tema foi a carta que eu e mais 148 colegas enviámos à Provedora de Justiça, a propósito do parecer que ela emitiu sobre as nossas decisões em matéria de isolamento profiláctico colectivo obrigatório, parecer esse que culminou no efectivo bloqueio das nossas acções enquanto autoridades de saúde.

Aos eventuais interessados e para memória futura, aqui ficam os meus dez minutos de fama…

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Editorial

O blog é pt!

Por Gustavo Martins-Coelho


Esta é uma informação rápida, mas extremamente importante, para os leitores, particularmente os mais assíduos: este blogue cansou-se de ser .blog e vai passar a ser .pt.

A partir do dia 1 de Março, desaparece o endereço ruadaconstituicao.blog e nasce a ruadaconstituicao.pt. O conteúdo é o mesmo, o endereço é que é diferente.

Com o tempo, talvez outras coisas mudem também, mas ainda não posso prometer.