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Novos paradigmas

Por Hugo Pinto de Abreu

Desconfio do termo «ajustamento» quando usado tão frequentemente nos nossos dias sem grande critério para designar as medidas que o Governo de Portugal — ou melhor, a troika por seu intermédio — acha por bem tomar no campo económico-financeiro. Desconfio, não porque negue que Portugal precisa de um sério ajustamento, mas precisamente pela falta de critério com que o termo vem sendo usado, muitas vezes para designar uma pretensa realidade segundo a qual «os Portugueses [quais?] viveram acima das suas possibilidades», e que portanto é necessário baixar («reajustar») o padrão de vida. De quem? «Dos Portugueses» tout court, assim: em geral, sem mais.

Repudio essa infame generalização, e fazendo-o, espero resgatar — bela palavra esta, também — o termo «ajustamento».

Um verdadeiro ajustamento implica a salvaguarda do essencial com o sacrifício do acessório ou de parte dele, e pode implicar adaptar a forma para salvaguardar a substância. Voltando à realidade nacional: uma política de substituição de importações pode fazer sentido, a fusão de serviços — mesmo com algum prejuízo para os utentes — pode fazer sentido. O que nunca pode fazer sentido é querer ganhar competitividade apostando numa estratégia de diminuição dos salários reais, num país em que os salários mínimo e médio são já, objectivamente falando, muitíssimo baixos.

Numa recente conversa com um sacerdote (católico) e alguns amigos, tocou-se no tema da crescente escassez da celebração de baptizados e, sobretudo, de casamentos, e, principalmente, nos enormes compassos de espera antes de concretizar estes actos. O feedback obtido é unívoco: a preocupação está em realizar uma grande festa, por isso é preciso juntar dinheiro, escolher uma data bem longínqua que permita avisar os convidados com a maior das antecedências, e preocupações afins. Tudo isto vai de encontro àquilo que eu próprio tenho observado, e ao que ouvi noutras conversas com pessoas – nomeadamente com sacerdotes – com algum conhecimento da matéria.

Antes de começar a escrita da presente publicação, fui verificar as estatísticas do Eurostat [1] para confirmar a minha impressão de que em Portugal se celebram, na actualidade e em comparação com outros países europeus, muito poucos casamentos. Infelizmente, as estatísticas confirmaram a minha impressão: com 3,4 casamentos por mil habitantes em 2011, Portugal estava 15% abaixo da média europeia, sendo a distância para os países mais desenvolvidos absolutamente notável: a Alemanha, para a mesma métrica, apresenta um valor de 4,6; a Bélgica 4,1; a Finlândia 5,3; a Suécia 5,6; só para dar alguns exemplos.

Estamos, portanto, perante uma situação onde se requer, urgentemente, um ajustamento a novos paradigmas. Desemprego jovem, salários de entrada baixos em profissões qualificadas, e um tecido social que está, globalmente falando, em aperto financeiro, fazem com que seja muito difícil à comum das famílias dispor de 15, 25 ou 50 mil euros (o céu é o limite) para organizar uma festa de casamento (dividam-se os valores por 5 para festas de baptismo).

Muito bem, eis o novo paradigma. O que fazer? Reter a forma ou a substância? Vender os anéis ou cortar os dedos?

Infelizmente parece que se prefere cortar os dedos. Os eternos noivos vão coabitando à espera de melhores ventos, e o baptismo das crianças é adiado dois ou três anos, até que se possam fazer grandes festas que reflictam os nossos caprichos mais ridículos (isto merece uma crónica só por si), que projectem uma grandeza que ninguém acredita que tenhamos. Em suma, dois actos – o casamento e o baptismo – cuja essência reside em dar vida, tornam-se em pretexto para o mais vil exercício de masturbação do ego.

Sejamos claros: eu não sou contra as festas, bem pelo contrário. Na sua génese e na sua verdadeira essência, pretendiam ser o local privilegiado de manifestação da alegria resultante da celebração de um casamento ou de um baptizado. O problema é que, para muitos, a festa tornou-se no centro, e formaram sobre ela exigências tais, que até as pessoas que genuinamente apreciam e entendem as instituições do casamento e do baptismo se sentem constrangidas a estar a par dessas exigências.

Há que ter coragem de cortar radicalmente com a orgia de gastos sem nexo em que estas festas se tornaram. Um evento por nós organizado deve reflectir aquilo que nós somos, e deve estar sujeito às restrições do que nós temos. Um rei deve organizar, se puder (e por vezes tal não é possível, veja-se as condições de miséria em que viveu a família Habsburgo na Madeira depois da primeira guerra mundial), uma festa digna de um rei. Já a um jovem de 25, 30, 35 anos que esteja no início de uma carreira (ou ainda a concluir os estudos), não se pode exigir uma festa com grandeur de casa real. Pelo contrário, se o fizer, em vez de projectar uma imagem de grandeza, cairá no ridículo.

Todos os tempos têm as suas particularidades, e os momentos de crise podem ser efectivamente oportunidades para nos livrarmos do supérfluo, para realizarmos verdadeiros ajustamentos, que, longe de fazerem de nós menos felizes, nos desprenderão de cargas inúteis.

É por isso que termino, algo inusitadamente, esta crónica com um apelo: caros leitores, caros amigos, que tenhamos a coragem de nos desfazer da herança de um estúpido e pacóvio novo-riquismo, e nunca desistamos do essencial por estarmos agarrados a formas que nos quiseram impor – e que talvez tenham penetrado e conquistado a nossa imaginação – mas que, ao final de contas, são meros acessórios, e, como tal, úteis na medida em que fortaleçam o essencial, mas no limite, dispensáveis. Que estes acessórios não nos ceguem nem se tornem em obstáculos do nosso caminho!

2 comentários a “Novos paradigmas”

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