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Carta ao Jornal Expressão

Por Hélder Oliveira Coelho

Foi com grande agrado que recebi o convite do Professor Igreja para escrever para o «Expressão» [1]. Na mensagem que me enviou, constava que falasse de mim e da minha relação com o Liceu. Do que me foi pedido, eu opto por responder apenas em parte.

Antes de mais, apresentar-me, porque, dos que agora me lêem, poucos saberão quem sou. O meu nome é Hélder. Sou médico e investigador, actualmente no Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, da qual ainda sou colaborador. Natural da Mais Alta Cidade de Portugal Continental [2], estudei na Escola Secundária Afonso de Albuquerque [3] entre 1997 e 2003. Carinhosamente, chamo-lhe apenas «o meu Liceu», onde tive o privilégio e a honra de integrar o Conselho Pedagógico no biénio 2001/2002 e 2002/2003, em representação dos alunos da escola.

Feito um longo parágrafo de contextualização, resta-me confessar a dificuldade em escrever para falar de mim. Com pouco mais de duas décadas de vida, um rapaz tem pouco mais que um curriculum para apresentar. Ainda assim, um curriculum breve, com pouco para dizer. Por outro lado, escrever para jovens e adolescentes é um desafio.

Sempre fui um apaixonado pela Mafalda [4], a personagem do Quino. A Mafalda odiava sopa. Era das poucas coisas em que eu e a Mafalda não estávamos de acordo. Eu adorava sopa. É um elemento fundamental para uma boa e equilibrada dieta. Por outro lado, as minhas avós e a minha mãe faziam sopas deliciosas. Como criança curiosa que sempre fui, fascinava-me comer os legumes que tinha visto crescer na horta da família. Havia algo de místico. Uma mistura entre o que me prendia à fantasia do caldeirão das bruxas e feiticeiros, dos livros de fantasia que lia, quase com vergonha, por serem uma antítese do que eu acreditava ser o espírito crítico necessário a um jovem de ciência. E aqui, a sopa assumia outro papel importante. Naquela panela, fascinavam-me as reacções da Física e da Química. Era como se a cozinha se transformasse no nosso laboratório privado. Durante tanto tempo, tive dificuldade em compreender por que não gostava a Mafalda de sopa.

Dito isto, pensei: será que a malta dos dias que correm ainda sabe quem é a Mafalda? Será que algum deles vive a dualidade entre a Química e o fantástico? Claro está que, se o Harry Potter fosse gente, teria a minha idade. Será que alguém o leu? Já a Madame Curie teria mais 120 anos do que eu e, dessa, eles sabem de quem se trata. No fundo, será assim tão diferente ser adolescente hoje? Eu já tinha Internet. É bem verdade que funcionava a velocidade de caracol. Não tinha Play Station, mas tinha uma Sega Saturn que fazia as mesmas vezes, mas com piores gráficos. Não tinha teatro, nem cinema. E, neste momento, concluo que vocês já me levam vantagem. Mas a minha escola era muito boa!… Ok, a vossa é melhor! Continuam em vantagem!! Ao menos, o meu «Expressão» [5] era em papel, daquele que agarra, se sente, se toca e se recorta… para guardar e sorrir anos depois!

Quando saí para a faculdade, não tinha dúvidas de que a Guarda era pequena para mim. Mas temia que Lisboa fosse grande demais! A competição era muita. Para todos os efeitos, eu não deixava de ser alguém vindo da província! E garanto-vos que a palavra «província» tinha sempre aquele tom oscilante entre o escárnio e a piedade balofa. Eis que me dava conta de que, afinal de contas, no que dizia respeito a preparação científica, a província não me tinha deixado ficar nada mal!

A dúvida a respeito da Sopa da Mafalda mantinha-se! Por que raio ela não gostava de sopa? O nosso liceu celebrava cento e cinquenta anos e fui chamado a representar os alunos da casa mais uma vez. Senti um profundo orgulho por fazer parte desta família. Foram anos de teatro. Umas cinco ou seis peças levadas a cena. Nós tínhamos palco!!! Vocês não!!! Ponto para mim! Ok, vocês têm cadeiras que andam sozinhas e formam anfiteatro, ponto para vocês! Mas o palco é mais romântico! O meu ponto deve contar a dobrar!

Comecei a dar aulas na faculdade e a fazer investigação no quarto ano (o meu curso dura seis anos… é para gente com paciência!). Já aqui, o meu amor pelas ciências era notório, num evento que se realizava, «EcoKercas»! Liguei aos meus professores para contar as novidades e, obviamente, pedir conselhos. Para todos os efeitos, eu não tinha qualquer formação para ser professor. Disse-me uma delas:

— Há que ser coerente e honesto.

E eu, que pensava que me tinha sido dada a chave para o euro-milhões da pedagogia… Descobri que ser honesto é mais fácil do que fazem crer! Mas ser coerente, às vezes, é tão difícil…

Aos catorze anos, comecei a fazer voluntariado… Óbvio que a faculdade não me afastou, e dediquei-me a mais causas. Passei por lares de idosos, projectos com crianças e jovens e tive o primeiro contacto com a Associação de Surdos da Guarda. Dediquei seis anos da minha vida àquela casa. Os fins-de-semana eram cada vez mais curtos, as viagens Guarda-Lisboa eram intermináveis. Comecei a perceber por que é que o Garfield odiava as Segundas-feiras, mas nada no que diz respeito à sopa da Mafalda.

É óbvio que, depois de começar a exercer, as viagens eram cada vez mais custosas. Trabalhar e viajar todos os fins-de-semana para a Guarda afigurava-se profundamente exaustivo. O critério passou a ser: «saudade insuportável». Porque, se o critério fosse apenas «saudade»… então não saía da Guarda!

Do meu Liceu?! Guardo as melhores recordações. Dos meus professores não chego a ter saudade… Dou conta de que trago um bocadinho deles sempre comigo! Acabam por fazer parte do nosso código genético! Seja pelo bom ou pelo mau exemplo. Mais vezes o bom, do que o mau, confesso-vos!

Continuo a ler a Mafalda! E sabem que acho que já sei o que ela tanto odeia na sopa! É o quotidiano! Na verdade, a sopa dos dias sabe sempre ao mesmo. Importa o que os dias nos trazem de diferente! Importa aquela ideia maior, aquele sentimento inalcançável! A sopa era sempre sopa! A Mafalda nunca conseguiu perceber que também o quotidiano tem magia e química! Afinal, somos nós quem faz a sopa! E, se a sopa comum é aborrecida, a sopa pode ser sempre extraordinária!

A saudade insuportável é o momento extraordinário da sopa! Não a sopa dos dias, mas a sopa mágica e revolucionária que está sempre ao nosso alcance.

Bem-haja por se terem lembrado de mim! Desculpem os parágrafos infindáveis…

Um abraço amigo,

Hélder

3 comentários a “Carta ao Jornal Expressão”

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