Categorias
Crónicas Altitude

Tango

Por Hélder Oliveira Coelho

Dançou-se um tango — reles, triste e mal tocado!

Se a música é má, o tango é decadente, arrastado, criminoso na índole. A cumplicidade, a técnica, a paixão, a entrega já não existem. Os amantes que se enrolam e, num rasgar lânguido, lascivo e sujo, espalham a podridão de uma relação que já não o é. Vê-se a morte a cada passo e o compasso bolorento faz transpirar a insegurança, o medo, a rigidez de quem já não consegue, quem já não pode entregar-se à paixão, ao ideal. O declínio da Europa vê-se nesta dança que não é, provavelmente nunca foi, propriedade dela.

Em Portugal, morreu o ex-libris do clientelismo. E nem na hora da morte soube ter qualquer dignidade. O tango dos maus músicos não se dança, mas o dos maus amantes não pode ser dançado. Relvas sai. Todavia, com ele não se arrasta o corolário de uma sociedade pop, desprovida de conteúdo, fã de aparências. O primeiro-ministro vê-se sem par. Desengane-se todo aquele que esteja convencido de que a solução para o tormento chuvoso que se vive está em nova corrida eleitoral. Desgraça nossa, o Partido Socialista não se vê Seguro. E o mau tango por malogrados amantes fica por ser dançado.

O desgoverno da oposição confirma que um tango só funciona a dois. Um mau Governo, uma pior oposição. Algo que, pela Cidade Alta, bem conhecemos. A conquista do campo da inércia em que vivemos não acontece apenas por incompetência do Partido Socialista na Autarquia. É fruto do mau tango que se tem dançado. A oposição que não existe. As agendas pessoais de quem nada tem a ver com esta terra. De quem dela fez uso apenas e só para satisfazer os desejos de um ego vil, tirano, quase abjecto. As intenções desprezíveis… que só podem surgir de quem se transcende numa aura abominável. O PSD devia sentir-se miserável por consentir que se faça candidato à liderança da autarquia esse espectro infame e obscuro que há quase vinte anos atormenta a nossa vida política. Resta-me aguardar pela sapiência da minha gente na hora de dizer «não» a este reles velhaco.

O tango mal se escuta. Rasgado por uma voz áspera e rude. O brilho das plumas e das lantejoulas tentava ofuscar a sórdida mistura entre a decadência, a comiseração e a ilusão tosca de que o brilho era natural e seu. O tango não se escutava e a aurora luzente era o reflexo de holofotes piedosos.

Morria Sarita Montiel. Ainda o Ferro se tomava por firme e impoluto. A rigidez que carregava a honestidade e convicções quase obstinadas num caminho… talvez um mau caminho. Confesso a minha limitação na hora de avaliar. O oxigénio que nos faz também nos consome. Oxida-se o ferro. Morre a Baronesa Thatcher. Dizia o Padre António Vieira no sermão do Mandato que «quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor: ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há-de parar, amando.» Aflige-me que não nos conheçamos a nós mesmos; não conheçamos a quem amamos, não conheçamos o amor; não conheçamos onde começa e acaba o caminho a percorrer para um novo paradigma.

Um comentário a “Tango”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *