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O Muro das Lamentações

Por que é que eu não sou comentador

Por Gustavo Martins-Coelho

Quando, no Domingo que passou, disse à minha mãe, enquanto almoçávamos, que ainda não tinha decidido qual seria o tema do meu artigo desta semana, retorquiu-me:

— Esta semana, temas não te faltam!

Referia-se, claro está, a toda a telenovela com que o Governo nos brindou na semana que passou: primeiro, o Vítor admitiu (e com isso demitiu-se) [1] que os especialistas também falham [2]. Depois, o Pedro promoveu a Marilú [3] a ministra contra a vontade do Paulo, que quis ir embora, para não ter de conviver com ela [4]. O Pedro ficou [5], a Marilú também e, depois de muita conversa e promessas de mais carinho, o Paulo acabou por ficar também [6]. Pelo meio, o marido da Marilú também ia subindo na vida [7], mas correu-lhe mal [8]. Foi uma festa para tudo quanto é comentador político!

— Mas eu não sou comentador! — retorqui eu.

No fundo, o comentador político, pelo menos em Portugal (diz que no estrangeiro é diferente [9]), é irresponsável, na medida em que, geralmente, não está envolvido activamente na vida política (tirando algumas excepções), pelo que não tem de ser consequente com aquilo que diz. É como que uma espécie de coro operático [10], que serve de moldura à acção das personagens, sem ter contudo um papel realmente decisivo no enredo.

Por outro lado, a função do comentador político é estar contra o objecto de comentário. No máximo, «explica distanciadamente» o facto que está a comentar, numa forma discreta de avalizar o mesmo. Raramente se vê um comentador a dizer abertamente que concorda seja com o que for e, quando isso acontece, inevitavelmente se levantam vozes acusando-o de estar a fazer um qualquer frete a alguém.

O comentário em si incide habitualmente sobre tópicos quentes do dia-a-dia político, mas irrelevantes do ponto de vista histórico. Talvez assim seja porque é isso que gera audiência. Neste blogue, o meu texto sobre a evolução da dívida pública [11] tem setenta vezes mais visitas do que um outro que escrevi, mais recentemente, sobre a redistribuição do rendimento [12]. O primeiro é comentário: embora clarificando alguns mitos, pouco ou nada acrescenta realmente ao mundo, para além de permitir dizer mal dum ou doutro governo. O segundo procura ser um contributo filosófico para o debate sobre o tipo de sociedade em que pretendemos viver e desejamos legar ao futuro. Não deixa de ser sintomática a diferença de audiência entre os dois.

Os três parágrafos anteriores têm consequências práticas. Como o comentador tem, como se viu, de formar rapidamente uma opinião sobre a actualidade, centrando-se, de preferência, nos pontos fracos dos factos que vai comentar e sem ter a responsabilidade de propor soluções ou alternativas, o resultado é nem sempre o comentador ser coerente. Por exemplo, Miguel Sousa Tavares disse na SIC [13], sobre os maquinistas da CP, em Dezembro de 2011: «os maquinistas têm […] uma coisa absurda chamada subsídio de diuturnidade […], que são mais de seis euros por cada dia que se apresentarem ao trabalho» (destaque meu). Três meses depois (em Março de 2012), disse, no mesmo canal [14], a propósito das baixas fraudulentas: «seria melhor compensar as pessoas que não faltam, [remunerando-as] em função disso com mais vencimento» (novamente, destaque meu). Mas não é nisso que consiste essa coisa absurda que é o subsídio de diuturnidade: majorar o salário em função da assiduidade!?

Por tudo isto e como já afirmei no manifesto [15] da Rua da Constituição, não é meu objectivo, nesta coluna, fazer comentário, mas antes produzir e partilhar algum do meu pensamento, recebendo, em troca, a partilha do pensamento do leitor (ironicamente, sob a forma de comentários aos artigos) e poder assim construir um pensamento mais sólido, agregador e conciliador de mais visões.

4 comentários a “Por que é que eu não sou comentador”

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