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O Portugal da Estrada Nacional 1

Por Hugo Pinto de Abreu

Vila Nova de Gaia, Avenida da República. Rumamos a Sul, é hora de fazer a escolha: pela auto-estrada (A1 ou, em alternativa, A29/A25/A8) ou pela estrada nacional, a mítica EN1/IC2? Um olhar cúmplice trai a resposta: havendo tempo, vamos pela estrada nacional, é claro!

É realmente claro? Se fosse, certamente não estaria a escrever sobre o assunto. Mas adiante.

Chegados à Rotunda de Santo Ovídio, em vez de seguirmos em frente, saímos na segunda saída, que nos leva ao início na EN1 (teoricamente, começava uns quilómetros mais atrás), estrada alternativa que nos faz entrar naquilo que é, em certos troços, um Portugal alternativo. Alternativo às grandes auto-estradas, no sentido literal e metafórico do termo. Vale a pena a visita a este Portugal.

É uma viagem feita de contrastes, e parte do encanto desta estrada está nos seus contrastes, que vamos descobrindo ao longo do caminho. Montes idílicos e sucatas, flores e pneus, belas habitações e desoladoras gasolineiras, aldeias e cidades, empresas de tecnologia de ponta e empresas paradas no tempo faz quarenta ou cinquenta anos. Ora em troços dignos de auto-estrada, ora numa estrada exígua, por vezes quase sem bermas.

Há sítios especiais, que marcam, particularmente para quem percorre esta estrada a pé, como eu próprio: percorro (uma pequeníssima) parte dela quase quotidianamente, mas nela também andei incontáveis quilómetros, como muitos milhares de outros Portugueses, rumo a Fátima.

Assim, pouco depois de Santo Ovídio há a Fonte dita da Senhora dos Aflitos, com belos azulejos de Nossa Senhora do Carmo. Depois do «calvário» — para quem anda a pé — entre S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis, num troço que deliciará os automobilistas por ser quase uma auto-estrada, o peregrino sente uma imensa alegria ao chegar a Pinheiro da Bemposta, onde recomeça um percurso mais urbano — e humano.

E que terra mais mimosa haverá, nessa estrada, senão Avelãs de Caminho [1]? Terra cuja essência, desde tempos antigos, é ser caminho de passagem, com os seus convidativos bancos de jardim e praças junto à estrada, bem como a sua bela e imponente igreja, tudo isto entre as sombras das aveleiras.

E, pouco depois, o estômago delicia-se: Anadia, Mealhada. Leitão, pão e vinho são os ícones gastronómicos destas terras (não esquecendo, claro está, a não muito distante água do Luso). Mas a Mealhada é mais do que o leitão: mesmo na berma da estrada, um fantástico e extenso jardim convida ao descanso.

Em Coimbra, seguindo o trajecto original da EN1, emaranhamo-nos, para nossa surpresa, num cenário suburbano que nos leva até à estação de Coimbra B. Até Condeixa o caminho é agreste, quase desprovido de vida, e aí, até ao Pombal, ganha nova cor, recobra vida, por entre bosques e viçosas aldeias.

Antes de chegar ao Pombal, um desvio à esquerda leva os peregrinos até Fátima, por entre campos e pequenas povoações de sublime beleza.

Não posso levar o leitor mais longe, porque nunca passei desse ponto. Todavia, posso assegurá-lo que não há entrada mais bela para entrar em (ou sair de) Lisboa para quem vem de (ou vai para) Norte que o final (o início) do IC2, com uma deslumbrante paisagem junto ao Tejo, digna de ser cenário de um filme.

Alguém poderia contestar: porquê falar em concreto da EN1 e não das estradas nacionais em geral? É claro que muito do aqui digo se aplicaria, mas o encanto especial da EN1/IC2 são, como referi, os contrastes agudos, e talvez o encanto de ser a estrada alternativa entre Porto e Lisboa. Obviamente, se falássemos depura contemplação das incontáveis belezas naturais deste nosso Portugal, teria que falar, por exemplo, na EN13 que liga o Porto a Valença, percorrendo todo o litoral Norte de Portugal, ou na EN202 entre Viana do Castelo e Ponte da Barca, com os mil encantos do Alto Minho.

O Portugal da Estrada Nacional 1 é o Portugal da realidade. Não rejeita as auto-estradas e o progresso, pelo contrário, leva-nos a eles. Mas, sendo tão ao Litoral, é todavia um Portugal tão profundo que aí contemplamos. É uma experiência que vale a pena, e que não demora assim tanto tempo, particularmente se a viagem não coincidir com horas de ponta.

Caro leitor, desafio-o a, nestas férias ou em ocasião futura, deixar as pressas de lado e fazer esta experiência. Ah, e poupará nas portagens!

4 comentários a “O Portugal da Estrada Nacional 1”

Esta é uma das rotas que quero completar (já vim de Coimbra ao Porto por lá). Outra, de que ainda falei hoje, é a 109 até Leiria (só a segui do Porto a Aveiro).

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