Categorias
Perspectivas em Saúde

Máscaras: sim ou não?

Por Gustavo Martins-Coelho



Já mais do que uma pessoa me tem perguntado se eu acho que devamos usar máscaras, para nos protegermos da COVID-19.

A Direcção-Geral da Saúde disse inicialmente que não, mas, entretanto, no início deste mês, abriu a possibilidade de outras pessoas, além dos profissionais de saúde, usarem máscaras cirúrgicas fora dos serviços de saúde [1]. Ainda assim, a dúvida persiste, inclusivamente em relação às máscaras de pano ou outros tecidos, feitas pelo próprio ou compradas. Devem usar-se ou não?

Vamos por partes! Primeiro: as máscaras cirúrgicas são úteis ou não, afinal? A DGS andou a enganar-nos, no início, quando dizia para não usarmos?

Em teoria, sim; na prática, não; por várias razões.

A primeira razão é que não havia máscaras para todos, pelo que era preferível deixá-las para quem realmente precisa, em vez de as açambarcarmos nós, que podemos passar sem elas. E quem realmente precisa? Profissionais de saúde; pessoas com sintomas de infecção respiratória, para não passarem aos outros (mas isto deveria ser uma precaução em todas as épocas de gripe e não só agora que há COVID-19); e doentes: hemodialisados, doentes oncológicos, imunodeficientes, doentes a fazer medicamentos biológicos, etc.

A segunda razão é que, com a máscara, uma pessoa sente-se segura e esquece-se de todas as outras precauções, que são tão ou mais eficazes. Mas já vou falar um pouco mais disto.

Entretanto, para concluir a minha ideia, a terceira razão é que a máscara requer cuidados especiais a pôr, (sobretudo) a tirar e mesmo saber quando trocar; e a verdade é que, se até os profissionais de saúde cometem erros, às vezes, imaginemos agora a população geral! Arriscávamo-nos a que fosse pior a emenda do que o soneto e a acabar tudo contagiado pela própria máscara, ao usá-la mal.

Agora, sobre a questão da segurança e do cumprimento das outras medidas preventivas. Os estudos indicam que as máscaras cirúrgicas filtram cerca de 70% das partículas. Portanto, há coisas que conseguem passar. Outros tipos de máscaras, como as FFP2, filtram 99%. Mas são mais caras e não há para todos; portanto, reservam-se para os profissionais de saúde em maior risco.

Ficamos então pelas cirúrgicas. Temos mais capacidade de produção de máscaras cirúrgicas do que FFP2, mas, mesmo assim, não chega para a população toda. Então, reservamo-las para os grupos prioritários que eu já referi. Se sobrarem, não há mal em outras pessoas usarem também. Mas, por favor, lembre-se, de cada vez que usar uma máscara cirúrgica, de que ela pode estar a fazer falta a alguém que precise mais dela.

Sobram as máscaras caseiras, feitas de pano. Os estudos indicam que filtram 30–40% das partículas. Por comparação, lavar as mãos reduz a probabilidade de contágio em 70%, tossir ou espirrar para o braço outros 70% e distanciamento social 60% [2]. Portanto, estas medidas gerais são tão eficazes como as máscaras cirúrgicas e mais eficazes do que as máscaras de pano.

Daí que a conclusão a tirar seja esta: se for uma das pessoas que referi antes (doente com COVID-19 ou seu cuidador, ou outro doente com a imunidade em baixo), use máscara cirúrgica. Se não for uma destas pessoas, deixe a máscara cirúrgica para quem dela mais precisa e use uma máscara de pano. Máscara FFP2 é, em qualquer caso, um exagero, se não for profissional de saúde.

Mas, com ou sem máscara, não se esqueça de que lavar as mãos, não se esqueça de tossir ou espirrar para o braço e não se esqueça de cumprir o distanciamento social, porque isto protege tanto ou mais e é absolutamente fundamental não descurar.

Categorias
O Muro das Lamentações

Os meus dez minutos de fama

Reza a lenda que Andy Warhol disse, na década de 1960, que «um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama».

Eu não cheguei aos quinze minutos; fiquei-me pelos dez, na entrevista que dei ao Jornal da Meia-Noite, emitido (quem diria) à meia-noite do dia 2 de Abril de 2020.

O tema foi a carta que eu e mais 148 colegas enviámos à Provedora de Justiça, a propósito do parecer que ela emitiu sobre as nossas decisões em matéria de isolamento profiláctico colectivo obrigatório, parecer esse que culminou no efectivo bloqueio das nossas acções enquanto autoridades de saúde.

Aos eventuais interessados e para memória futura, aqui ficam os meus dez minutos de fama…

Categorias
Perspectivas em Saúde

Sobre o Plano de Melhoria da Resposta do Serviço Nacional de Saúde

Por Gustavo Martins-Coelho


Isto são tantas coisas a acontecer, em matéria de saúde, que uma crónica semanal não basta, para as comentar a todas — e ainda falta tanto para acabar com as medicinas pré-científicas [1]!…

Para esta semana, escolhi um tema que já vem um bocadinho tarde, mas não muito: o Plano de Melhoria da Resposta do Serviço Nacional de Saúde, publicado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 198/2019, de 27 de Dezembro último [2].

Ora, em que consiste este plano? Numa frase, em atirar dinheiro para cima dos problemas: oitocentos milhões de euros para corrigir a sub-orçamentação crónica do SNS; 190 milhões de euros para investimento; quatro milhões de euros para «incentivos institucionais»; cem milhões de euros para «pagamento pelo desempenho»; e 550 milhões de euros para pagamentos em atraso.

A isto, acrescem ainda 8.400 novos profissionais, assim, por junto e atacado. Se serão médicos, enfermeiros ou outra coisa qualquer, há-de se ver…

Ora bem: atirar dinheiro para cima dos problemas, em geral, não os resolve.

Mas vamos por partes! Incentivos institucionais e pagamento pelo desempenho são duas formas de dizer praticamente a mesma coisa. A principal diferença é que os incentivos institucionais se aplicam às unidades de saúde familiar e pagamentos pelo desempenho são na área hospitalar. Ou seja: são quatro milhões para os cuidados de saúde primários e cem milhões para os hospitais… Mais alguém nota aqui um certo desequilíbrio? De resto, estes modelos de financiamento já existem há mais de dez, quinze anos, pelo que, se, até agora, não salvaram o SNS, não sei se é agora que o vão fazer…

Suprir pagamentos em atraso também não é novidade: acontece todos os anos, fruto da sub-orçamentação. Como o orçamento diz uma coisa, mas toda a gente sabe que se vai gastar outra, é preciso depois injectar mais dinheiro, para pagar a despesa que não estava orçamentada, mas aconteceu. Também não é uma medida nova; o que é novo é o aumento da dotação orçamental ab initio, para corrigir a sub-orçamentação. Isto é importante, pois permite devolver a capacidade negocial às entidades do SNS, que lhes é retirada pelas dívidas.

O orçamento anual do SNS é de dez mil milhões de euros, mais coisa, menos coisa. 190 milhões para investimento, vista esta proporção, parece pouco, não?

O resto do Plano de Melhoria da Resposta do SNS chega a ter partes quase enternecedoras. Por exemplo, garantir que todos os hospitais têm contratos de gestão, planos de actividades e orçamento; e fazer depender os prémios de gestão de existirem esses documentos e de não existirem pagamentos em atraso. Isto não será — como dizer — o princípio basilar da gestão?…

Ou outra: promover uma avaliação sistémica da organização do tempo de trabalho dos profissionais do SNS com vista à melhoria do planeamento de necessidades e da eficiência da sua gestão; tudo isto feito — diz a Resolução — pela ministra da saúde. Não deveria a gestão cuidadosa da organização do tempo de trabalho ser uma função dos gestores hospitalares e dos directores executivos dos agrupamentos de centros de saúde?

Além disso, nem uma palavra para a lei geral do trabalho em funções públicas. Na minha experiência pessoal, alguns preceitos aí plasmados são, não raras vezes, um entrave a uma boa organização do tempo de trabalho no SNS (e calculo que noutras áreas da função pública também).

Não se fala, em todo o Plano, das unidades locais de saúde. A coisa mais próxima de que se fala é da avaliação da rede de cuidados hospitalares e da integração de cuidados e partilha de responsabilidade entre os diferentes níveis de prestação de cuidados. Por muito que se partilhem responsabilidades e se integrem cuidados entre centros hospitalares e agrupamentos de centros de saúde, as unidades locais de saúde são o modelo ideal para dar resposta a este desafio. Os norte-americanos, que não são, em geral, exemplo para ninguém em matéria de saúde, já descobriram isto nos anos noventa do século passado!

Também não se fala do papel da saúde pública. Quem tem as ferramentas ideais para, a nível local, regional e nacional, desenhar as soluções mais adequadas para se obter ganhos em saúde, seja através da introdução de medidas preventivas, seja através da optimização dos processos curativos e de reabilitação, são os serviços de saúde pública, através da metodologia do planeamento em saúde.

Categorias
Perspectivas em Saúde

Coronavírus

Por Gustavo Martins-Coelho


Acho que não é surpresa para o leitor que a crónica de hoje seja sobre o coronavírus…

Anda nas bocas do mundo; foi declarado, pela Organização Mundial da Saúde, emergência global de saúde pública [1]; mas, afinal, o que é um coronavírus?

É uma família de vírus que causam doenças respiratórias no ser humano, desde resfriados a pneumonias. O grau de gravidade varia com as características específicas de cada tipo de vírus — há uns mais agressivos do que outros — e com as características da pessoa que adoece — há pessoas mais resistentes à infecção e outras que, por diversos motivos, se encontram mais debilitadas e mais susceptíveis.

Este coronavírus, tal como os restantes da sua família, pode causar sintomas leves, como febre, tosse e falta de ar, mas pode também, em casos mais graves, causar pneumonia grave e até a morte.

Este novo tipo de coronavírus foi identificado pela primeira vez em Janeiro deste ano na China, tendo desencadeado um surto na cidade de Wuhan. Entretanto, já afectou todas as províncias chinesas e espalhou-se por mais 24 países, tendo afectado mais de 17.000 pessoas, das quais 21 na União Europeia (e mais duas no Reino Unido, que já não faz parte; nenhuma em Portugal, felizmente) [2].

A fonte onde teve origem o surto é ainda desconhecida, assim como a via de transmissão, embora se saiba que é possível uma pessoa transmitir a outra. No entanto, desde que se tomem as precauções adequadas — tais como evitar contacto próximo com doentes; lavar frequentemente as mãos e sempre que se assoar, espirrar ou tossir; evitar contacto desprotegido com animais selvagens ou de quinta; tapar o nariz e a boca (com lenço de papel ou com o braço, nunca com as mãos) quando se espirra ou tosse e deitar o lenço no lixo — desde que se tomem estas medidas, o risco é baixo.

Não existe vacina, nem tratamento específico. O tratamento é dirigido aos sinais e sintomas apresentados.

Dito isto, como mensagem final, apenas posso pedir que, se tiver dúvidas ou simplesmente curiosidade sobre esta matéria, se informe e não se deixe desinformar. Só nos últimos três dias, recebi três mensagens, via WhatsAppFacebook, contendo informação errada ou confusa sobre o coronavírus, que apenas contribui para espalhar o pânico e em nada ajuda a resolver o problema. Lembre-se: existe uma Organização Mundial da Saúde [3], existe um Centro Europeu de Controlo de Doenças [4] e existe uma Direcção-Geral da Saúde [5] e todos eles têm páginas com informação sobre o coronavírus [6, 7, 8].

Para terminar, o objecto do dia, hoje, está relacionado com isto dos surtos. É uma aldeia britânica, chamada Eyam.

Nesta aldeia, no Outono de 1665, chegou uma encomenda de tecidos de Londres, cheia de pulgas, que traziam consigo a bactéria da peste bubónica. À medida que as mortes se sucediam, o vigário da igreja da aldeia, William Mompesson, reuniu os aldeões e pediu-lhes que fizessem voluntariamente quarentena, para impedir a infecção de se espalhar. Estes concordaram e mantiveram a sua palavra, ainda que famílias inteiras tenham morrido.

Quando o surto terminou, no final de Novembro desse ano, tinham morrido 260 pessoas em Eyam, incluindo a mulher do vigário. Foi mais de metade da população.

Mas as vidas que eles salvaram, nas aldeias e vilas à volta, cifraram-se certamente na casa dos milhares.

Categorias
Perspectivas em Saúde

Diz que há falta de pediatras

Por Gustavo Martins-Coelho


Diz que há falta de pediatras no Hospital Garcia de Orta [1]. Ou melhor, diz que a Ministra resolveu o problema da falta de pediatras no Garcia de Orta.

Vamos lá ver: as primeiras notícias sobre o encerramento da urgência (e não «urgências», pelo amor de Deus!) — da urgência pediátrica do Hospital Garcia de Orta datam de há precisamente um mês [2]. Seria de esperar que, no espaço de um mês, o Ministério da Saúde tivesse tirado um coelho qualquer da cartola e resolvido o problema, não? Nem que fosse a pagar quinhentos euros à hora a qualquer pediatra que aceitasse fazer umas noites no Hospital Garcia de Orta (lembra-se o leitor de quando a Ministra da Saúde afirmou que pagaria quinhentos euros à hora a um anestesista que aceitasse ficar de serviço na Maternidade Alfredo da Costa [3]? Está quase a fazer um ano, esse despautério…)!

Bem, o Ministério tirou um coelho da cartola, tirou, e a nós deu-nos foi uma chapelada: em vez de encontrar pediatras para a urgência do Garcia de Orta, fechou a urgência por falta de pediatras [1]. É uma forma de resolver o problema, de facto: se não houver hospitais, não há falta de médicos…

O problema nem é só em Almada. Há coisa de um mês, a TVI noticiava também a ausência de pediatra na urgência do Hospital de Chaves, durante a noite [4].

Enfim, estamos a entrever, finalmente, o resultado de trinta anos de péssimas políticas de gestão da população médica deste país. É um absoluto desastre, que, parafraseando o célebre primeiro-ministro que guiou o Reino Unido durante a II Guerra Mundial, só se resolve com muito sangue, suor e lágrimas.

Mas tudo começa com o Governo a perceber exactamente a multiplicidade de causas do problema que tem em mãos — porque, nesta altura do campeonato, o Governo nem isso sabe.

O estado de coisas é tão triste que mais vale passar ao objecto do dia, que, para hoje, é a água engarrafada.

Beber água é uma forma saudável de hidratar o nosso corpo, muito preferível às bebidas açucaradas, nomeadamente os refrigerantes, de que falei na crónica passada [5].

Em Portugal, à semelhança do que se passa noutros países, as vendas de água engarrafada crescem continuamente, apesar de se poder aceder à água da torneira por um preço muito inferior. Em 2010, os Portugueses beberam perto de mil milhões de litros de água engarrafada, quase o dobro do que consumiram dez anos antes [6].

Uma das razões é que as pessoas não confiam na qualidade da água da rede pública. Muitas vezes não gostam do sabor. Mas o sabor, normalmente, significa que está bem desinfectada. Não saber a desinfectante é que preocupante! Aliás, sabe qual é a concentração máxima de desinfectante que pode haver na água? É aquela a partir da qual as pessoas se começam a queixar do sabor, porque, em termos de riscos para a saúde, não há.

O mesmo é verdade para a turvação. As pessoas também desconfiam da água turva, mas, mais uma vez, não há riscos para a saúde, se a água não for cristalinamente transparente…

Aliás, alguém disse — e eu concordo — que é um triste sinal da sociedade em que vivemos, que um bem essencial à vida, como é a água, tenha sido transformado num produto transaccionável e de marca. Mas, filosofia política à parte, as garrafas de água são um problema. Mesmo com a reciclagem, a maior parte das garrafas de água acabam em aterros. O seu fabrico e transporte também deixa uma pegada de carbono considerável.

Portanto, qual o lado bom da garrafa de plástico? Se for reutilizável, é uma forma prática de levar água consigo, para beber sempre que precisar; e, em situações de desastre natural ou comprometimento do fornecimento, a água engarrafada pode ser a única alternativa de acesso a água potável.

Categorias
Perspectivas em Saúde

Os objectos de vários dias (II)

Por Gustavo Martins-Coelho


Esta semana, não vi notícias que justificassem um comentário neste espaço, mas também não me sinto com muita vontade de regressar ao tema das medicinas pré-científicas — ou alternativas, como são comummente chamadas —, apesar do muito que há ainda por dizer. Portanto, como nem sempre me sobra tempo para falar do objecto do dia, hoje vou falar de vários, para compensar.

Continuando na senda alimentar, depois do cachorro quente [1], hoje vamos falar do queijo americano.

O queijo americano é talvez o mais icónico dos alimentos processados e representa, para algumas pessoas, tudo o que há de errado na forma como comemos hoje em dia: demasiados aditivos, sódio escondido, sabor insípido e cor suspeita.

O processamento alimentar foi desenvolvido, na verdade, para tornar a comida mais segura. O leite é pasteurizado para matar organismos patogénicos; e enlatar ou congelar alimentos como a carne, a fruta e os vegetais fá-los durar mais tempo. Mas a indústria alimentar levou o processamento muito para além destes objectivos iniciais. Frequentemente, para prolongar a vida útil dos alimentos, os fabricantes acrescentam-lhes gordura, açúcar e sal e adicionam intensificadores de sabor, emulsificantes e outras substâncias químicas — pegando em alimentos que poderiam ser saudáveis e transformando-os em coisas muito menos amigas da saúde.

De acordo com um estudo de 2016, mais de metade das calorias na dieta norte-americana média provêm dos chamados alimentos ultra-processados: qualquer coisa desde massas instantâneas até bolos feitos a partir de misturas preparadas, passando por carnes processadas. Não conheço dados em relação à Europa e a Portugal, mas sinto alguma curiosidade, sobretudo porque nós tendemos a seguir os norte-americanos, só que com alguns anos de atraso.

Seja como for, estes alimentos ultraprocessados levam ao consumo em excesso e contêm açúcar escondido, pelo que são candidatos muito fortes a responsáveis pela epidemia de obesidade, diabetes e outras complicações de saúde mais graves que se vai observando nos EUA e um pouco por todo o mundo ocidental.

Junte-se a isto as bebidas açucaradas, o segundo objecto do dia para hoje.

A cadeia de lojas 7-Eleven introduziu, nos anos oitenta do século passado, uma linha de bebidas denominada Big Gulp, que, em Português, significa, literalmente, «grande trago», ou «grande golada», e que iniciou a obsessão norte-americana com os copos de refrigerantes do tamanho de baldes. Como de costume, a moda demorou alguns anos a chegar a Portugal, mas, cortesia das cadeias de comida rápida, está cá em força; e agora já não basta beber um copo enorme: pode-se voltar a encher as vezes que se quiser [2].

Refrigerantes em demasia podem dissolver o esmalte dos dentes e fazer ganhar peso de forma exagerada, aumentando o risco de doenças do coração e diabetes.

Em Nova Iorque, o presidente da câmara Michael R. Bloomberg tentou, em 2012, limitar a venda de bebidas com mais de meio litro, mas os tribunais não deixaram. Em 2014, na Califórnia, foi aprovado um imposto sobre as bebidas açucaradas. Cinco meses após a entrada em vigor do imposto, os cidadãos de menores recursos económicos tinham invertido a tendência observada em cidades vizinhas e reduzido o seu consumo de bebidas açucaradas em 21%.

Por cá, um imposto semelhante foi introduzido em 2017, com resultados igualmente positivos [3].

Categorias
Perspectivas em Saúde

O novo ministério da saúde

Por Gustavo Martins-Coelho


Depois da reflexão sobre os resultados eleitorais, impõe-se uma curta reflexão sobre a nova equipa que vai liderar o ministério da saúde [1].

Sobre a ministra da saúde, que se mantém em funções, já expressei as minhas reservas, aquando da sua nomeação [2]. Lembro-me de, na altura, ter recebido comentários sobre a importância de não julgarmos a capacidade política duma pessoa pela sua formação académica. Se não pudermos julgar uma pessoa pelo seu currículo, vamos julgá-la pelo quê, então? Pelo grau de parentesco com o primeiro-ministro? A propósito, ele jurou, tanto quanto ouvi dizer, que não há familiares neste governo [3]

Mas pronto, sobre o currículo da ministra: disse eu que um médico a gerir saúde está certo, mas uma jurista com pós-graduação em administração hospitalar e mestrado em economia da saúde — a formação académica da nossa ministra — é perigoso. O que quero eu dizer com isto? Muito simples: os (poucos) estudos existentes sobre este tema têm demonstrado que as organizações geridas por peritos da área obtêm melhores resultados. Estes estudos têm sido replicados, com os mesmos resultados, em universidades, onde os directores de departamento que são eles mesmos investigadores obtêm maior produção científica; em equipas de basquetebol, em que as que são treinadas por antigos jogadores obtêm melhores resultados na NBA; e mesmo na fórmula 1, onde as equipas lideradas por antigos pilotos também se saem melhor [4]. Um estudo recente mostrou também que ter um patrão que é especialista na área de negócio está associado a maiores níveis de satisfação dos trabalhadores e menor vontade de mudar de emprego [5]. E, nos hospitais dos EUA, aqueles geridos por médicos têm pontuações em matéria de qualidade aproximadamente 25% superiores aos que são geridos por gestores profissionais [4].

Portanto, resumindo e concluindo: se queremos um bom ministro da saúde, é mais provável que o consigamos nomeando um médico do que um jurista que aprendeu economia…

E que dizer duma secretária de Estado que é economista e trabalhava numa empresa do sector energético? Acrescente-se ainda emprego, assuntos sociais e desenvolvimento regional no parlamento europeu; a secretaria geral da Juventude Socialista e a comissão política nacional do PS e da recandidatura de Jorge Sampaio à presidência e temos a perfeita aplicação da expressão idiomática inglesa: jack of all trades, master of none. Não me ocorre equivalente em Português; se o houver, agradeço que me digam. Mas, enfim, está no mesmo pé da ministra.

Sobra o novo secretário de Estado António Lacerda Sales. Tem a vantagem de ser médico; tem a desvantagem de ser ortopedista. Desvantagem, porquê? Porque há uma especialidade mais qualificada do que a ortopedia para planear, gerir e monitorizar sistemas de saúde e definir políticas de saúde: chama-se saúde pública [6, 7]. Mas a verdade é que o ministro que antecedeu Marta Temido era médico de saúde pública e deu no que deu [8], de modo que vamos dar o benefício da dúvida ao ortopedista…

Falta então falar no objecto do dia; hoje, o cachorro quente.

Em primeiro lugar, porque não é um alimento particularmente saudável [9]. Mas, como muitas vezes já tem acontecido neste espaço [10], quero destacar uma outra relação inesperada entre cachorros quentes e saúde.

Quando uma criança se engasga, o culpado pode bem ser um cachorro quente. A Escola Bloomberg de Saúde Pública do Hospital Johns Hopkins, nos EUA, observou que um cachorro quente é um perigo de asfixia, para bebés e crianças pequenas, maior do que uvas, nozes e doces. A razão: porque o seu tamanho, forma e consistência tornam um pedaço de cachorro quente a rolha perfeita para a garganta duma criança.

Já em 2010, os pediatras norte-americanos propuseram a inclusão de avisos nos rótulos dos alimentos relativos ao perigo de engasgamento e asfixia. Outra ideia surgida foi que os vendedores alterem as suas receitas, de modo que os cachorros quentes se decomponham em pedacinhos mais pequenos quando uma criança os trinca.

Categorias
Perspectivas em Saúde

Reflexões sobre os resultados eleitorais

Por Gustavo Martins-Coelho


Este Domingo, foi dia de eleições. Apesar deste espaço [1] se destinar a falar de saúde, não podia deixar de dizer duas palavras sobre os resultados.

Na verdade, nem é «apesar deste espaço ser sobre saúde»: a saúde deve estar presente em todas as políticas [2, 3, 4], pelo que o resultado das eleições tem implicações enormes, não só na política de saúde, mas também na forma como as políticas dos demais sectores influenciam, de forma positiva ou negativa, o estado de saúde da população.

Portanto, por este ser um espaço sobre saúde, não podia deixar de comentar os resultados eleitorais.

Fiquei globalmente satisfeito com os resultados. O modelo «ADSE para todos» proposto pelo CDS foi chumbado pelos eleitores, bem como o «seguro de saúde para todos» proposto pelo Aliança. O que estas duas propostas não dizem é que ADSE e seguro de saúde para todos significa o fim do SNS e, com ele, um aumento da despesa em saúde, sem um concomitante aumento dos níveis de saúde — ou seja, gastar mais dinheiro para atingir os mesmos resultados — e um perigo sempre latente: o da redução da cobertura, quer em termos de pessoas abrangidas (o SNS é para todos, pobres ou ricos, relembro), quer em termos de serviços abrangidos (desde que o PS criou os cheques-dentista e a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, o SNS cobre praticamente todos os cuidados de saúde).

Resumindo e ilustrando o que quero dizer com uma história pessoal: a minha mãe precisou de ser internada. Como tem ADSE, ponderámos um hospital convencionado, mas rapidamente desistimos: o internamento, contas por alto e já contando com as comparticipações da ADSE, ficaria por quase trinta mil euros! Fomos para o SNS, onde as taxas moderadoras se ficaram pelos cinquenta euros, se não me falha a memória.

ADSE ou seguro para todos é isto: trinta mil euros por um internamento. O resto é demagogia.

Fiquei preocupado com a eleição dum deputado da Iniciativa Liberal. Claro que pagar menos impostos é apetitoso. Eu adoraria pagar menos impostos! Mas vamos fazer uma conta simples. Portugal gastou 18,3 mil milhões de euros em saúde, em 2018. Destes, apenas 67% foram financiados pelo Estado; o resto foi pago pelas pessoas ou por seguros privados. Mas peguemos no valor total e dividamo-lo pelo número de pessoas empregadas: dá €3760. Ou seja, garantir um SNS realmente universal, geral e gratuito, como manda a Constituição, custaria a cada trabalhador português, em média, €3760 por ano. Dividindo por catorze — o número de salários e subsídios de férias de Natal auferidos por cada trabalhador —, isto dá cerca de €270 por mês. Ou seja, para manter o SNS a funcionar, cada português teria de descontar €270 do seu ordenado. Tendo em conta que cada trabalhador português aufere, em média, aproximadamente €1.130, seria necessário que cada um descontasse 23% em IRS, só para financiar a despesa em saúde.

Obviamente, estou a simplificar: estou a usar valores médios e a assumir uma taxa fixa de imposto, igual para todos. Na realidade, há escalões, há outros impostos além do IRS, e muita fiscalidade em que não sou especialista. Mas dá para ficar com a ideia geral do que quero dizer: o que a Iniciativa Liberal propõe, ao dizer «vamos baixar impostos» é o fim do SNS, ou pelo menos a sua redução à menor expressão possível. Isto para falar só na área da saúde. Contas semelhantes poderiam ser feitas para o resto da despesa pública.

Agora, pergunto: quantos de nós gostariam realmente de ser ver livres do SNS? E quantos dos que votaram na Iniciativa Liberal fizeram estas contas?…

Sobra a eleição da deputada do Livre: preocupa-me, porque o Livre parece ter sido tomado de assalto por forças da pior espécie de feminismo [5], daquele exclusivamente dedicado ao delírio antimasculino, autoalimentado pela partilha em círculo fechado de noções quase ridículas de raiva dirigida contra a diferença, de negação da biologia humana e de totalitarismo de pensamento; um ódio ao homem branco travestido de pseudofeminismo de terceira vaga, que perdeu o interesse pelo diálogo, perdeu o foco na persuasão como arma política e, em última instância, fruto dessa perda, tornou-se estéril e inútil na promoção da mudança social que diz pretender realizar. Esperemos que a deputada eleita pelo Livre seja realmente feminista intersectorial: ainda haverá esperança, se for realmente o caso.

E que tem o feminismo que ver com saúde? Muito, conforme já expliquei aqui no que diz respeito às doenças infecciosas [6] e ao consumo de tabaco [7].

Categorias
Perspectivas em Saúde

A frigideira, o PFOA e a saúde

Por Gustavo Martins-Coelho


Na última semana, o objecto do dia foi o fogão [1]. Esta semana, continuamos na cozinha: o objecto do dia é a frigideira.

Falar da importância da frigideira na saúde pública implica dizer uma palavra difícil: ácido perfluorooctanóico, normalmente abreviado para a sua sigla: PFOA. O PFOA é uma substância usada para fabricar materiais anti-aderentes e resistentes às manchas.

Há pouco mais duma década, as frigideiras com Teflon dominavam o mercado dos utensílios de cozinha. O problema do Teflon e doutros materiais fabricados com PFOA e outras substâncias sintéticas, tais como, por exemplo, os sacos de pipocas de microondas e caixas de piza, entre outros produtos, é a libertação para o meio ambiente de substâncias potencialmente prejudiciais, durante o seu processo de fabrico.

Mas isto é muito mais do que uma questão de protecção ambiental. Aliás, um dos nossos problemas, enquanto sociedade humana, é a nossa visão encaixotada das coisas: tendemos a dividir o mundo em duas caixas — numa caixa, metemos a natureza; na outra, metemos o ser humano e tudo o que ele produz. Ora, os seres humanos fazem parte da natureza; e os produtos que fabricamos fazem igualmente parte da natureza. Não há, filosoficamente — nem sequer quimicamente, a bem dizer — uma diferença fundamental entre uma barragem de cimento feita por uma empresa de construção civil e uma represa de madeira feita por um castor; nem entre uma cidade humana e uma colmeia; nem entre uma mina para extracção dum qualquer minério e um formigueiro subterrâneo; nem entre a agricultura e o cultivo de fungos por parte das formigas; nem entre o Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo, e uma torre de térmitas (que, diga-se de passagem, equivale a mais de dois Burj Khalifas empilhados, proporcionalmente à dimensão dos seres que a constroem) — só para dar um par de exemplos do que quero dizer.

De igual forma, dizer que a selecção natural não actua sobre a espécie humana é, não só arrogante, mas também falso. A selecção natural actua através dum equilíbrio entre características do indivíduo e características do ambiente. Se o ambiente muda, indivíduos com diferentes características passam a ser seleccionados. Por outras palavras: as alterações climáticas são meramente uma alteração do ambiente em que estamos inseridos, que pode condicionar uma alteração nas características que conferem maior adaptação. As características da nossa espécie podem não estar adaptadas ao que aí vem e, portanto, a extinção da espécie humana é uma possibilidade real, fruto da selecção natural.

Mas estou a divagar! O que queria dizer é que as substâncias que são libertadas para o meio ambiente durante a síntese do ácido perfluorooctanóico e o fabrico dos produtos que o incorporam como matéria-prima acabam por voltar a nós, à nossa corrente sanguínea. Um estudo de 2007 encontrou substâncias da família do PFOA presentes em mais de 98% das mais de 2.000 amostras de sangue humano analisadas. O efeito da presença destas substâncias no sangue sobre a saúde das pessoas ainda não está estudado.

Em 2006, oito fabricantes concordaram em eliminar o PFOA do processo de fabrico de frigideiras anti-aderentes até 2015. Mas os problemas com o PFOA persistem e é por isso que, nos EUA, a Agência de Protecção Ambiental avisou as entidades gestoras de redes de abastecimento de água de que deveriam analisar o nível de PFOA na água que fornecem.

As frigideiras de Teflon são um de muitos exemplos de como a revolução trazida pelas substâncias sintéticas teve consequências inesperadas.

Dito isto, já pouco tempo sobra para outros temas, pelo que é talvez preferível ficar por aqui, para não atabalhoar, e, para a semana, retomamos um tópico que se tem mostrado inesgotável, por estas paragens: o que podem (ou mais ou que não podem) as medicinas ditas alternativas, mas que eu prefiro chamar pré-científicas, fazer por si.

 

Categorias
Perspectivas em Saúde

Medicina tradicional chinesa e outras variantes (parte IX)

Por Gustavo Martins-Coelho


Às vezes, quando estou a investigar o assunto das medicinas pré-científicas [1], para neste espaço apresentar o que se vai sabendo sobre o mesmo (e, na maior parte dos casos, demonstrar a sua inutilidade como prática médica), dá-me alguma vontade de rir. Foi o caso, por exemplo, quando li um artigo sobre a utilização da inteligência artificial para diagnosticar doenças através da língua [2]. Então é assim: há doenças que se podem diagnosticar através da língua — sobretudo as doenças da língua! Mas não é disso que estes investigadores falam: o que eles pretendem é pôr computadores a diagnosticarem doenças que nada têm que ver com o aparelho digestivo, nem causam quaisquer sintomas linguais, através da língua, em substituição de pessoas que, actualmente, julgam poder fazer isso. Chega a ser cómico!…

Outras vezes, fico indignado. Foi o caso, por exemplo, quando analisei a questão do mercúrio nos preparados tradicionais chineses [3]. Outra coisa que me suscita indignação é a sulfatação que é feita no processo de fabrico desses preparados tradicionais chineses, que resulta muitas vezes na síntese de substâncias altamente tóxicas [4], como o dióxido de enxofre [5], que alteram as propriedades do produto e [4] podem fazer muito mal ao fígado [6, 7], aos rins e a outros órgãos [8]. Indignação, porquê? Porque, mais uma vez, andam uns a dizer que a agroindústria usa produtos químicos muito maus para as pessoas (tipo herbicidas à base de enxofre) e temos de comer alimentos biológicos, livres dessas coisas; e daí extraem a teoria de que o que é natural é que é bom (como se uma cobra venenosa, lá porque vem da natureza, fosse boa para a saúde…) e vamos todos usar produtos medicinais das medicinas tradicionais e alternativas e tudo isso que não vem dos laboratórios, mas que leva com tanto ou mais enxofre do que os pecaminosos alimentos produzidos industrialmente… Como eu dizia na crónica passada [3], as pessoas têm direito a ser estúpidas. Mas sejam coerentes na estupidez que escolherem como modo de vida!

De resto, o habitual: os estudos existentes são insuficientes para demonstrar a eficácia da medicina tradicional chinesa na prevenção das doenças cardiovasculares [9, 10] e na púrpura de Henoch-Schönlein (uma doença auto-imune das crianças) [11], sobretudo porque não têm qualidade metodológica suficiente para poderem afirmar o que pretendem afirmar. Onde há boas notícias é nos exercícios tradicionais chineses (tais como o tai-chi [12]). Provavelmente, o que os estudos neste campo significam é que qualquer tipo de exercício, chinês ou não, é melhor para a saúde do que ficar sentado no sofá. Nada de novo…

É tempo agora para o objecto do dia. Para hoje, escolhi o fogão.

Há coisa de dois meses, falei do frigorífico [7], do seu papel na conservação dos alimentos e, por essa via, na prevenção de doenças causadas pela deterioração daqueles. Mas não basta ter comida bem conservada; também é preciso cuidado na sua preparação [13].

Quase metade da população mundial cozinha os alimentos usando fogueiras a lenha, carvão vegetal ou carvão mineral. Os fogões a lenha tradicionais são usados geralmente por mulheres e crianças nos países em desenvolvimento e, tal como as fogueiras, expõem as pessoas a fumos com altas concentrações de poluentes.

A Organização Mundial da Saúde estima que morrem prematuramente 4,3 milhões de pessoas por ano, por causa de doenças relacionadas com a poluição do ar das suas habitações causada pelos fogões e pelas fogueiras usados para cozinhar. As mulheres grávidas que respiram os fumos tóxicos têm maior probabilidade de terem bebés com baixo peso ao nascer. O fumo dos fogões a lenha também causa asma na infância, facilita a aquisição de pneumonias e aumenta o risco de cancro e outras doenças dos pulmões.

A substituição destas práticas por fogões modernos, mais limpos, amigos do ambiente e seguros, ajuda a salvar vidas.