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A Miss Universo

Por Hélder Oliveira Coelho

Estou desiludido, devastado, arrasado, com o ego a arrastar pelas ruas bafientas da amargura! A minha vida dava um fado, desses corridos, mas chorados e bem sofridos! Em tom de nota biográfica, segue um resumo curricular [1]. Bom aluno liceal e razoável universitário. Alguns trabalhos, artigos e publicações. Algum esforço social e solidário. Serão bons indicadores de carácter? Avaliando com base nos critérios mais canónicos, até serão. Todavia, não são de todo bons indicadores para quem quer iniciar uma carreira política (não que seja o meu caso, de todo). Ora, então, atentemos. Tenho eu uma visão crítica do Estado? Tenho, sim, senhor. Tenho opiniões concretas em algumas áreas para mudar ou, pelo menos, debater alguns vícios do regime? Pois sim, também tenho. E até tenho um razoável sentido de humor, que não raras vezes me salva desta e daquela situação embaraçosa. Então, o que não tenho eu? Não tenho perfil para Miss Universo.

Concluo que, para se ambicionar uma carreira política de sucesso, é imprescindível ter um forte perfil para Miss Universo. Falar com aquele tom inexpressivo e inespecífico. Manter um fácies teatral, obviamente tão falso como as notas do Alves dos Reis. Balbuciar um chorrilho de trivialidades. Fazer uso daquela entoação entre o dramático e o simpático. Um jeito desportivo, quem sabe até entre o rebelde e o clássico. Enfim, manter aqueles discursos tupperware, herméticos e selados. Aquelas máximas inquestionáveis, que obviamente trarão algo de diferente. Uma perspectiva completamente diferente do universo.

— Eu quero acabar com a pobreza!

Ora, eu quero acabar com a fome em África. Eu quero o fim da guerra no mundo. E quero que todas as betas tenham direito à sua mala Channel [2]. E quero que todos os azeiteiros tenham direito ao seu equipamento assinado pelo Cristiano Ronaldo e todas as tias solteironas tenham o seu homem robusto, ou equivalente objecto de auto-satisfação erógena! Eu quero Chocapic na mesa de todas as crianças, excepto das que não gostem de Chocapic. E poderia ficar ad aeternum a apresentar máximas que farão da nossa democracia algo muito melhor! Acontece que não tenho perfil para Miss Universo. A política deve fazer-se com elevação. A elevação a Miss Universo não deve constar do panorama ideológico politico-partidário. Assim o Sr. Seguro o soubesse [3].

Se, do lado do Governo, alguém precisa com urgência esclarecer o conceito de Constituição [4], por parte da oposição, alguém devia clarificar o significado das palavras «demagogia» e «responsabilidade».

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