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A Rua da Constituição

Por Hugo Pinto de Abreu

Nunca perguntei ao Gustavo [1] o motivo deste blogue se chamar «Rua da Constituição», mas o título sempre me agradou. À procura de respostas, fui reler atentamente o editorial que inaugurou este espaço [2] e encontrei uma pista interessante que me faz supor que, embora nunca tenhamos trocado impressões sobre isso, talvez as razões que levaram o Gustavo a escolher tal nome e eu a apreciá-lo tanto, coincidam de alguma forma.

Refere o editorial inaugural: «O objectivo principal é suscitar o debate, pelo que comentários conducentes a uma discussão profícua de ideias são bem-vindos.», referindo imediatamente antes: «a “Rua da Constituição” não tem preocupações de nenhuma índole, para além de honestidade intelectual, mesmo que esse desprendimento possa implicar alguma falta de correcção política.»

A Rua da Constituição ilustrada no topo do blogue é uma via da cidade do Porto, longitudinal, com o trânsito automóvel apenas no sentido ocidental, que liga a Rua Malheiro Dias (junto à Avenida de Fernão Magalhães), na zona Oriental da cidade, à Rua de Pedro Hispano, já além da Praça de Mouzinho Albuquerque (Rotunda da Boavista), na zona Ocidental do Porto, passando por sítios emblemáticos como o Jardim do Marquês de Pombal, com a magnífica, grandiosa e característica Igreja de Nossa Senhora da Conceição («Igreja do Marquês») e o «Campo da Constituição», o principal recinto do Futebol Clube do Porto até 1952.

Antes de mais, e não que seja particularmente importante para entendermos o significado desta designação, devo confessar que tenho gratas recordações dessa Rua. Há coisas assim, há sítios que nos marcam, e a Rua da Constituição é, para mim, um desses sítios.

Num livro que já aqui mencionei [3], «A Família Inglesa», Júlio Dinis divide a cidade do Porto em três: a parte mais comercial, isto é, o Centro, em particular a Ribeira; a parte Ocidental, a partir de Cedofeita, uma zona tranquila; e a zona Oriental, onde os chamados «brasileiros» construíam as suas habitações.

Quem conheça o Porto actualmente, saberá que tal repartição já não faz sentido, desde logo pelo definhamento do Centro da cidade. É mais comum hoje dividirmos a cidade em duas zonas: Porto Ocidental (também chamado Porto-Foz), e Porto Oriental (Porto não-Foz).

A primeira e talvez maior virtude simbólica da Rua da Constituição será, desde logo, unir, estender-se por estas duas partes, efectivamente tão diferentes, da mesma cidade. Assim se quer também este espaço de reflexão, que se faz através de pessoas, psicologias, ideologias tão diferentes, que convergem na criação de um espaço de estímulo ao debate livre e responsável, não temendo por vezes sair do politicamente correcto.

Este é um espaço diverso não apenas pela diversidade que acabamos de mencionar, mas também pela ampla diversidade de temas, que fazem da «Rua da Constituição», tal como a sua homónima e inspiradora Rua da Constituição, um espaço livre de qualquer monolitismo.

Na Rua da Constituição, à medida que avançamos para Ocidente, começam a abrir-se horizontes, começa a avistar-se o mar, movimento que coincide, aliás, com a transição do barulho e confusão da Avenida Fernão Magalhães e da Praça do Marquês para uma progressiva acalmia. Também na «Rua da Constituição», esperamos conseguir ir realizando a transição do intelecto da espuma dos dias, do barulho e confusão quotidianos, para terrenos mais profícuos, com paisagens, horizontes mais alargados.

O próprio nome, da Rua, e, em consequência, deste espaço virtual, não pode deixar de ser analisado, porque se este espaço se chama «Rua da Constituição», em alguma medida adopta também o nome a ideia de Constituição. Não a Constituição de 1822, nem a de 1976, nem nenhuma outra em particular, mas a ideia de Constituição, escrita ou não, explícita ou não, que dá forma à sociedade política. Não espanta, pois é um espaço de reflexão sobre a Polis e para a Polis.

É bom estar na Rua da Constituição. É bom estar na «Rua da Constituição»!

3 comentários a “A Rua da Constituição”

Hugo, elidi propositadamente a explicação do nome do blogue no editorial a que aludes (e noutras ocasiões). A razão dessa omissão é que às vezes um pensamento foge-nos quando tentamos verbalizá-lo. Mas tu conseguiste, neste teu artigo, traduzir em palavras, melhor do que eu alguma vez poderia fazer, a fugidia linha de pensamento que me levou a escolher o título do blogue. Isto devia ser um editorial!

[…] Que privilégio ser o primeiro colunista da «Rua…» a escrever após conhecidos os resultados das eleições para o Parlamento Europeu de 2014 [1]! Mas não quero acrescentar nada à vaga de pequeno comentário, aliás a roçar o analfabetismo político, quando se fala de alguns resultados noutros países – i.e. ficámos a saber que o «Partido Nacional-Socialista» (sic) elegeu um eurodeputado na Alemanha, segundo o Público [2] –, dado que assumi o compromisso de, nesta coluna [3], tentar ir para além da espuma dos dias e das notícias [4]. […]

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