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O Muro das Lamentações

A evolução da dívida pública portuguesa ou «de quem é a culpa afinal?»

Por Gustavo Martins-Coelho

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. O Duarte Marques [1], um jotinha [2] que diz coisas no Parlamento [3], decidiu que era hora de pôr a sabedoria popular ao serviço da política e publicou a seguinte imagem na sua página do Facebook:

Num passe de mágica e com dados provenientes duma fonte insuspeita [4], ficamos a saber que a culpa é do PS, que perdeu o controlo da dívida pública a partir de 2000, tendo sido sempre a subir a partir daí. Mas será que é mesmo assim? Peguei nos mesmos dados [5] e tentei desenhar o mesmo gráfico, mas obtive um traçado diferente:

Este traçado, baseado nos números que retirei da Pordata, bate certo (há pequenas diferenças, provavelmente devidas a variações metodológicas, mas que são negligenciáveis) tanto com dados equivalentes do Banco de Portugal [6] como com os da OCDE [7]. Só não batem, estranhamente, com a linha do Duarte Marques… Afinal, parece que a dívida era cerca de vinte pontos mais alta no final do último mandato de Cavaco Silva do que o Duarte Marques afirma e não foi sempre a subir a partir de 2000, tendo estabilizado uns anos durante o consulado do Sócrates. Alguém se enganou no copiar-colar!

Posto isto, alarguemos o raciocínio do Duarte Marques às últimas três décadas! Desde 1980, Portugal foi governado alternadamente por dois partidos, o PSD e o PS. Assim sendo, sigamos o esquema de cores do Duarte Marques e desenhemos o gráfico que ilustra a dívida do Estado Português das três últimas décadas (um clique na imagem permite ampliá-la):

Entre 1980 e 1983, Portugal foi governado por uma coligação entre o PSD, o CDS e o PPM, a célebre AD [8]. Como se vê no gráfico, neste período, a dívida pública cresceu de 29% para 44% do PIB, o que representa um aumento de 49,2%. De 1983 a 1985, o famoso Bloco Central [9] esteve à frente dos destinos do País enquanto decorreu a segunda intervenção do FMI, tendo a dívida aumentado em 18,4%, para 52%. Seguiram-se dez anos de cavaquismo [10], durante os quais a dívida cresceu 16,4%, situando-se em 1995 nos 60% do PIB. O regresso do PS ao Governo nesse ano trouxe, durante os anos seguintes, a redução da dívida pública em três pontos percentuais. Entre 2002 e 2005, uma nova coligação entre o PSD e o CDS viu a dívida crescer novamente 16,9%, de modo que, no ano em que José Sócrates assumiu a função de primeiro-ministro, esta se situava nos 66% do PIB. Durante o governo deste, a dívida subiu 55,0%, atingindo, no final de 2011, 102% do PIB. Para terminar, no final do primeiro semestre de 2012, já durante o mandato de Pedro Passos Coelho, a dívida pública situava-se em 111% do PIB.

O campeão das dívidas parece, então, ser José Sócrates. É preciso, no entanto, não esquecer que em 2007 se desencadeou, nos Estados Unidos, aquela que é considerada a pior crise desde a Grande Depressão [11], a qual se reflectiu inevitavelmente em Portugal, nomeadamente na necessidade de nacionalizar o BPN [12] no ano seguinte. Portanto, admitindo que 2008 marcou a extensão da crise a Portugal, parece ser justo analisar a evolução da dívida durante o governo de Sócrates entre 2005 e 2008 separadamente da sua evolução de 2008 para cá. Assim fazendo, verifica-se que, antes da crise, a dívida pública subiu apenas três pontos percentuais, de 66% para 69%, enquanto disparou nos três anos seguintes, tendo aumentado 48,6%.

Para facilitar a comparação da evolução da dívida do Estado Português durante os diversos governos, é necessário calcular a sua a variação anual média. Esse cálculo permite verificar que o único primeiro-ministro que viu a dívida pública diminuir foi António Guterres: durante os seus governos, a dívida diminuiu, em média, 0,75% por ano. De resto, todos os governantes aumentaram a dívida. Mesmo assim, o governo Sócrates pré-crise (de 2005 a 2008) foi aquele que menos fez crescer a dívida desde 1980 (0,45%, em média, por ano). Seguiram-se os governos de Cavaco Silva, com um crescimento anual médio de 1,7% e dinheiro a rodos a entrar, provindo da Europa. Durão Barroso e Santana Lopes (mais este do que aquele) tiveram um aumento anual médio da dívida de 5,36%. Curiosamente, mesmo levando em conta os problemas levantados pela crise mundial iniciada no final da década passada, Sócrates consegue ainda um melhor desempenho da dívida (crescimento médio de 7,78% por ano) do que o Bloco Central (8,83% por ano) e do que a AD de Sá Carneiro e Pinto Balsemão (os verdadeiros campeões da dívida, que cresceu, em média, 14,53% por ano). Mais ainda: o crescimento médio anual da dívida do Estado Português entre 2008 e 2011 (o período em que José Sócrates levou o País pelas águas turbulentas da crise mundial) foi de 11,45%, enquanto, no final de 2012, se as projecções se concretizarem, Passos Coelho terá feito a dívida crescer 10,62%, para 113% do PIB, o que não pode ser considerado um grande progresso.

Recapitulando: entre 1980 e 2008, o único governo que diminuiu a dívida pública era do PS; o governo que menos a fez crescer era do PS; os governos que mais a fizeram crescer eram do PSD, coligado com o CDS e o PPM; de 2008 até ao presente, a evolução da dívida durante o período Sócrates não difere grandemente da do período Passos Coelho.

Além de dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras, o povo também diz que quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras. É pena que Duarte Marques só conheça o primeiro destes dois adágios.

12 comentários a “A evolução da dívida pública portuguesa ou «de quem é a culpa afinal?»”

Obrigado pela sugestão, apesar de não se encontrar entre os meus planos pô-la em prática, por motivos que serão, salvo motivo de força maior, explicados em 23 de Setembro na coluna «Docendo Discimus» deste blogue. No entanto, se quiser o caro leitor dedicar-se a esse exercício, terei todo o gosto em publicar o resultado na «Rua da Constituição», numa secção especial para artigos escritos por convidados. Entretanto, pode ler uma actualização dos valores, em percentagem do PIB (ver «pingback» abaixo).

Portugal teve sempre a sua flexibilidade e autonomia financeira o que dava para corrigir actos de indixiplina orçamental , até que em 2002 adere a moeda unica e como tal perdeu essa mesma agilidade tornando-se numa marioneta (pequena economia sem moeda propria inserida numa comunidade aduaneira) , no primeiro mandado depois disso andava tudo as cegas sem saber para que lado opinar, o euro era ou nao uma boa ideia ?, mas depois de alguns anos era visivel que só ficamos a perder com a adesão à moeda unica ( perda de competitivade internacional devido a má escolha nas especializações em sectores de mão de obra barata que o escudo ainda que mal as ia aguentando etc etc etc ) ora tudo isto para dizer que em 2004 se prévia uma profunda recessão e nada melhor do que duplicar a divida para a combater.
Todos eles erraram todos eles mentiram todos eles sao cheios de diplomas (tirando um ou dois) todos eles pensaram que estavam a fazer o melhor , todos eles se esforçaram todos se deixaram corrumpir . todos sao simpaticos e benfeitores .todos querem o mesmo, todos eles continuam e continuarão a governar impunes, todos opinam e ninguem apresenta soluções
enquanto a democracia nao evoluir para o proximo nivel ; nada feito.
enquanto a nossa cultura politica nao evoluir 3 ou 4 niveis : nada feito
Cumprimentos

“Portugal teve sempre a sua flexibilidade e autonomia financeira o que dava para corrigir actos de indixiplina orçamental , até que em 2002 adere a moeda unica e como tal perdeu essa mesma agilidade”
Hahah! corrigir actos de indisciplina finceira punindo o povo com Inflação. Ou seja o Estado Socialista fica na mesma. Não admira que goste da “agilidade”
È sempre bom para a clique política que gosta de “agilidade” desvalorizar os depósitos e prometer aumentos de salários de 10% quando a inflação é o dobro…e repetir.
Não foi o que aconteceu? já por três vezes.
E veja como em todas elas com agilidade ou sem ela apareceu o FMI…

De acordo com o Eurostat, os restantes países da UE não se endividaram tanto como Portugal, à excepção da Grécia e da Irlanda. A dúvida de Portugal subiu 30% de 2008 a 2011, enquanto em Espanha subiu apenas 17%, na Alemanha e na França 15% e na Itália 13% (alguns exemplos), Portanto, ilibar um certo senhor que está neste momento no xilindró, acusado precisamente de ter sacado dinheiro ao Estado, é ser muito “patinho” Ai a culpa é toda da crise internacional: Se assim fosse, não haveria uma disparidade tão grande entre a subida da nossa dívida e a subida da maioria dos países da UE..

Bem respondido Beatriz. Está visto que este blog é algo tendencioso. Era este o blog que era pago pelo Sócrates? Ou será que este também o era e ninguém sabe…

a divida de 1980-1985 foi a pagar contas de 1977-1979
a divida dos anos do cavaco foi porque soares deixou tudo inquibado (o acordo de adesao a CEE previa 30% de desvalorizacao do escudo)
a maioria da divida emitida apos 2001 foi porque as dividas astronomicas dos devaneios herdados de guterres tinham que se pagar de alguma forma
da mesma maneira em 2011/2012 os 80.000 milhoes de dividas vencidaa do estado foram convertidos em divida publica
– CP 4000 milhoes
– refer 12000 milhoes
– ML 4000 milhoes
– tap 1000 milhoes
– jae/ep + scuts 20/30 mil milhoes
– saude etc ….sei la quantos … dividaa com atrasos de 560 dias (aka 2 anos)

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