Categorias
Perspectivas em Saúde

Máscaras: sim ou não?

Por Gustavo Martins-Coelho



Já mais do que uma pessoa me tem perguntado se eu acho que devamos usar máscaras, para nos protegermos da COVID-19.

A Direcção-Geral da Saúde disse inicialmente que não, mas, entretanto, no início deste mês, abriu a possibilidade de outras pessoas, além dos profissionais de saúde, usarem máscaras cirúrgicas fora dos serviços de saúde [1]. Ainda assim, a dúvida persiste, inclusivamente em relação às máscaras de pano ou outros tecidos, feitas pelo próprio ou compradas. Devem usar-se ou não?

Vamos por partes! Primeiro: as máscaras cirúrgicas são úteis ou não, afinal? A DGS andou a enganar-nos, no início, quando dizia para não usarmos?

Em teoria, sim; na prática, não; por várias razões.

A primeira razão é que não havia máscaras para todos, pelo que era preferível deixá-las para quem realmente precisa, em vez de as açambarcarmos nós, que podemos passar sem elas. E quem realmente precisa? Profissionais de saúde; pessoas com sintomas de infecção respiratória, para não passarem aos outros (mas isto deveria ser uma precaução em todas as épocas de gripe e não só agora que há COVID-19); e doentes: hemodialisados, doentes oncológicos, imunodeficientes, doentes a fazer medicamentos biológicos, etc.

A segunda razão é que, com a máscara, uma pessoa sente-se segura e esquece-se de todas as outras precauções, que são tão ou mais eficazes. Mas já vou falar um pouco mais disto.

Entretanto, para concluir a minha ideia, a terceira razão é que a máscara requer cuidados especiais a pôr, (sobretudo) a tirar e mesmo saber quando trocar; e a verdade é que, se até os profissionais de saúde cometem erros, às vezes, imaginemos agora a população geral! Arriscávamo-nos a que fosse pior a emenda do que o soneto e a acabar tudo contagiado pela própria máscara, ao usá-la mal.

Agora, sobre a questão da segurança e do cumprimento das outras medidas preventivas. Os estudos indicam que as máscaras cirúrgicas filtram cerca de 70% das partículas. Portanto, há coisas que conseguem passar. Outros tipos de máscaras, como as FFP2, filtram 99%. Mas são mais caras e não há para todos; portanto, reservam-se para os profissionais de saúde em maior risco.

Ficamos então pelas cirúrgicas. Temos mais capacidade de produção de máscaras cirúrgicas do que FFP2, mas, mesmo assim, não chega para a população toda. Então, reservamo-las para os grupos prioritários que eu já referi. Se sobrarem, não há mal em outras pessoas usarem também. Mas, por favor, lembre-se, de cada vez que usar uma máscara cirúrgica, de que ela pode estar a fazer falta a alguém que precise mais dela.

Sobram as máscaras caseiras, feitas de pano. Os estudos indicam que filtram 30–40% das partículas. Por comparação, lavar as mãos reduz a probabilidade de contágio em 70%, tossir ou espirrar para o braço outros 70% e distanciamento social 60% [2]. Portanto, estas medidas gerais são tão eficazes como as máscaras cirúrgicas e mais eficazes do que as máscaras de pano.

Daí que a conclusão a tirar seja esta: se for uma das pessoas que referi antes (doente com COVID-19 ou seu cuidador, ou outro doente com a imunidade em baixo), use máscara cirúrgica. Se não for uma destas pessoas, deixe a máscara cirúrgica para quem dela mais precisa e use uma máscara de pano. Máscara FFP2 é, em qualquer caso, um exagero, se não for profissional de saúde.

Mas, com ou sem máscara, não se esqueça de que lavar as mãos, não se esqueça de tossir ou espirrar para o braço e não se esqueça de cumprir o distanciamento social, porque isto protege tanto ou mais e é absolutamente fundamental não descurar.