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O Muro das Lamentações

Carta aberta à Professora Doutora Maria José Cantista e outras epístolas menores

Por Gustavo Martins-Coelho

Onze de Outubro de 2006. Para contextualização, nessa altura houve um curto espaço de tempo em que a distância de casa ao local onde estava a estagiar me permitia ir e vir de bicicleta. Nesse dia onze, estava eu parado no cruzamento, à espera duma brecha no trânsito, quando fui abalroado por um Mercedes cinzento. Enquanto eu desmontava da bicicleta, satisfeito por ainda estar inteiro e pronto a verificar os danos no veículo, a condutora do outro veículo abriu a janela e pediu desculpa, ao que eu repliquei:

— Desculpa!? Vamos é ver se há danos, que o Código da Estrada também se aplica aqui.

Como resposta, obtive o fumo do escape do Mercedes.

Meteu-se com a pessoa errada. No final do dia, fui à Polícia apresentar queixa. O procedimento não é difícil, mas podia ser mais fácil. Primeiro, tem de ser na Divisão de Trânsito. Então não pode um qualquer agente registar a ocorrência na esquadra mais próxima e encaminhá-la para a divisão competente de seguida? Depois da queixa, disseram-me que teria de participar à companhia seguradora da outra viatura, dado que a minha bicicleta não tinha seguro (obviamente); assim fiz.  A seguradora realizou o procedimento habitual: enviou um perito ver a minha bicicleta e escreveu à sua segurada pedindo que participasse o acidente. A segurada em causa era a tal Professora Doutora Maria José Cantista que abre o título deste artigo, a qual leccionava (talvez ainda leccione) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto [1]. A sua resposta à seguradora foi um despropósito tal que me levou a escrever-lhe a seguinte carta aberta:

Já soube que escreveu uma carta em quatro pontos à seguradora, onde mente descaradamente acerca do acidente que tivemos. Suponho que esteja a tentar salvar a pele (ou o bolso), mas devo dizer-lhe que lhe fica mal, muito mal. A minha visão romântica do mundo levava-me a imaginar um Professor Catedrático como alguém sábio, ponderado, experiente e, sobretudo, honesto. Quando vi tanta hipocrisia junta numa só folha de papel, escrita pela sua mão, fiquei desapontado; o meu mundo romântico desabou. E fiquei preocupado com a perspectiva dos alunos da FLUP terem alguém como a senhora como referência também moral e ética.

Devo também dizer-lhe que, no fundo, nem para si foi boa, sabe porquê? Porque, se, em vez de ter fugido às suas responsabilidades, tivesse permanecido no local do acidente, a esta hora estava tranquila da vida. Assim, vai ter de pagar-me os danos que me causou. Que lhe sirva de emenda: não se foge do local do acidente e não se mente descaradamente.

Apesar de tudo, o assunto resolveu-se a contento e, nove meses depois (a espera deveu-se a uma carta que se extraviou), lá pude ir buscar a minha bicicleta à oficina, com uma roda nova paga pela seguradora da senhora professora.

Alguns anos depois, a história repetiu-se. Como farsa. Num dia chuvoso, estava noutro cruzamento, desta vez de carro em vez da bicicleta, também à espera duma brecha no trânsito, quando fui abalroado por um carro cinzento. Em vez dum Mercedes, era um utilitário. Saí do carro e a outra condutora também, perguntando-me se havia danos a registar. Disse-lhe que sim, que se notavam umas amolgadelas, ainda que pequenas, no pára-choques traseiro. Jurou-me que não, que era só pó que estava a ser arrastado pela chuva e provocava aquelas manchas que apreciam amolgadelas. Como já estava a escurecer, não pude certificar quem tinha razão. Fiquei de lavar o carro (estava, de facto, a precisar) e reavaliar os estragos. Trocámos nomes (ela chamava-se Filipa) e contactos telefónicos, para o caso da lavagem me dar razão, o que veio a acontecer. No dia seguinte, com o carro lavado, telefonei para o número que me tinha dado a outra condutora, e tive a seguinte conversa:

— Estou? Filipa?

— Não, é a Rita.

— Mas eu queria falar com a Filipa; este não é o número dela?

— Não.

— Ah!

Neste ponto, tenho de admitir que sou uma pessoa desconfiada, tanto que tinha anotado a matrícula do outro carro, apesar de, supostamente, ter o nome e o número de telefone da proprietária; de modo que, munido deste dado, fui novamente à Divisão de Trânsito da PSP apresentar novamente uma queixa contra alguém que tinha tentado ludibriar-me. Repeti o processo todo de correr dum lado para o outro a participar o sucedido, peritos para cá e para lá (ainda tive uma discussão com um a propósito de pontualidade), e acabei com um pára-choques novo montado no carro a expensas da seguradora da tal Filipa do número trocado, que, constou-me, era filha dum conhecido médico da nossa praça.

Terceiro acto. Na Sexta-feira passada, fui cantar à Igreja da Ramalde [2]. A minha namorada levou-me lá no seu carro para o ensaio geral e ficou à espera no parque de estacionamento da paróquia de que abrissem as portas para o evento. No total, havia cinco coros presentes, quatro de adultos e um infantil, mais a orquestra e os solistas. O ensaio fora marcado a horas diferentes para o coro infantil, que começaria a ensaiar a sua parte à hora que nós terminássemos a nossa. Assim, mais ou menos à mesma hora em que acabou o ensaio para o meu coro, começou a procissão de pais que iam deixar os seus rebentos para o ensaio geral do coro infantil. Uma dessas mães, ao volante doutro carro cinzento (não me recordo a marca, mas parece que o cinzento predomina no trânsito), resolveu inverter a marcha dentro do parque de estacionamento da paróquia e, por algum motivo, achou que o espaço era pouco e que precisava dalgum do que estava ocupado pelo carro da minha namorada – uma maneira eufemística de dizer que foi enfiar a traseira contra o carro parado da minha namorada e nem o facto desta se encontrar dentro do mesmo, lhe ter feito sinais de luzes e ter saído do carro fez a senhora hesitar em arrancar dali como se nada fosse. A história ainda é recente, pelo que ainda não sei como vai acabar.

Mas, como diria uma filósofa da nossa terra, isso agora não interessa nada! O que verdadeiramente interessa é que estas três histórias se cruzam de forma preocupante. Em primeiro lugar, cruzam-se na falta de respeito pelo próximo. Três vezes em três acidentes em que estive envolvido ou presenciei um dos elementos fez o que pôde por iludir as suas responsabilidades para com terceiros. No primeiro caso, teve, pelo menos, a decência de se certificar de que não tinha provocado nenhuma lesão séria no ciclista antes de se ir embora como se mais nada fosse. Mas não deixou de reflectir o sentimento de que os velocípedes são os parentes pobres do trânsito em Portugal: os automobilistas não os querem no asfalto, os peões não os querem no passeio e os engenheiros não acham que eles precisem de ciclovias [3]. No segundo caso, poderá dar-se o benefício da dúvida à condutora: talvez se tenha enganado a dar o próprio número de telefone por causa da ansiedade provocada pela situação em que se encontrava. Ou talvez tenha, pura e simplesmente, tentado ludibriar o outro condutor, fingindo boa-fé que não tinha. No terceiro caso, também não é de pôr totalmente de parte a hipótese de que a mãe estivesse tão emocionada com a perspectiva do/a seu/sua filho/a ir cantar em público que não se tivesse apercebido do impacto do seu carro contra outro, nem das luzes deste a acenderem-se, se bem que tal se afigura extremamente improvável (além de que não a isenta de responsabilidade quanto aos danos causados).

Um segundo factor salta à vista: as pessoas envolvidas em cada uma das situações são pessoas com elevado estatuto sócio-económico – uma professora catedrática, uma filha dum médico, uma mãe dum(a) aluno/a do Colégio do Rosário [4] (que não tem propriamente propinas para todas as bolsas)… Talvez seja preconceito meu e gostaria de ver algum sociólogo a contradizer-me se for esse o caso, mas julgo que seria de esperar que fossem os estratos mais elevados da sociedade aqueles a demonstrar mais responsabilidade pelos seus actos, maiores preocupações éticas e maior respeito pelos limites que a vida em sociedade impõe a cada um individualmente. O que estas três pequenas histórias contam é que talvez sejam os estratos sociais mais elevados aqueles que mais facilmente se consideram especiais e portanto isentos de responsabilidades – em suma, acima da lei. Na pior das hipóteses, isto é mesmo o escol da nossa sociedade e, se for esse o caso, será verdadeiramente preocupante.

Finalmente, a hipocrisia patente na terceira história. Passar-se aquilo que relatei no parque de estacionamento duma paróquia, de frente para a igreja, envolvendo alguém que traz os filhos num colégio católico não tem outro nome que não esse: hipocrisia.

Estamos entregues à bicharada!

3 comentários a “Carta aberta à Professora Doutora Maria José Cantista e outras epístolas menores”

Caríssimo, descreves episódios sintomáticos da mesma doença. As conclusões que tiras do estudo descritivo observacional dos três casos report são assustadoras porque válidas! A carência de meios económicos e de coesão social e familiar nos estratos mais baixos da sociedade justificariam racionalmente tais atitudes de fuga à lei, especialmente envolvendo valores monetários. Parte-se do princípio que a formação pessoal e riqueza material e de oportunidades da “estratosfera” social teriam um efeito salutar e humanizante! Infelizmente, seja esse status quo adquirido por meios ilícitos ou não, é erroneamente transmitida uma noção de inimputabilidade que grassa nas classes da alta sociedade portuguesa e da qual a imunidade diplomática é também um privilégio reflexo a nível internacional.
Termino dizendo que julgar pelo bilhete com os meus dados (correctos) posto no pára-choques do Renault que raspei ao estacionar na primeira depois de ter carro, assim como o pagamento integral de um para choques de um (caríssimo) Smart que era pequeno em tudo menos no preçário de peças de substituição, cuja dona foi menos que civil e bem menos que bem educada, tenho a dizer que devo ser uma pobretanas muito bem formada (com orgulho).
PS ambos os carros eram cinza!
Beijinhos e saudades,

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