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O Muro das Lamentações

A escola debaixo de fogo

A imagem dispensa comentários, não dispensa? Então e o vídeo?

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Z2UKBSVol_c]

Este vídeo correu os noticiários em 2008. Publico-o aqui para situar os leitores mais esquecidos.

Suponho que, neste momento, o meu caro leitor já tenha percebido que o que me traz desta vez ao Muro das Lamentações é a questão mais ou menos recorrente da indisciplina nas escolas portuguesas. Chamo-lhe assunto recorrente porque, volta e meia, lá assistimos a uma abertura de noticiários em que se fala de mais um professor que é agredido [1] ou ameaçado à porta da escola ou mesmo dentro desta, ou então lá sai mais uma notícia afirmando que o número de professores seguidos em consultas de Psiquiatria e a fazer tratamento com anti-depressivos não pára de aumentar [2]. De caminho, quando não agridem os professores, os alunos entretêm-se a bater uns nos outros.

Estes casos que chegam à comunicação social são apenas a ponta do icebergue duma realidade constante que assola diariamente as nossas escolas e que prejudica gravemente o seu funcionamento e o desempenho do seu papel enquanto locais de instrução e de formação.

Propositadamente, não citei a educação como uma das funções da escola; passo a explicar porquê. A educação não é uma tarefa que compita inteiramente a uma pessoa ou instituição, até porque, ao contrário da instrução, não é algo estanque no tempo (no limite, nem a instrução o é, ou não deveria ser — por isso se fala tanto em aprendizagem ao longo da vida — mas, por questões de facilidade argumentativa, admitamos que sim), nem se limita à mera transmissão de conceitos (por «conceito» entenda-se valores, regras morais, enquadramentos legais, etc.). Educa-se também com o exemplo, para além das palavras, e recebe-se educação durante toda a vida e em todas as circunstâncias. No entanto, dada a sua relação privilegiada do ponto de vista espacial, temporal e, acima de tudo, emocional, a família e, dentro desta, os pais — ou quem desempenhe essa função na sua ausência permanente — assumem-se como os actores principais do processo educativo até, pelo menos, à adolescência, cabendo à escola um papel complementar e articulado com aqueles.

Infelizmente, assiste-se hoje em dia a dois fenómenos que contrariam este desiderato. Por um lado, os pais demitem-se da sua função, entregando os seus filhos à escola de manhã para os recuperarem ao fim da tarde, na esperança de que esta lhes dê aquilo que não lhes apetece a si, pais, dar (admitindo que têm capacidade para isso, o que já é dizer muito). Como se isto não bastasse, são por vezes os próprios pais a incitarem os seus filhos à insurreição, ao considerarem o professor um elemento nocivo e ao pactuarem com a vitimização do seu rebento sempre que este é alvo dum castigo merecido. No caso concreto do vídeo acima,  tenho fortes suspeitas de que a encantadora jovem teria sido bem mais delicada com a professora se não soubesse que os seus pais pouco caso fariam, se não mesmo a parabenteassem, ao saberem do ocorrido. Para agravar a situação, o Ministério da Educação tudo tem feito para desautorizar a desacreditar os professores dentro e fora da sala de aula. Reforma após reforma, reprovar, advertir ou sancionar um aluno tornam-se tarefas cada vez mais difíceis, com uma inevitável consequência: a palmatória passou da mão do professor para a mão dos alunos.

Várias ilações podem ser retiradas deste caso, sendo a mais óbvia de todas a de que algo vai mal nas escolas portuguesas e que as acções do Ministério nada têm feito para resolver o problema, quando não o terão agravado. Daqui se conclui que são necessárias medidas urgentes e eficazes para devolver aos professores a autoridade dentro da sala de aula, sob pena da escola não conseguir mais exercer o seu papel, com as consequências terríveis que isso terá para o futuro do País. A manter-se a actual tendência, as escolas portuguesas atingirão brevemente o mesmo estado de sítio em que vivem, por exemplo, as escolas francesas [3].

Antes de terminar, quero deixar uma palavra de apreço para a professora que protagoniza o vídeo, que tenho o privilégio de conhecer pessoalmente e que sem dúvida estava naquela sala dando o seu melhor porque acreditava que podia ajudar a sua aluna a ser alguém na vida. Ocorre-me a este propósito uma frase idiomática que encaixa como uma luva: deitar pérolas a porcos…

2 comentários a “A escola debaixo de fogo”

[…] Os valores dos pais são muitas vezes transmitidos para os filhos. Por consequência, filhos de pais violentos são violentos, desafiam a autoridade do professor e reagem à tentativa de imposição da disciplina por parte do docente com violência. Quem não se lembra dum caso que já tem alguns anos, em que a professora foi agredida, porque tirou o telemóvel à aluna, porque esta não o largava durante a aula [4]? […]

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