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Docendo Discimus

Vincit qui se vincit

Por Hugo Pinto de Abreu

Todos sabemos que vivemos, especialmente em Portugal e no Sul da Europa, tempos verdadeiramente difíceis, sendo que a maior dificuldade é a ausência de esperança, isto é, a incapacidade de vislumbrar — e até de acreditar — num futuro melhor.

Entretanto, há duas visões que se digladiam na opinião pública: a primeira, talvez a mais comum, é a de que estamos a assistir a um enorme retrocesso civilizacional, por culpa das políticas de austeridade, e que isto vai acabar por destruir a economia dos países mais afectados e a vida de muitas pessoas; a outra, mais rara e por antítese, faz uma espécie de apologia das virtudes purificadoras da austeridade, vendo nesta uma espécie de bem-aventurança social, que veio acabar com o novo-riquismo insustentável que grassava em sociedades como a nossa.

Há, sem dúvida, elementos de verdade em cada uma destas visões. Até na segunda, aparentemente mais indefensável. De facto, só existe algo mais deprimente do que o clima social de um país em profunda crise económica: o clima social de um país em rápida expansão económica, particularmente quando esta é realizada de forma insustentável. Grassa então a mais vil arrogância, entra-se numa espiral de confiança ilimitada no futuro e na humanidade, com a consequente diminuição do espírito de entreajuda.

É, portanto, compreensível esta segunda corrente. Já a primeira, provavelmente correctíssima nas suas asserções explícitas, tem muitas vezes implícitos vários equívocos, todos concorrendo para o mesmo erro: uma ingénua e rousseauniana concepção do homem.

De facto, só há uma forma de cada um de nós superar, na sua vida, esta dialéctica equivocada. Equivocada, porque assente em mundivisões que esquecem o centro e o fundamental da questão, que é cada um de nós, enquanto se focam em contextos que nos transcendem.

Sem querer transformar este artigo numa TED Talk [1], convém relembrar-nos e relembrar-me que, mesmo perante o mais catastrófico dos desastres, mesmo perante o mais adverso dos contextos, a última palavra cabe sempre a cada um de nós.

Evidentemente, os contextos — a sociedade, o estado da economia, o emprego ou desemprego, a família, o cônjuge ou falta dele — influenciam-nos, e muito! Cada circunstância limita o nosso campo de acção, mas há um reduto interior de liberdade do qual – em condições normais — somos senhores, e é aqui que deve começar o nosso agir, para depois de estender às demais áreas.

Há, evidentemente, muitos problemas sociais e económicos que carecem de respostas, e a nossa passividade não pode ser considerada uma virtude. Há situações graves de injustiça no emprego — e aqui regressarei numa próxima publicação — e de dificuldades atrozes no desemprego que podemos ser chamados a corrigir, por vezes com decisões difíceis e que nos levam quase a «suar sangue», como emigrar, quando tanto gostamos do nosso País. Existem contextos familiares altamente disfuncionais e nocivos, perante os quais o afastamento pode ser até a única opção corajosa a tomar.

Todavia, no íntimo, cada um de nós sabe que as derrotas que mais doem são as nossas, as que nós — e fundamentalmente nós, não os outros — causamos. O falhanço que mais nos custa é aquele em que mais livremente tomamos parte.

Por isso mesmo, a resposta de cada um perante esta ou qualquer crise só pode ser, em primeiro lugar, uma resposta individual, uma resposta que se centre inicialmente em objectivos individuais, nos quais se procure, preferencialmente em pequenos passos possíveis mas seguros, erradicar o que de nós não é são. E, porque estes passos são possíveis e estão, de certa forma, ao alcance de cada um, é possível a esperança.

A vitória que cada um de nós procura não se encontra primordialmente, portanto, no mudar-se para outro país com um contexto económico mais favorável — embora possa ter de passar por aí – nem em alimentar uma atitude revanchista perante a vida e perante os outros porque não se nasceu na família certa, ou porque se é casado, ou porque se é solteiro. Não, a vitória por que ansiamos é vencer-nos a nós mesmos — vincit qui se vincit.

6 comentários a “Vincit qui se vincit”

[…] Nunca a Páscoa foi tão assombrada como esta que passou. Mas talvez seja preciso ter Páscoas destas de vez em quando. Servem para nos recordar do quão pequenos somos e continuaremos a ser. Podemos e devemos procurar melhorar sempre… mas seremos sempre mortais. Esta consciência é avassaladora, mas está nas mãos do homem para o ajudar a decidir como quer viver enquanto por cá anda [1]. […]

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