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O auto-de-fé

Por Hélder Oliveira Coelho

O pináculo da evolução social, por via do pensamento de um grande estadista, só pode ser o auto-de-fé! Portugal habituou-se a esta tradição. Ai! Que saudades das romarias ao Rossio! Que saudades do tempo em que a tolerância, o respeito, as boas práticas e os bons costumes reinavam! Saudades do tempo em que bruxas, heréticos, a vizinha do lado, o pedreiro, o cientista, o inimigo figadal, ou qualquer um que eu quisesse ver morrer, era piedosamente queimado e liberto dos grilhões do pecado e do demónio. Eram dias felizes! Dias alegres e repletos de júbilo! Há lá melhor programa de Domingo do que ver uma bruxa ser queimada viva?! E, se ela se arrependesse, não seria queimada viva, sem antes experimentar gesto de sublime misericórdia, ser estrangulada pelo seu carrasco. Que saudades! Era o tempo do respeitinho!

Homens ilustres e iluminados estadistas defenderam o auto-de-fé. O garante último de que um Estado funciona é o auto-de-fé! Sebastião José, hoje com direito a uma grande praça e alguma veneração, era um adepto fervoroso. Os zeladores da paz social e manutenção da graça da fé denunciavam todos quantos fugiam do caminho da perfeição. A denúncia é, por certo, o que de mais nobre podemos ter, logo depois do auto-de-fé de per si.

António Salazar fez uma substituição da romaria ao Rossio, por alegretes passeios ao Tarrafal. Mais uma vez, viviam-se tempos felizes. O regime ignóbil do medo e da perseguição enraizou-se nos genes do povo. A denúncia e o bufo são os bem-aventurados cavaleiros do progresso. E assim se constrói um Estado que funciona.

Nos antípodas da perseguição irracional, vivemos a Babel da impunidade. Curiosamente, não faltam os bufos. E abundam os heréticos, não faltam bruxas, odiosas vizinhas e inimigos figadais. Mas não há autos-de-fé.

Se, deste período negro da História, outra coisa não devíamos sentir senão as mais profundas vergonha e arrependimento, confesso que um auto-de-fé lavaria as almas de muito boa gente. Proponho então a apologia ao auto-de-fé! Façam-se as romarias a São Bento. E sejam aí os novos autos-de-fé. Se, a bem do Estado, a justiça democrática não funciona, então que se entronize a selvajaria e se assuma a custódia sagrada do auto-de-fé!

Se o sentimento de profunda injustiça nos consome na lembrança da crueldade do Homem, a impunidade que corrói a democracia traz a triste lembrança do tempo do respeitinho. Digo-o com profundo pesar.

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