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Genialidade acima do pragmatismo

Por Hélder Oliveira Coelho

As teias da democracia são mais complexas do que se possa imaginar. Uma figura ilustre da cidade costuma dizer que «o povo é sábio». Incúria ou inexperiência minha levou-me a pensar que destas eleições [a] resultaria a porta para o caos. Aqui faço o meu acto de contrição.

Não haja, todavia, ilusões quanto à solução que resulte desta eleição. Portugal vive, provavelmente, a mais dramática crise de que possamos ter memória. Não haja também falsas esperanças quanto à melhoria da categoria mediana da nossa classe política.

Precisamos, neste momento, de batalhar em várias frentes: por um lado, resolver o problema imediato de liquidez; por outro, usar esta crise como plataforma para alterar o modelo de regime já esgotado. Há necessidade de compromisso rigoroso de todos.

Abrem-se também de par em par as portas para o trabalho, para o esforço, para o empenho pessoal. Não pode haver lugar ao ócio, ao clientelismo, ao facilitismo, ao imediatismo, e outros quantos -ismos da alma lusitana. Cada cidadão deve cumprir com os seus deveres e, se possível, fazer ainda mais do que isso, pensando não nos que não cumprem mas nos que por infortúnio não podem cumprir. Os que não querem deverão ser severamente penalizados. Não podem os interesses corporativos ou pessoais sobrepor-se ao bem da nação.

Quem só puder correr dez metros que os corra. Quem puder correr cem metros e não o fizer porque ao lado alguém só correu dez está a ser negligente. É isto que está na base da chico-espertice portuguesa. Mas é desse monumento ao desenrascanço que nasce a genialidade lusa.

Os grandes problemas, em regra, têm soluções simples. Acontece que «simples» não é sinónimo de «fácil». Mudar de vida é simples. Não é fácil. Sabe-se o que está errado. Conhece-se o caminho certo. Difícil é iniciar e percorrer esse caminho. Não há espaço para persistir no erro, não há tempo para viver com o erro.

Desafio quem ainda tenha avós a indagar a respeito da infância e da juventude que tiveram. Quem viveu nas décadas de trinta, quarenta, cinquenta, conhece bem o sinónimo das palavras «dificuldade» e «sacrifício». Perguntem como é que sobreviveram. Talvez assim entendamos que também nós podemos sobreviver. Há muito que podemos aprender com a experiência dos nossos avós e os erros dos nossos pais.

Faço apenas uma nota histórica do que é a genialidade portuguesa: enquanto, em terras germânicas, se matavam em barda por uma noz de terra, os reis de Portugal discutiam a melhor maneira de dividir o planeta Terra em dois. Metade para Portugal e metade para Espanha. É evidente que estes dois povos não podem ser comparados.

A genialidade define-se por isso mesmo: estar acima do pragmatismo do comum dos mortais. Onde reside a grandeza ariana só pode ser no método e no trabalho. Arregacemos as mangas e mostremos de que rês somos feitos.


Nota:

a: Esta crónica foi originalmente difundida na Rádio Altitude [1] em 10 de Junho de 2012 (N. do E.).

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