Categorias
Crónicas Altitude

A Eurovisão e o globo

Por Hélder Oliveira Coelho

Há coisa de um ano, por esta altura, estava divertidíssimo a fazer o meu relato crítico ao Festival Eurovisão da Canção [1]. Terminei a crónica com esta dualidade esquizóide:

— Não sei por que perco tempo com o Festival da Canção. Estou ansioso para ver o Festival do próximo ano!!!

Acontece que, este ano, não houve Portugal na Eurovisão [2]. Claro está que ver o concurso sem a nossa representação é uma tortura. É certo que vê-lo com Portugal a participar também é uma tortura. Mas uma tortura com muita categoria.

Atente-se que falar mal do que os estrangeiros fazem consome-nos muito menos do que falar mal de nós mesmos. O impacto é de longe menor. Lá porque os vestidos das outras eram catastróficos, as cantadeiras desafinadas, os apresentadores desconexos, enfim… Que piada tem falar mal do Festival da Canção, quando nem sequer nos foi dada a possibilidade de voltar a perder este ano?! A minha vida quase deixou de fazer sentido. Esta malta, com a troika, está a roubar o que de mais sagrado há no imaginário comum. Não, não falo do Estado Social, não quero saber do Serviço Nacional de Saúde, tão-pouco me preocupam cortes na Educação ou carnificina fiscal. Há muito que tudo isso já não fazia parte sequer do imaginário. Mas o Festival da Canção?! Vão tirar-nos o quê, a seguir? O Castelo a S. Jorge? Ou a azinheira a Nossa Senhora de Fátima?

Enfim… Graças a Deus, a SIC tem Globos de Ouro. Toda a minha alma rejubilou de alegria. Que bom, tenho do que falar mal! Olha, olha a outra de vestido curto. Onde já se viu apresentar uma gala de vestido curto?! Ai a outra que parece uma pêga!

Eu disse: «parece»?! Cala-te, boca!!!

Ah! Que saudades dos planos televisivos incoerentes! Enquanto se entrevista um, mostra-se o rabo de outra. E os discursos de surpresa que soam a conto infantil de má qualidade. As micro-produções caseiras, onde o caos faz lembrar o pior que se fazia em revista bas-fonds. Sai sempre mais barato pôr a dita prata da casa a cursar o ridículo, em vez de tentar fazer o mesmo, mas com qualidade.

E o clima de engate e bajulação que se transpirava?! O decote quase vulgar e o piropo de vão de escada. Fica evidente em que tipo de casting foram as pivôs escolhidas. Longe vai o tempo em que a dicção e o domínio da língua pesavam mais do que o decote, a bainha, ou a racha… da saia!

Por fim, e graças a Deus, chega o Professor Moniz Pereira. Pensará o doutor Balsemão:

— Nunca mais volto a dar o Globo de Ouro do mérito e excelência a outro velho que não eu.

Ou corre o risco de que o velho galardoado encarne o papel de ancião esclerosado e diga tudo o que pensa. Sendo que com «tudo o que pensa» eu quero dizer: detone a pantominice em que se transformou a televisão em Portugal. Porque, chegado ao lugar de decano ou de senador da nação, com o respeito e admiração que o Professor Moniz Pereira nos merece, é-lhe permitido dizer tudo!

E muito bem! Assim eu pudesse fazer o mesmo sem ser cilindrado e decapitado pela mediocridade das cabeças reinantes.

Em suma, não admira que os partidos políticos estejam nesta consumição louca para escolher candidatos às autárquicas. Esta gente cresceu a ver televisão, resolveram imitar os seus heróis e transformar a nossa democracia num palco decadente!

Termino com a mensagem que o Professor repetiu à exaustão:

— Gostava de ter visto coisas portuguesas no palco.

E acrescento: no palco do Festival Eurovisão da Canção!

2 comentários a “A Eurovisão e o globo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *