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Cultura é trabalho

Por Hélder Oliveira Coelho [a]

Um passo para vencer a crise é vencer a pequenez. Não a geográfica, mas a das mentes. Dizia, há dias, um músico da nossa praça que:

— A pequenez geográfica de Portugal não é comparável à sua grandeza cultural.

Aqui segue o meu bem-haja por esta verdade de la Palice. É evidente que uma coisa pequena não é comparável a uma coisa grande. Perdão! São comparáveis, sim! Na medida em que contrastam! Uma formiga não se compara a um elefante! Contudo, os seus tamanhos contrastam! Logo, passam a ser comparáveis. A pequenez geográfica de Portugal contrasta com a sua grandeza cultural! Digo isto a propósito do que já Eça de Queiroz dizia a respeito da nossa invejazinha idiossincrática.

Surgem criaturas vindas do nada, dizendo trivialidades, com aura de heróis. Mas, desde que bem-falantes ou bem-parecidas, são aclamadas! Ora, saibamos dar valor a quem o merece! Trabalhar é uma obrigação, quem o faz melhor deve ser reconhecido. Valor a quem se esforça! Não a quem se auto-promove!

Ajudar no triunfo individual é contribuir para as vitórias colectivas. Em vez de inveja, tenhamos orgulho em quem faz bem! E essa ideia peregrina de que se é artista sem estudar. Como se a arte fosse algo etéreo… de inspiração poética… Ideia arrastada do período Clássico e fermentada no Romantismo. Que nada de mal teria, se ficasse apenas pelo campo das ideias.

Pelo contrário, chovem por aí artistas de qualidade tão duvidosa como a sua arte. E a soberba intelectual que bebemos nas esquinas dos cafés. Como se pensar as coisas fosse coisa adstrita a um só núcleo de criaturas iluminadas. Intelectuais… claro está! Essa classe de gente superior e inatingível. Tão mais inatingíveis quanto menos intelectuais são de facto. Porque os que eu tenho o privilégio de conhecer são uma ode à humildade. Os outros que por aí cirandam… bebem na fonte da sua própria pequenez.


Nota:

a: Dita aos microfones da Rádio Altitude [1] em Março de 2011; não me recordo do que me levou a escrevê-la… Hoje, reedito esta crónica a propósito do filme «A Gaiola Dourada» [2], que, tendo por parte de uma certa crítica uma mordaz e demolidora avaliação, tem aos olhos do povo uma aceitação amável e afectuosa. Não ficaria mal a certos intelectuais indagarem se também o fruto do seu trabalho é olhado com o mesmo carinho.

Um comentário a “Cultura é trabalho”

Há de facto muitos por aí que pensam que a ‘arte é algo etéreo… de inspiração poética…’; o que me fez lembrar as palavras do compositor Fernando Valente “uma obra de arte é 5% inspiração mas 95% transpiração”. E quem fala de música como arte facilmente alarga o conceito à vida de cada um e ao que fazemos no dia a dia. Gostei de ler!

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