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Prevenção ou desenrasca — não fica sem médico, fica o mundo sem si!

Por Hélder Oliveira Coelho

Se o ex-libris da portugalidade é a expansão e o seu modus operandi é o desenrasca, há que dar alguma continuidade a este conceito. Se há coisas que pedem uma boa dose de desenrasca, outras exigem o mais cuidadoso plano. Se o desenrasca pode ser a força motriz de grandes momentos de viragem, a ausência de plano conduz, não raras vezes, ao disparate.

Quando as margens de erro são favoráveis, podemos abrir portas à originalidade, tentamos desenrascar, até pode ser que se descubra a pólvora e se revolucionem conceitos. Todavia, se as margens de erro não derem grande conforto, então há que ser mais cauteloso.

Diz o povo que, com a saúde, não se brinca. Uma sociedade desenvolvida conhece as vantagens da prevenção nos cuidados de saúde. Portugal, em diferentes momentos da história, já soube dar lições de boas práticas a todo o mundo. Fez-se um trabalho de excelência e arrisco a dizer que ainda se faz, em alguns nichos.

Em momentos de crise, a tendência para a desfrontalização colectiva é grande. Quero com isto dizer que, com tanta ânsia de viver a crise e carpir por ela, esquecemos o que está ao alcance fazer por nós. Há que estar atento às pequenas pistas de falta de saúde que o nosso organismo possa dar. Mas é imperioso estar disponível para saber o que se deve procurar, caso as pistas sejam escassas.

Se tivesse de dedicar uma crónica exclusivamente à prevenção da doença, não me chegaria um ano para abarcar todos os anseios de quem ouve. Assim, vou dividir os momentos que se seguem em dois grandes grupos: doenças neoplásicas, vulgo cancro; doenças não neoplásicas.

Para as primeiras, é importante dizer que haverá tantos tipos diferentes de cancro como pessoas há no mundo. É fácil perceber que, com um número tão grande, é impossível ser-se exacto no discurso. Escolho, portanto, o mais frequente. Nas mulheres, os rastreios para os cancros da mama e colo do útero são conseguidos por métodos simples e fiáveis. O Serviço Nacional de Saúde dá boa resposta, muito graças aos bons cuidados prestados pelos médicos de família. Nos homens, a próstata é um elemento de preocupação e algum preconceito, mas também existem bons métodos de rastreio.

Cancros do cólon e recto e da pele exigem que se esteja atento aos sinais; sendo que, no caso da pele, temos mesmo que olhar para os ditos. No cólon e recto a tendência é deixar que o desleixo, o preconceito ou o medo se apoderem. Não há razões para tal. No caso do pulmão, o cigarro é de longe o maior inimigo.

No capítulo das doenças não neoplásicas, abro dois subcapítulos: metabólicas e cardiovasculares. Curiosamente, dois subcapítulos que se abraçam.

Os conceitos de tensão alta, colesterol elevado, obesidade e diabetes povoam o nosso quotidiano e nem damos conta do verdadeiro impacto, para a saúde, do seu mau controlo. Os enfartes e os acidentes vasculares cerebrais são manifestações da mesma doença, em órgãos distintos. Ou o coração, ou o cérebro. As nossas artérias precisam de ser bem cuidadas. Com mais facilidade nos preocupamos com o amaciador de cabelo do que com as nossas artérias, só porque não estão à vista. A importância do capilar!

As doenças do sistema circulatório matam silenciosamente. O papel da prevenção é fundamental. Não se trata de comer de forma especial ou exigente, apenas comer bem.

Se o olho do médico de família é essencial para a correcta prevenção das doenças neoplásicas, cada um deve ser responsabilizado por cuidar das suas artérias. Consultar o médico implica ter uma boa orientação. A parte fundamental do trabalho passa a ser de cada um, de cada família.

Face a toda a guerrilha da troika, corre-se ao médico de família por receio de que se o perca. Consulte o seu médico de família não por medo de ficar sem ele, mas consciente de que pode o mundo ficar sem si.

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