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O Muro das Lamentações

Sete anos depois, um balanço

Por Gustavo Martins-Coelho

Em quase trinta e nove anos que levamos de democracia em Portugal, houve uma personagem que esteve activamente presente na vida política em dezoito desses anos — um pouco menos de metade. Essa personagem é Aníbal Cavaco Silva [1]. Se se contar os outros cargos políticos que exerceu, além dos mais óbvios — estes a presença no Governo e a Presidência da República — então Cavaco terá estado presente ainda mais extensamente na vida política portuguesa, e tudo isto não sendo político [2]! É obra…

Pelo meio de tabus, negócios de gatos e lebres, poucas dúvidas e nenhuns enganos, muito bolo-rei e algumas vacas felizes, tudo regado com imenso trabalho (apesar das forças de bloqueio) para amealhar umas magras reformas e algum descanso merecido no Pulo do Lobo, Cavaco foi eleito em 2006 para o primeiro mandato na Presidência da República e, nessa altura, escrevi que não ganhou o meu candidato. Aliás, ganhou aquele que se encontrava no fundo da minha lista de preferências, por uma série de razões.

No entanto, estava enganado nessas razões. O principal defeito que lhe apontei, na altura, foi a sua vocação executiva. Das poucas ideias que apresentou, entravam todas no âmbito das competências legislativas e executivas, que não são, nem de longe, nem de perto, as do Presidente da República. Por outro lado, o período pré-eleitoral e a campanha eleitoral foram, vejo hoje, prenunciadores do que aí vinha: Cavaco primou, durante esses meses, pela ausência de comentários e declarações, no geral, que interpretei como fazendo parte duma estratégia para evitar perder votos – afinal, enquanto estava calado não dizia asneiras que pudessem afastar o eleitorado – ou meramente à falta de ideias para Portugal. Verifiquei, pela forma como decorreram e decorrem os mandatos, que se trata mais duma combinação de ambas as hipóteses. Sete anos depois, parece-me ter ficado patente que, em metade das situações com que se depara, o nosso Presidente não sabe o que há-de dizer e, na outra metade, mais valia que não dissesse o que sabe.

Também não era o meu candidato por causa do seu passado. Cavaco vem periodicamente dizer que o País caminha para o abismo, que é preciso travar essa queda enquanto é tempo e que as culpas são da governação passada. Que governação passada?! Ele foi o responsável por um terço da governação passada (de trinta anos de democracia até se tornar Presidente, em dez Cavaco Silva foi Primeiro-Ministro)! Será que não terá um terço da responsabilidade da actual situação do País? Ou mais? Reportemo-nos a 1 de Janeiro de 1986. Portugal passou, a partir desse dia, a ser membro de pleno direito da então Comunidade Económica Europeia. Em primeiro lugar, é de lembrar que as negociações de adesão se iniciaram em 1977, com Mário Soares, e com ele terminaram em 1985, depois de entretanto ter salvo o país da bancarrota através das negociações com o FMI. Contudo, quem usufruiu dos fundos de coesão e da folga económica que o país atravessou graças aos mesmos foram os Governos chefiados por Cavaco Silva, que nem assim conseguiu controlar o défice (mas nessa altura ainda não havia Pacto de Estabilidade e Crescimento para cumprir, pelo que um valor de 9% era aceitável). Hoje, nós continuamos na cauda da Europa. Porquê? Com o dinheiro europeu, Portugal construiu auto-estradas; o resultado foi um País dotado de infra-estruturas rodoviárias que se destinaram, não a escoar os produtos nacionais, mas a facilitar a importação [3]. A responsabilidade da actual crise económica é de Cavaco Silva, na medida em que não apostou na formação quando era tempo disso, o que impediu a competitividade do País. É significativo que, das (actualmente dezanove) empresas do PSI-20 [4], cinco sejam financeiras ou gestoras de participações, quatro do ramo das energias, duas do da construção, três do das telecomunicações e multimédia, duas do da distribuição e só sobrem três que efectivamente produzam alguma coisa que se veja (papel e cimento)! Como se isso não bastasse, a nossa produção continua a apostar em sectores de actividade que requerem mão-de-obra intensiva, no que não temos capacidade de competir com países que pagam salários miseráveis, como a China ou o Leste europeu, e não temos pessoal qualificado para investir nos sectores de actividade onde poderíamos ter oportunidades de criar mais riqueza.

Além das más políticas económicas, Cavaco Silva personifica a decadência da sociedade portuguesa, através da política do betão; das sucessivas reformas da educação, que criaram um sistema onde é preciso um decreto papal para reprovar um aluno, retiraram credibilidade e prestígio aos professores e aumentaram a violência nas escolas; da criação de universidades privadas que, de universidade, só têm mesmo o nome; da diminuição drástica das vagas para Medicina, com a consequente crise tão badalada da falta de médicos; das propaladas e polémicas propinas; das frequentes cargas policiais sobre manifestantes (quem não se lembra dos incidentes na Ponte 25 de Abril?); etc. Portugal é o que é hoje devido aos anos perdidos durante os mandatos de Cavaco Silva.

Porém, Cavaco Silva acha-se o salvador da Pátria, o Messias que tudo sabe, tudo pode, e que chegou para salvar Portugal da crise em que ele o mergulhou. Infelizmente, os Portugueses deixaram-se levar nesta cantiga.

Mas cada povo tem os políticos que merece, porque os políticos emanam dos povos. Não se pode esperar que a classe política seja diferente do resto do povo a que pertence. Antes de serem políticos, são Portugueses e têm mentalidade de Portugueses. Os Portugueses têm em Belém alguém semelhante a si, um Presidente que só sabe dizer que está tudo mal, mesmo quando a culpa é sua, e nada faz para que melhore. Queixam-se [5] do quê?

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