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Crise de líderes?

Por Hugo Pinto de Abreu

Uma das opiniões generalizadas na sociedade Portuguesa (et ailleurs), que muitas vezes é até apresentada como uma das razões para a actual situação de desagregação social em Portugal e para o profundo mal-estar social que varre todo o Ocidente, é a de que viveríamos uma crise de líderes. «Já não há líderes como antigamente», este lamento querendo-se referir a figuras como Helmut Kohl [1], François Mitterrand [2], John Fitzgerald Kennedy [3] ou, para falar dos lusos «barões assinalados», Francisco Sá Carneiro [4] ou Mário Soares [5].

Tomemos o caso de Sá Carneiro, pois penso ser bem exemplificativo da construção mitológica que por vezes subjaz à ideia de «crise de líderes». Já ouvi várias vezes — o leitor também certamente já terá ouvido — a convicta afirmação de que, se Sá Carneiro não tivesse morrido inesperadamente (normalmente a afirmação é mais contundente: «se não tivesse sido assassinado…»), então Portugal seria um país radicalmente diferente, para melhor.

Como se perceberá, é difícil fazer uma contraposição irrefutável a afirmações deste tipo. Quem sabe o que teria acontecido? Seria Sá Carneiro mais brilhante ou mais bem-intencionado do que os outros fundadores do PSD, ou do que Freitas do Amaral [6]? O que teria acontecido se, nesse dia, tivesse morrido Freitas do Amaral? Porventura os mesmos que o anatemizaram por fazer parte do primeiro governo de José Sócrates [7] — e não esqueçamos a vergonhosa retirada do retrato de Freitas do Amaral da sede do CDS [8] — teriam, se o fundador do CDS tivesse morrido nessa fatídica noite de 4 de Dezembro de 1980, instituído um culto a Freitas do Amaral semelhante ao de Sá Carneiro.

Curiosamente, este não é um fenómeno Português. Convém entendê-lo porque poderíamos ser tentados a ver nela algum tipo de sebastianismo [9]. O nosso país vizinho está cheio de casos destes no século XX, e é, a este nível, paradigmático. Analisemos três exemplos.

Começando por José António Primo de Rivera [10] — conhecido pelos Espanhóis simplesmente como José António — fundador da Falange Espanhola e executado numa prisão Republicana poucos meses após o levantamento militar que deu início à Guerra Civil Espanhola (1936-1939) [11]. Sendo «o grande ausente» do lado Nacionalista, tornou-se «omnipresente», o mártir objecto de um intenso culto, que perdura até hoje [12] — e provavelmente continuará a perdurar. Com a sua morte ganhou um protagonismo que nunca teve em vida, e que nunca teria de outra forma, pois a aniquilação da Falange como força política autónoma foi uma das prioridades de Francisco Franco [13], e só o desaparecimento de José António o permitiu.

Pouco antes da execução do líder da Falange, a Guerra Civil foi precipitada pelo assassinato, às mãos de militantes socialistas, do líder do partido monárquico Renovación Española [14] e notável parlamentar da época Calvo Sotelo [15]. Aquele que era a esperança da direita Espanhola tornou-se o «Protomártir do Movimento Nacional». As semelhanças de forma de tratamento que a direita Espanhola lhe reserva com a que entre nós é feita a Sá Carneiro é verdadeiramente espantosa.

Por último, e fazendo um salto histórico de quase quarenta anos, um terceiro personagem da história política espanhola foi assassinado. O Almirante Carrero Blanco [16], então Presidente do Conselho de Ministros, foi assassinado a 20 de Dezembro de 1973 por um comando da ETA [17], através de uma aparatosa explosão, que levou o carro do delfim de Franco pelos ares, literalmente. Com o desaparecimento de Carrero Blanco, o Regime Franquista sofreu uma perda da qual não se conseguiu recompor. Muitos Franquistas, à semelhança dos nossos «Sá-Carneiristas», lamentam o destino do homem que, segundo eles, poderia ter mudado a história. Que o tivesse realmente feito, é muito discutível.

Estes exemplos mostram à saciedade que a nostalgia por líderes desaparecidos não é coisa nova, nem coisa exclusiva dos Portugueses. De facto, tem até implícito algo de saudável: na «veneração» a pessoas que não tiveram a oportunidade de realizar tudo quanto deles se esperava, está implícita a crença que estes homens tudo fariam bem — ou que, pelo menos, o seu saldo seria altamente positivo — e a tal crença subjaz o princípio do benefício da dúvida. Cândida nostalgia, apesar de não muito realista.

Mas… deve a nostalgia ser realista? Talvez não. Contudo, a ciência — no caso, a História, bem como a ciência política — não pode guiar-se pela nostalgia. Deve compreendê-la como objecto de estudo, mas não pode enviesar a análise, pois fazê-lo seria distorcer a verdade.

3 comentários a “Crise de líderes?”

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