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Fé… ou esperança laica num mundo melhor

Por Hélder Oliveira Coelho

Há não muitos dias, tive o privilégio de escutar o Arcebispo Desmond Tutu. A par, sentava-se o Presidente Jorge Sampaio. Se o primeiro tem na fé a eloquência, o segundo é um pastor laico da razão. Ambos com uma perspectiva muito envolvente, talvez complementar, da política internacional e geoestratégica.

No momento em que inicio o processo de criação desta crónica, assumo humildemente as minhas limitações e não avanço com qualquer mensagem pessoal.

Durante o jantar que se seguiu, no momento do brinde, e antes que se tivesse servido o vinho, exclama o Arcebispo com um sentido de humor cortante, enquanto eleva o copo:

— Desenganem-se os que esperam que eu transforme a água em vinho! Isso, eu não faço!

Longe da pretensão de analisar com qualquer réstia de mestria as palavras do Arcebispo, limito-me a papagueá-las… Ademais, papaguear é o que todo o mundo actual tem feito! Sabe Deus que aves raras se papagueiam!

Votadas ao esquecimento as feridas da Segunda Grande Guerra. A ausência de vivências bélicas que verdadeiramente assolem a grande maioria dos países do mundo ocidental (nomeadamente na União Europeia). Resta uma certa monogamia ideológica podre e incapaz de lidar vigorosamente com a realidade dos países do novo mundo. Como todas as monogamias, só têm uma sustentabilidade sólida se forem construídas sob os signos do amor, do respeito, da solidariedade, da tolerância…

Mas dizia o Arcebispo Tutu que ao Homem não é permitido viver em isolamento.

— I cannot be human in isolation.

Lá diz o ditado anglo-saxónico: «no man is an island». E nem Adão suportou viver no Paraíso sozinho!

Acrescenta que acredita que o Homem é intrinsecamente bom e foi concebido para o bem!

Contudo, se há algo que a História nos ensina, é que não aprendemos com a História! Preocupa-me a ausência de sentido crítico que grande parte da sociedade tem vindo a mostrar face a todas as mudanças que têm ocorrido. O mundo está objectivamente em transformação. Nos lugares onde os direitos humanos não se respeitam, caminhar-se-á para um grande golpe de fraternidade! Curiosamente, em Portugal somos violentados paulatinamente com a destruição do Estado Social. A guerra que a Alemanha não ganhou com tanques ganhará na Economia, ou mais uma vez perderá, arrastando com ela os ideais de um mundo mais justo e igualitário! Aos mais velhos, cabe a responsabilidade de apontar os melhores caminhos e de estimular o pensamento crítico de quem pode ainda pôr a mão na massa e tentar mudar o mundo!

Para homens de fé como o Arcebispo, é possível concluir um discurso com:

— Mesmo nos momentos em que pareça que estamos a perder, não temam, a justiça há-de prevalecer.

Faço votos de que todos venhamos a comungar de fé… ou que nos deixe Deus uma esperança laica num mundo melhor!

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