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Crónicas Altitude

Os justos comem

Por Hélder Oliveira Coelho

Continuando o longo capítulo que pode ser escrito a propósito do cérebro humano, vou hoje dedicar-me a uma falha considerável da Mãe Natureza: a ausência de livro de instruções.

Se, do que não conhecemos, é difícil concluir algo, há características que quase se adivinham só pelo olhar. Não obstante, quantas vezes nos deixamos iludir. Culpa de uma marcada ausência de livro de instruções.

Deveriam nascer todas as criaturas com falta de carácter com a respectiva sinalética na testa e livro de instruções. A vida ensina-nos a lidar com quase tudo, mas os canalhas e biltres têm sempre a capacidade de nos surpreender. Muito mais fácil seria se já viessem com uma luz na testa e um livro de informação: «Como lidar com um canalha!» Ou um folheto informativo, semelhante às bulas que acompanham os medicamentos, alertando para todas as contraindicações.

Reparem que muitos mal-entendidos se poupariam. Convenço-me de que a falta de carácter seja a maior maleita da nossa sociedade, para a qual não se adivinha cura ou tratamento. Não há quem investigue, não há quem queira trabalhar a propósito do tema.

Por outro lado, nascessem os abutres com luz na testa e dificilmente teriam oportunidade de ser vis. A vileza é tanto mais aprimorada, requintada e suja, quanto mais discreta, subtil e corrosiva. Como as teias que se tecem nas nossas barbas e mal damos por elas.

Mas, por que nos dotou a Mãe Natureza dessas criaturas abjectas, seborreicas, que vociferam a paz enquanto nos dão de beber cicuta?!

Na perspectiva cristã, é, por certo, para a remissão dos nossos pecados. Num olhar mais darwinista, ocupam o mesmo lugar que os necrófagos ou os rastejantes venenosos. Não há vida saudável se não houver quem se ocupe do que jaz morto e podre. Da mesma forma, quem se imagina viver sem cegonhas?! Lindas, esbeltas, cortam o horizonte com doçura e elegância. Transcendentes nas fábulas, onde carregam os bebés. Haverá imagem mais bonita do que a ave branca de bico dourado a rasgar o azul do céu transportando no bico um bebé?! Pois bem… que seria das cegonhas se não houvesse roedores pestilentos, cobras ou outras criaturas que podem envenenar o nosso caminho com peste? Muito provavelmente, os canalhas terão a mesma função: ser devorados pelo apetite voraz dos justos.

A vida tem de facto muito mais piada com os canalhas sem sinalética. A imprevisibilidade do quotidiano dá muito mais cor à vida e apimenta a libido com adrenalina. No fim de contas, também os justos têm alma de caçador.

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