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A insustentável facebookização do ser

Por Hugo Pinto de Abreu

O leitor poderia acusar-me, quando lesse o que adiante escreverei (na verdade poderia acusar-me desde já, pois o leitor, só pelo título, já está a imaginar onde é que eu vou querer chegar), de ser incoerente, porquanto neste artigo onde vou alertar para o perigo de nos identificarmos — no sentido filosófico do termo — ou de identificarmos o outro em demasia com o perfil que cada um tenha numa rede social — ou, pior ainda, de facebookizar uma relação — enfim, depois de realizar toda uma breve súmula dos perigos para a nossa psicologia e convivência social que podem advir da utilização das redes sociais, a primeira coisa que farei após a publicação deste mesmo texto será republicá-lo no meu próprio «mural».

Longe de me ofender com a potencial crítica, aproveito-a para, desde já, desenhar perante o leitor o caminho que o convido a percorrer, começando por enunciar uma série de lugares onde não o pretendo levar. Não lhe vou dizer que as redes sociais são más, nem que fazem perder a alma. Não vou alinhar nesse lugar-comum de que as amizades formadas ou sustentadas em redes socias se apresentam como um perigoso substituto para as amizades «reais». Nem vou tão pouco gastar o seu tempo a referir que as redes sociais têm um potencial enorme para nos fazer perder horas — às vezes dias — sem sabermos bem como.

Mas, então, há perigo de nos identificarmos, e de identificarmos a realidade, de forma errónea, com o que vemos nas redes sociais? Creio que sim.

Penso que uma confusão terminológica pode ajudar a essa confusão. As redes sociais vão buscar expressões à «vida real» que ganham vida e significado próprios na «rede». Assim, as redes sociais têm uma hermenêutica própria, e conhecê-la é importante para saber utilizá-las e integrar esse uso na nossa vida corrente.

Muito do que vou dizer pode parecer demasiado evidente, particularmente para quem já tenha parado para pensar neste assunto. Todavia, como a inovação tecnológica é tão rápida, muitas vezes a nossa reflexão nem tem tempo de a acompanhar. Por isso, não vou hesitar em propor ao leitor meia dúzia de ideias com vista a fazer esta hermenêutica das redes sociais, e estou curioso pelo feedback que possa obter.

Poucas serão as pessoas cujas listagens de «amigos» nas redes sociais correspondem integralmente, ou sequer numa parte considerável, a amigos. Os verdadeiros amigos são muito poucos. A maioria são conhecidos, e haverá até alguns «desconhecidos» que, por algum motivo, queremos manter… na nossa lista de contactos. Ora, aí está o termo chave para compreender o que é, realmente, uma lista de amigos numa rede social: na sua base, nada mais do que a versão moderna da lista de contactos de uma agenda.

E que enormes vantagens! Não sei se o contexto familiar do leitor o habituou, como eu me habituei, a ver gerações mais velhas — precisamente essas em que a taxa de utilização da Internet é muito baixa — a presenciar aquelas chamadas telefónicas de circunstância, cadenciais, quase rituais, a familiares e conhecidos, como forma de manter o contacto, saber de novidades, mas, na realidade, nada – ou muito pouco – dizer de substancial. Este «manter o contacto» é tremendamente facilitado pelas redes sociais, que permitem genuinamente acompanhar e marcar presença na vida dos nossos familiares mais distantes e pessoas conhecidas, de forma bem mais simples e proveitosa, ou, em «economês», de forma mais eficaz e eficiente.

O mecanismo do «Gosto» é o meio primordial para manter contacto. Assim, o «Gosto» tem também um significado próprio no contexto de uma rede social. Muitas vezes, mais do que exprimir aprovação (entusiástica), exprime presença: por vezes não é mais do que um «tomei conhecimento». Em princípio, não colocaremos «Gosto» em algo que nos repugna ou que vai contra os nossos princípios, todavia, sem dúvida que a sua utilização é mais ampla do que aquela que decorreria do sentido estrito do termo.

Aproveito também para tranquilizar os mais ciumentos ou os mais convencidos. Colocar um «Gosto» numa fotografia de alguém não significa fazer-lhe uma declaração de amor, nem declarar-lhe qualquer tipo de interesse. Tenham isso em mente quando pensarem que alguém está terrivelmente apaixonado por vocês quando coloca «Gosto» em duas ou três fotografias vossas, ou quando pensarem que vos estão a tentar roubar a namorada porque colocaram «Gosto» nas publicações dela.

«Mural» é uma palavra interessante, e, aqui, penso que o esforço interpretativo é reduzido, porque a palavra mantém de forma consistente o sentido metafórico que vulgarmente lhe é atribuído quando aplicada numa rede social. Efectivamente, o mural é algo que expomos à vista dos outros, é aquilo que queremos que eles vejam, e nele podemos comunicar uma mensagem ou apresentar uma série de imagens desconexas e sem sentido.

Convém, por isso, tratar e vigiar adequadamente o nosso «Mural» numa rede social, porque seremos julgados por aquilo que nele comunicarmos. É sabido que é prática comum, na fase de recrutamento e não só, que as empresas analisem os perfis dos seus (potenciais) colaboradores nas redes sociais. Importa pois entender que há, pelo menos, dois «Murais»: aquele que só os vossos amigos (e vários serviços secretos) podem ver, e aquele que é público. Insisto que devem cuidar também daquilo que só os vossos amigos (bom, a vossa lista de contactos, como foi explicado acima) vêem, até porque, certamente, queremos também passar uma imagem de nós a quem nos é mais próximo, mas, obviamente, há que ter extremo cuidado na apresentação do «Mural» público, pois é, verdadeiramente, o nosso cartão de visita.

Em suma, o esforço de hermenêutica — isto é, de interpretação — das redes sociais pode ser resumido numa expressão: não podemos tomar o Facebook pelo seu face value [1].

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